Paula Rego

Sem título n.º 5
1999

Galeria


Informação técnica

Autor(es)
Paula Rego (Lisboa, Portugal, 1935 – Londres, Reino Unido, 2022)
Título
Sem título n.º 5
Data
1999
Materials and media
Papel
Técnica
Água-forte sobre papel
Dimensões
Altura 37,80 cm; Largura 47,50 cm
N.º de inventário
GP1806

Inscrições

Tipo
Assinatura
Descrição
Paula Rego
Posição
Frente, canto inferior direito
Tipo
Número de série
Descrição
1/17
Posição
Frente, canto inferior esquerdo

Incorporação

Tipo
Doação
Proveniência
Paula Rego (Lisboa, Portugal, 1935 – Londres, Inglaterra, 2022)
Intermediário
CAM/FCG
Data
Setembro de 1999

Texto

Uma mulher sentada sobre um bacio, apoiada sobre os seus joelhos, dobrada sobre si própria, com a cabeça encostada a uma cama, apoiando a pontas dos dedos no chão. Os olhos estão fechados, numa tentativa de abstracção da dor. De contenção da dor. Esperando que este pico de intensidade passe. O desalinho da personagem é corroborado (e intensificado) pelo desalinho do cenário: a coberta da cama amarfanhada, um pano no chão ao lado de um jarro, uma poltrona tombada. A “natureza morta” que serve de cenário à cena mimetiza o drama representado, traduzindo a passagem de uma espécie de devastação, índice temporal do desenrolar de um acontecimento. A construção do espaço concorre para a sensação de afunilamento e contracção: o lugar central atribuído à mulher (cuja posição corporal se estrutura em três diagonais — tronco, coxas, canelas) é enquadrado, à direita, pela diagonal da cama e, à esquerda, por uma outra diagonal quebrada num canto, canto esse que, se introduz alguma profundidade ao espaço, sublinha a ideia de afunilamento, contracção e clausura.

A gravura em questão baseia-se num pastel de 1998, intitulado Untitled nº 2. Se neste a construção de volumes era, de certo modo, mais “limpa”, na gravura, devido à forte presença do traço, do risco cruzado, adquire renovada violência; se no pastel o vermelho da coberta da cama e da poltrona lhe acrescentavam significados, esses são na gravura explorados precisamente através da convulsão omnipresente do traço; alterações imediatamente perceptíveis da composição: a poltrona continua tombada, mas muda de posição, o pano branco sobre a cama na qual a mulher encosta a cabeça desaparece, ao lado do jarro no chão surge, na gravura, um pano amarrotado, a mulher está agora descalça e não de meias, as suas mãos já não agarram os joelhos, mas apoiam as pontas dos dedos do chão. As alterações exponenciam as potencialidades do desenho e do claro-escuro da gravura, em alternativa aos jogos cromáticos e à construção de volumes que estruturavam a composição do pastel. 

Por intensa que seja a tradução do momento representado, note-se como a dor é sempre contida, protegendo a intimidade exposta pela “máscara” de um rosto que só se revela “para dentro”. Deste modo, a autora não permite que a exposição de uma intimidade resvale para o sentimental ou patético. Porque estas não são obras sentimentais ou com uma intenção de apelo emocional. São, antes de mais, uma declaração e uma intervenção política.

 

Luísa Cardoso

Julho 2014 

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