• 1918
  • Cartão
  • Guache
  • Inv. DP3338

José de Almada Negreiros

Figurino para o bailado A Princesa dos Sapatos de Ferro

A Princesa dos Sapatos de Ferro é o nome do bailado coreografado por José de Almada Negreiros, também autor dos figurinos, e levado a palco no Teatro de São Carlos em 1918, graças ao financiamento da condessa Helena de Castelo Melhor, em cuja residência Almada havia já apresentado o bailado, também de sua autoria, O Sonho da Princesa na Rosa, em 1916.

 

A Princesa dos Sapatos de Ferro contou com música de Ruy Coelho e cenografia de José Pacheko, tendo sido anunciado na edição de Portugal Futurista em 1917. Foi representado no teatro de São Carlos, pouco tempo depois dos Ballets Russes de Sergei Diaghilev terem também ali actuado. A presença da companhia de Diaghilev foi um acontecimento marcante, e Almada contactou com o coreógrafo russo durante a sua estadia em Lisboa, entre Dezembro de 1917 e fim de Março de 1918.

 

O bailado A Princesa dos Sapatos de Ferro não deixa de ser fruto do impacto que provocara a companhia russa no ambiente artístico parisiense, que José Pacheko vivenciou nas largas temporadas passadas em Paris, onde teve oportunidade de assistir a espectáculos quer dos Bailados Russos, quer da companhia de Isadora Duncan. O encontro com Diaghilev em Lisboa e os espectáculos por ele aí apresentados são de enorme importância para o projecto de modernidade deste conjunto de artistas de que Almada Negreiros fazia parte.

 

De lembrar que, em 1917, o bailado Parade levado a cena pela companhia de Diaghilev, com música de Erik Satie, tinha figurinos de Picasso. Os espectáculos em Lisboa, dois no coliseu e um no S. Carlos, terão sido de peças diferentes, O Espectro da Rosa e Thamar*. Mas a vontade subjacente de conjugar artes plásticas e artes de palco, de extravasar para todas as áreas de expressão artística uma concepção de arte activa e tão transformadora do real e construtora da modernidade quanto fruto, ela própria, da modernidade, ou de transmitir uma «compreensão feliz da arte moderna»**, é a que também informa a proposta de bailado de Almada Negreiros.

 

O figurino aqui representado está, pois, na esteira das propostas revolucionárias na cenografia e figurinos dos Ballets Russes, apresentando uma figura diabólica cujo fato é rigorosamente geometrizado e com uma relação de cores a que não será alheio o conhecimento dos contrastes simultâneos nos círculos órficos de Sonia e Robert Delaunay. Sonia Delaunay, aliás, desenvolveu amplamente a sua pesquisa pictórica também em vestuário e figurinos, e na correspondência que lhe enviou Almada em 1915-16 fala-se de um projecto de “poèmes en coleurs” e “ballets simultanistes” entre ambos, nunca concretizado***.

 

O desenho colorido a gouache, com cornos recurvos e garras triangulares, é do figurino da personagem do diabo desempenhada pelo próprio Almada, que foi também bailarino da coreografia que concebeu. Além do diabo, representava ainda o papel da bruxa. Existem fotografias**** de Almada com este traje de demo, onde se podem ver algumas semelhanças com o figurino desenhado, embora sem as curiosas andas e com um padrão aparentemente menos complexo, talvez pela dificuldade em reproduzir o desenho original de forma fidedigna.

 

 

Mariana Pinto dos Santos

Junho de 2013

 

 

*Ver programa do Coliseu, capa e contracapa de Jorge Barradas, 1917.

** José de Almada Negreiros, Ruy Coelho, José Pacheko, “Os Bailados Russos em Lisboa” in Portugal Futurista, 1917 (ed. facsimilada, Lisboa: Contexto, 1990.

*** Cf. Paulo Ferreira, Correspondance de quatre artistes portugais avec Robert et Sonia Delaunay, Paris, P.U.F., 1972.

**** Ver Joaquim Vieira, Fotobiografia. Almada Negreiros, Círculo de Leitores, 2001.

Tipo assinatura
TextoAlmada
Posiçãofrente, quadrante superior direito
Tipo data
Texto1918
Posiçãofrente, quadrante superior direito
TipoAquisição
Data14 de Fevereiro de 2012
Atualização em 23 janeiro 2015

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