Reclinado assim, emblematicamente de perfil como quem re/pousa para a imortalidade, cobre-te uma falsa Capa Magna de um vermelhão cardinalício que devora em consonâncias múltiplas o espaço abstrato onde sereno habitas.
Tudo alenta a serenidade da mística proporção.
Aprecio o modo como apoias pastoralmente sobre um ombro o báculo/bordão feito arma de brincar e reparo na insólita ínfula estreita e roxa que enfaticamente se desenrola sobre o oposto ombro onde espreita, descuidadamente, o branco de uma ponta da tua Alva.
“Bispo vermelho” te designam, a ti, menino mitrado que prendes o teu olhar algures, no infinito do espaço vazio. Nunca me olhaste; nunca nos olhos te olhei desde que nasceste da ocultada geometria para seres silenciosamente eterno.
Ambicionei-te bom, fraterno e justo mas, na tua inocência, talvez ignores que no branco imaculado da mitra – que em ti é mais ornato do que atributo de poder – te bordaram a ouro, quase oculta, um símbolo das fogueiras da Santa Inquisição.
Jorge Pinheiro
S. Pedro do Estoril, 11/07/2012