Galápagos

Exposição coletiva resultante de um programa de residências artísticas que tiveram lugar nas Galápagos, através de uma colaboração entre a Fundação Calouste Gulbenkian e o Fundo para a Conservação das Galápagos. A exposição foi também apresentada em Liverpool e Edimburgo e teve uma resposta muito positiva do ponto de vista da crítica especializada.
Collective exhibition following a programme of art residencies held in Galapagos, thanks to a collaboration between the Calouste Gulbenkian Foundation and the Galapagos Conservation Fund. The show, also staged in Liverpool and Edinburgh, was received very positively by critics.

A exposição «Galápagos» foi inaugurada no dia 18 de abril de 2013 no Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) e esteve patente de 19 de abril a 7 de julho do mesmo ano. Com curadoria de Bergit Arends e Greg Hilty, as obras apresentadas resultam de um programa de residências artísticas nas ilhas Galápagos, levado a cabo entre 2007 e 2011, com o apoio do Fundo para a Conservação das Galápagos, em parceria com a Calouste Gulbenkian Foundation – U.K. Branch. Os projetos receberam apoios adicionais da Charles Darwin Foundation, nas Galápagos, e do Natural History Museum, em Londres.

Antes da apresentação em Lisboa, que ocupou o Hall, a Nave, as Salas A e B, a Sala de Exposições Temporárias e a Sala Polivalente do CAM, «Galápagos» foi apresentada no centro de arte contemporânea Bluecoat, em Liverpool, de 4 de maio a 1 de julho de 2012, e na Fruitmarket Gallery, em Edimburgo, de 2 de novembro de 2012 a 13 de janeiro de 2013, sempre com a curadoria de Bergit Arends e Greg Hilty. A inauguração em Lisboa ocorreu em simultâneo com a inauguração das exposições «Razões Imprevistas», mostra retrospetiva da obra de Fernando Azevedo, com curadoria de Leonor Nazaré, e «A Obra Perdida de Emmerico Nunes», um vasto conjunto de desenhos de Emmerico Nunes, com curadoria de Isabel Lopes Cardoso e José Pedro Cavalheiro. Este evento contou com a presença de Artur Santos Silva e Teresa Gouveia, respetivamente presidente e administradora da FCG.

Tal como é referido no Relatório e Contas. FCG, referente ao ano de 2013, a exposição partiu do convite a 12 artistas portugueses e ingleses para se relacionarem, nos seus próprios termos, com as comunidades locais e científicas das Galápagos. Assim, Jyll Bradley (1966), Paulo Catrica (1965), Filipa César (1975), Marcus Coates (1968), Dorothy Cross (1956), Alexis Deacon (1978), Jeremy Deller (1966), Tania Kovats (1966), Kaffe Matthews (1961), Semiconductor (Ruth Jarman, 1973, e Joe Gerhardt, 1972) e Alison Turnbull (1956) apresentaram trabalhos nos quais se debruçaram sobre questões relacionadas com arte, ciência, natureza e política.

O ser humano, enquanto problema e solução para a preservação do ecossistema do arquipélago, foi também objeto de reflexão por parte dos artistas, proporcionando «novos pontos de vista e abrindo possibilidades para uma mudança de atitude em relação às ilhas, uma mudança que podemos implementar uma vez regressados aos nossos países», com gestos simples, como «incutir um maior respeito pelo próximo e pelos sítios onde vivemos, ter uma maior consciencialização da vulnerabilidade das pessoas e, em última análise, do nosso planeta», referiram no prefácio do catálogo Andrew Barnett, diretor da Delegação do Reino Unido da FCG, e Isabel Carlos, diretora do CAM (Galápagos, 2013, p. 4).

O problema da preservação das espécies animais e vegetais e da sobrevivência das comunidades locais constitui um dos motivos para a atribuição de apoios por parte da FCG a projetos nestas áreas. Através da colaboração com o Fundo para a Conservação das Galápagos, a FCG pretendeu estimular o contacto entre as pessoas e a natureza, influenciando ações locais em prol do ambiente e chamando a atenção para a importância da pesquisa científica e das atividades de conservação levadas a cabo nas Galápagos.

Na seleção dos artistas participantes no projeto, foi tido em conta o seu interesse por políticas ambientalistas, propondo-se que os trabalhos estabelecessem relações entre as questões ambientais do arquipélago e os problemas vividos no seu quotidiano, para que houvesse uma sinergia entre o local e o global. «Os 12 artistas que participaram no programa de residência foram selecionados mais na base do que cada um poderia trazer à situação em termos da sua obra anterior e do seu interesse pelas Galápagos do que na promessa de um resultado em particular.» (Galápagos, 2013, p. 29)

As residências artísticas incluíram uma excursão de uma semana pelas ilhas, à qual se juntou um pequeno grupo de turistas, e a ajuda de um naturalista. Depois deste primeiro contacto no terreno, os artistas permaneceram duas semanas nas ilhas, muitas vezes nos alojamentos rudimentares habitualmente utilizados pelos cientistas que visitam o Centro de Investigação Charles Darwin, e a partir destas bases cada um fez as suas saídas para explorar os seus pontos de interesse. Nestas incursões, contaram com a colaboração de um grupo de assistentes (Cristina Georgii, Elke Hartmann, Rodrigo Jacome, Graciela Monsalve e Veronica Toral), além de terem tido o apoio do programa «Native Gardens», que promoveu encontros, arranjou equipamento e forneceu todo o tipo de material, e que inclusive os ajudou a trabalhar com escolas e residentes locais (Galápagos, 2013, p. 11).

Pretendia-se que os artistas registassem o que viam, podendo optar por diferentes suportes, pelo que foram produzidos desenhos, fotografias, pinturas, filmes, media digitais, instalação, escultura, peças de som e até um programa interativo de televisão. O objetivo, mais do que obter retratos realistas das ilhas, era produzir ideias e sentimentos relativos aos vários aspetos e histórias vividos nas Galápagos, de modo que os trabalhos refletissem «o prazer, a extraordinária proximidade, a harmonia, até, que [os artistas] tiveram com as criaturas das Galápagos» (Galápagos, 2013, p. 43), mas também que constituíssem «testemunhos independentes de um meio ambiente com muitas reivindicações de território, algumas das quais levaram à sua degradação e espoliação», como sublinhou Bergit Arends («CAM mostra resultado de viagem de 12 artistas nas Galápagos», Notícias ao Minuto, 18 abr. 2013).

Os trabalhos traduziram-se por isso nas mais variadas visões artísticas sobre diversos aspetos relacionados com as ilhas. A introdução de espécies e a conjugação simultânea entre a sua adaptação e a presença de características anteriores surgiram no vídeo Cock Fight (2010), de Jeremy Deller, sobre a luta de galos nas Galápagos. Na instalação Morel's Yellow Pages (2012), Filipa César entrelaça ficção e factos, articulando documentação e informação recolhidas nas Galápagos com ideias do escritor argentino Adolfo Bioy Casares, extraídas do seu livro A Invenção de Morel (1940), no qual o escritor põe em prática a construção de uma máquina capaz de reproduzir sons, imagens e cheiros. Filipa César criou uma «instalação articulada com as reflexões de Morel e baseada em arquivo de filme, documentos e informação geopolítica recolhidos nas Galápagos durante e após a viagem de pesquisa», recriando um imaginário sobre as ilhas, percecionadas como recetáculo de crenças e sonhos (Galápagos, 2013, p. 110).

O respeito pelo contexto foi um dos elementos centrais na conceção de algumas obras, como no trabalho dos artistas Kaffe Mathews, You might come out of the water every time singing (2012), que resultou do mergulho do artista com tubarões-martelo, e com o qual convidava o público a deitar-se, e de Alexis Deacon, que se recusou a usar uma câmara para registar aquilo que via, preferindo o desenho de materiais diversos sobre papel.

A obra de Jyll Bradley explorou a história de um território insular através da sua flora e da importância que os jardins comunitários têm na sociedade, em Audiences (2012) e Vessels (2012), acabando por desenvolver projetos nesta vertente em colaboração com a Fundação Charles Darwin, em soluções de restauro ecológico, e com habitantes locais, em projetos de jardinagem nas Galápagos.

Também o duo Semiconductor contribuiu voluntariamente para a comunidade científica local ao colaborar de forma regular com os cientistas, articulando diferentes disciplinas do mundo das ciências. Esta colaboração esteve na base de Worlds in the Making (2011), instalação vídeo produzida a partir do acompanhamento do trabalho de investigadores que estudam os vulcões das ilhas.

A relação entre espécies e entre animais e humanos nas Galápagos influenciou o vídeo de Marcus Coates. Feito durante a sua estada nas ilhas, Human Report (2008) aborda a necessidade humana de documentar e transmitir o observado, invertendo ironicamente os papéis de visitado e visitante. Assim, o artista veste-se de ganso-patola-de-patas-azuis, ave icónica das ilhas, para registar em tom de reportagem os seus contactos com a população e com os seus costumes locais.

Em alguns casos, o regresso dos artistas aos seus países de origem desencadeou uma renovada conexão a esses lugares, motivada pela forma de trabalhar desenvolvida nas Galápagos. É o caso de trabalhos como Specimens (2012), Species (2012) e Algunas Mariposas del Ecuador (2012), de Alison Turnbull, fruto de uma pesquisa sobre borboletas iniciada pela artista nas Galápagos e prosseguida depois em Londres, no Museu de História Natural, ou de Texugo (atropelamento) (2011), de Tania Kovats, uma reflexão da artista sobre as espécies que têm um efeito negativo nos ecossistemas e que por isso têm de ser erradicadas.

A montagem da exposição fez-se em torno de uma estrutura de madeira que reconfigurou a nave principal do CAM, influenciada pelo «trabalho de Paulo Catrica, que trocou tartarugas e iguanas pela arquitectura incompleta de Puerto Ayora e Puerto Baquerizo Moreno, as duas principais cidades» (Canelas, Público, 3 mai. 2013). Ao contrário da maioria dos restantes trabalhos, a obra de Paulo Catrica não se deteve nas questões científicas ou ambientais do arquipélago. O artista optou por fazer uma análise sociológica e antropológica através da desconstrução da imagem das Galápagos enquanto local paradisíaco, fazendo registos fotográficos dos edifícios inacabados decorrentes de referências arquitetónicas e visões culturais importadas.

Ao entrarem na exposição, os visitantes viam de imediato a peça Baleia (2011), de Dorothy Cross, antes da sala onde se podiam ver as obras de Filipa César e os desenhos e guaches de Alexis Deacon. Tratava-se de um esqueleto de baleia que Cross recolheu e dispôs na exposição, para evocar uma sala do Centro de Investigação Charles Darwin, que, repleta de esqueletos de baleia provenientes da caça intensiva ocorrida no século XVIII, se assemelhava ao cenário de uma peça de teatro.

Algumas das obras criadas nestas residências foram adquiridas por galerias em Inglaterra, integradas em coleções privadas ou públicas, apresentadas em exposições individuais e coletivas e algumas delas receberam prémios. O intuito de expor todos os trabalhos surgiu depois, tendo sido concebida uma mostra itinerante, em vários pontos da Europa. O catálogo da exposição, publicado pela FCG em português, inglês e espanhol, testemunha as várias perspetivas dos artistas em relação aos problemas das Galápagos e acompanha as várias exposições destes trabalhos. Mais do que um catálogo de exposição, a publicação apresenta uma perspetiva ampla dos problemas que envolvem os desafios de preservação das Galápagos, contando para isso com ensaios do geólogo Richard Fortey.

No relatório final da exposição, constam catorze periódicos que publicaram notícias sobre «Galápagos», entre os quais, os jornais Diário de Notícias e JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias e as revistas Time Out e Ípsilon, além dos blogues Umbigo e Canela e Hortelã. O feedback foi muito positivo do ponto de vista da crítica especializada, que destacou a participação de dois artistas portugueses numa iniciativa de escala internacional. Neste relatório apontam-se ainda os pontos mais fortes, como a visibilidade das obras e a facilidade de circulação, e os pontos mais fracos, a falta de informação e a sinalética deficiente.

Segundo Tânia Fernandes, no artigo que escreveu para o blogue Canela e Hortelã, «os curadores Bergit Arends e Greg Hilty, presentes na apresentação, mostraram-se fascinados com a luz e a interação entre o edifício e a natureza envolvente, que em tudo promove o tema em causa. A proposta de disposição das obras aproveita aqui não só os trabalhos, como as valências arquitetónicas do espaço, induzindo a submersão do visitante» (Fernandes, C&H. Magazine de Cultura, Lazer e Viagens, 19 abr. 2013).

Sobre o efeito das obras e da exposição nos seus visitantes, Bergit Arends desejou que estas tivessem o poder de consciencializar o público sobre os efeitos da pegada humana no meio ambiente e na preservação das espécies: «Se estas obras de arte estimularem a nossa imaginação e provocarem uma resposta mais ética ao mundo natural, então isso será um resultado extremamente bem-vindo e portentoso. Seja qual for o caso, aquilo que as obras conseguem é a formulação de um novo cânone de ícones pictóricos das Ilhas que adquirem um significado especial no início do século XXI. Os artistas fizeram não só uma elegia, mas também um apelo a favor da natureza.» (Galápagos, 2013, p. 47)

Carolina Matias, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Eventos Paralelos

Visita(s) guiada(s)

À Conversa com os Artistas e Curadores. Jyll Bradley, Paulo Catrica, [...], com Bergit Arends e Greg Hilty

abr 2013
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna
Lisboa, Portugal
Visita(s) guiada(s)

Domingos com Arte

abr 2013 – jul 2013
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna
Lisboa, Portugal
Visita(s) guiada(s)

Pontes entre Exposições

mai 2013
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna
Lisboa, Portugal
Visita(s) guiada(s)

Uma Obra de Arte à Hora do Almoço

mai 2013 – jul 2013
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna
Lisboa, Portugal
Oficina / Workshop

Técnicas Artísticas para Não-artistas. Práticas Criativas e Ferramentas Pedagógicas

mai 2013
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna
Lisboa, Portugal
Visita(s) guiada(s)

[Galápagos]

23 abr 2013
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Andrew Barnett, Teresa Gouveia, Isabel Carlos e Artur Santos Silva
Artur Santos Silva, Teresa Gouveia e Isabel Carlos
Angela McSherry (à dir.)
Bergit Arends (à esq.), Teresa Gouveia (à dir.)
Andrew Barnett, Artur Santos Silva e Isabel Carlos
Andrew Barnett e Isabel Carlos

Multimédia


Documentação


Periódicos


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00684

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém plantas e alçados da exposição, material fotográfico (aspetos) da exposição na galeria Bluecoat (Liverpool), relatório final da exposição, convite, relatório do estado de conservação das obras, orçamentos, correspondência interna e externa, brochura da exposição na galeria Bluecoat, lista de obras, impressão do catálogo (versão inglesa) e «loan forms». 2012 – 2013

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00685

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém lista de moradas, «packing and condition reports» e correspondência externa entre o CAM e os artistas. 2013

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 4901

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG-CAM, Lisboa) 2013

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 4900

Coleção fotográfica, cor: inauguração (FCG-CAM, Lisboa) 2013

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00684

Coleção fotográfica, cor: aspetos (Bluecoat, Liverpool) 2012


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