Patrick Caulfield

Exposição itinerante e individual retrospetiva do artista inglês Patrick Caulfield (1936-2005), abordando 36 anos de pintura, entre 1936 e 1997. Organizada pelo British Council em colaboração com a Fundação Calouste Gulbenkian, a exposição apresentou ao público português 55 obras de pintura do artista britânico.
Travelling solo retrospective exhibition on English artist Patrick Caulfield (1936-2005) covering 36 years of painting, from 1961 to 1997. Organised by the British Council in collaboration with the Calouste Gulbenkian Foundation, the exhibition presented the Portuguese public with 55 of the British artist’s paintings.

Ao longo da sua história, a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) cooperou muitas vezes com o programa de exposições itinerantes do British Council. Em 1999, era a segunda vez que uma exposição individual de Patrick Caulfield (1936-2005) chegava a Lisboa através dessa parceria institucional. A primeira acontecera dez anos antes, apresentando um conjunto extenso de serigrafias na Sala de Exposições Temporárias do Centro de Arte Moderna da FCG (Patrick Caulfield. Serigrafias, 1989). Cabia agora ao então rebatizado Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAMJAP) articular com o British Council o acolhimento de uma retrospetiva deste nome fundamental da Pop Art britânica, desta vez na Galeria de Exposições Temporárias da Sede da FCG (piso 0).

Para esta digressão internacional foi reunido um acervo de 55 obras de pintura, com um arco cronológico que ia de 1961 a 1997. A estreia da itinerância deu-se em Londres, na Hayward Gallery, coorganizadora da iniciativa. Esteve patente na capital britânica entre 4 de fevereiro e 11 de abril de 1999, seguindo depois para o Luxemburgo, onde uma seleção mais restrita foi exposta no Musée National d'Histoire et d'Art, de 23 de abril a 23 de junho do mesmo ano. Foi de lá que viajou até à FCG, inaugurando a 1 julho e encerrando a 26 de setembro. Após o fecho da edição de Lisboa, deu-se a exportação para os Estados Unidos da América, onde foi apresentada, de 27 de outubro de 1999 a 9 de janeiro de 2000, no Yale Centre for British Art (New Haven, Connecticut).

O catálogo de exposição foi editado pela Hayward Gallery, em versão inglesa, com a FCG a compor uma separata com a tradução portuguesa dos principais conteúdos textuais e que foi incluída como encarte para a mostra de Lisboa. A edição principal reproduz fotograficamente cada uma das peças que integraram o projeto e que procederam de numerosos emprestadores institucionais e privados, a nível internacional (Patrick Caulfield, 1999). Entre elas encontra-se The View of the Bay, pintura de 1964, incorporada na coleção da FCG desde 1970 (Coleção Moderna, Inv. PE250), e que foi emprestada para as diversas etapas desta itinerante. Foi ela a ignição do contacto estabelecido entre o British Council e o CAMJAP, à semelhança do que tem vindo a acontecer com imensas obras do qualificado núcleo de arte britânica da Fundação. Na passagem da exposição por Lisboa, essa pintura foi reproduzida nos convites e no merchandizing associado ao evento, nomeadamente em T-shirts estampadas (Arquivos Gulbenkian, CAM 00430).

No cômputo das obras integradas nesta retrospetiva, The View of the Bay surge como uma das peças que lançam a maturação autoral de Caulfield, em meados dos anos 60. É por essa altura que a sua abordagem do quotidiano começa a esquematizar-se em cores vivas e compactas, com salientes contornos a negro a certificar o pendor eminentemente gráfico da sua pintura.

A partir daí, a mostra acompanhou o modo como, por volta de 1975, as depurações pictóricas de Caulfield começam a ser conjugadas com representações hiper-realistas de flores, loiças, comida e outros «sintomas» dos gostos, dos estilos de vida. Entenda-se, a este respeito, que o que Caulfield pinta (por vezes com minúcia fotográfica) são fotografias dessas coisas, característica que mantém e destaca quando as enquadra nas suas cenas. Não representa diretamente esses objetos e fenómenos «tirados do natural». Com tecnicismo, demora-se antes a pintá-los na sua condição de produtos já fotografados e mediatizados pelo mercado. Tal como, no mesmo período, Roy Lichtenstein repunha na manualidade da pintura a reprografia mecânica das revistas de BD, assim Caulfield mima o tipo de imagética que a fotografia industrializa e vende. Nas suas composições, esses fragmentos miméticos parecem colagens de recortes de revistas, conservando distorções perspéticas e replicando até aquela luminosidade saturada tão própria do advertising.

Chegados os anos 80 e 90, a exposição apresentou várias obras em que as geometrizações lançam tensões espaciais que não deixam de apelar, de um modo lateral e curioso, ao legado cubista – especialmente a pintura de Juan Gris, que Caulfield tanto admirava, dedicando-lhe inclusivamente um retrato, de 1963, que esta exposição contemplou. Também é inevitável lembrar o surrealista René Magritte, e particularmente a obra La Trahison des images (1929). Trata-se daquela célebre pintura em que inscreve «Ceci n'est pas une pipe» [«Isto não é um cachimbo»] por baixo da representação de um cachimbo – objeto que Caulfield envolve em paradoxos óticos e ilusionistas em alguns trabalhos da década de 1990.

Eram assim postos em exposição cerca de trinta e seis anos de pintura, em que a suposta trivialidade dos lugares e artefactos de Caulfield foi sempre revelando ponderadas surpresas (óticas e conceptuais). Tudo por trás de uma visualidade assertiva, onde se adivinham o cartaz publicitário, a banda desenhada, as artes decorativas, os padrões têxteis – universos tão cruciais para este artista como para outros dos seus pares conotados com a Pop Art, quer britânicos, quer norte-americanos.

Contudo, denotam-se divergências de fundo entre a postura artística de Caulfield e algumas das dinâmicas mais facilmente identificáveis com a Pop. Na base desse distanciamento, referem-se amiúde as deliberadas ancoragens do seu percurso na história da pintura europeia, aspeto que, sendo por vezes subtil, é também uma das suas características mais diferenciadoras. À superfície, os seus apelos ao quotidiano parecem revestir-se de atualizações pop, mas um segundo olhar encontra frequentemente algo mais afim a entendimentos da trivialidade que reconhecemos no Impressionismo, Pós-impressionismo, Fauvismo e Cubismo. Caulfield não apenas cita recorrentemente algo da estética desses movimentos, como parece investido em participar, a partir da experiência da sua contemporaneidade, numa tradição pictórica que neles descobre. É-lhe lateral o tipo de exploração dos ícones da cultura de massas que muita da Pop empreendeu. Não que a sociedade de consumo não seja uma problemática central em Caulfield. É-o, no entanto, a partir de uma esfera mais privada, íntima, ou até solipsista.

Quando esteve em Lisboa para a inauguração da mostra, Caulfield voltou a dissociar-se de certas linhas mestras da Pop – tendência à qual ficará sempre associado. Comentários seus são citados num artigo que Luísa Soares de Oliveira redige para o jornal Público, e ao qual atribui o consonante título «A Pop que nunca existiu» (Oliveira, Público, 9 jul. 1999). É provável que essas considerações tenham sido tecidas durante a visita pré-inaugural com o artista, organizada pelo CAMJAP exclusivamente para a comunicação social (Arquivos Gulbenkian, CAM 00430).

Quanto à programação paralela para o público em geral, há notícia de uma visita orientada à exposição, a 23 de julho de 1999, conduzida por Constança Metello Seixas («Visita Guiada a Patrick Caulfield», Euronotícias, 23 jul. 1999).

Daniel Peres, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

View of the Bay

Patrick Caulfield (1936-2005)

View of the Bay, 1964 / Inv. PE250


Eventos Paralelos

Visita(s) guiada(s)

[Patrick Caulfield]

1 jul 1999
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede – Galeria de Exposições Temporárias (piso 0)
Lisboa, Portugal
Visita(s) guiada(s)

[Patrick Caulfield]

23 jul 1999
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede – Galeria de Exposições Temporárias (piso 0)
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias


Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00430

Pasta com documentação referente à exposição. Contém o contrato de exposição celebrado entre a FCG e o British Council; informações de seguro e transporte para a reexportação da exposição para os Estados Unidos da América; correspondência interna e externa; relatório de infraestruturas da FCG, enviado à Tate Gallery, tendo em vista o empréstimo de obras da coleção dessa instituição; transparências fotográficas de obras de Patrick Caulfield. 1997 – 1999

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 110231

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 1999


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