Paula Rego

Sem título n.º 3
1999

Galeria


Informação técnica

Autor(es)
Paula Rego (Lisboa, Portugal, 1935 – Londres, Reino Unido, 2022)
Título
Sem título n.º 3
Data
1999
Materials and media
Papel
Técnica
Água-forte sobre papel
Dimensões
Altura 37,80 cm; Largura 47,50 cm
N.º de inventário
GP1805

Inscrições

Tipo
Assinatura
Descrição
Paula Rego
Posição
Frente, canto inferior direito
Tipo
Número de série
Descrição
1/17
Posição
Frente, canto inferior esquerdo

Incorporação

Tipo
Doação
Proveniência
Paula Rego (Lisboa, Portugal, 1935 – Londres, Inglaterra, 2022)
Intermediário
CAM/FCG
Data
Setembro de 1999

Texto

Realizada após o primeiro referendo sobre a despenalização do aborto em Portugal (Junho de 1998), cujo resultado permitiu que esta realidade social permanecesse na clandestinidade, esta série de Paula Rego sobre o aborto é precedida de estudos preparatórios e de uma série de pinturas a pastel, realizadas ainda em 1998. Ao decidir, em 1999, realizar gravuras sobre o mesmo tema, a autora demonstra o seu empenho na defesa e divulgação de uma posição sobre o assunto.

Tal como na série de pastéis, Paula Rego designa a série de Untitled ou Sem Título. Como já disseram Ruth Rosengarten ou Jorge Molder, a “ausência” de título evidencia o silêncio político, social sobre esta realidade, o estatuto clandestino (e por isso de segredo silenciado) a que essa situação legislativa remetia estas mulheres, o carácter não nomeável das situações retratadas, de uma angústia e intimidade não partilháveis.*

Nesta gravura em particular — derivada de um dos pastéis com que compôs um Tríptico em 1998 —, Paula Rego representa a mulher como uma colegial inglesa, sublinhando assim, diz-nos em entrevista, um paralelismo entre a penalização legislativa portuguesa e inglesa e enfatizando a crueldade da situação pela precocidade da idade.** Relativamente ao pastel que lhe está na origem — como, de resto, sucede com todas as gravuras da série que têm origem num pastel —, o enquadramento aproxima-se da personagem, depurando os elementos do cenário. Aliado à ausência de cor, essa subtracção de elementos do cenário (cama, almofada, tapete) e a aproximação do enquadramento resultam numa concentração no drama pessoal — e social — que é denunciado.

Em primeiro plano vemos uma mulher sentada sobre um balde, com o corpo contraído sobre o ventre, com a cabeça encostada a um poltrona. Num segundo plano, adivinhamos uma peça de mobiliário coberta por um lençol. Todos os elementos que compõem o cenário nos remetem, assim, para um ambiente doméstico e para a precariedade da situação — ou seja, para o problema de saúde pública que a clandestinidade do aborto representa. As duas diagonais estabelecidas pelo corpo da mulher e pela poltrona parecem reforçar a tensão que observamos no seu rosto. Porém, essa dor que se adivinha é, também ela, contida, protegendo a intimidade revelada da sua exposição pública.

 

* Ruth Rosengarten, “Nourrir l’adulte intérieur: dessins et gravures à l’eau forte” in Secrets Dévoilés: Dessins et Gravures de Paula Rego, Paris, Centre Culturel Calouste Gulbenkian, 1999, pp. 28-30. Introdução de Jorge Molder in Paula Rego, Untitled, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, 1999

** “E claro que o aborto também era proibido aqui [Inglaterra], não era muito diferente do que se passava lá]. Tudo isso me enfureceu — e foi por isso que eu também as vesti como raparigas de colégio, estudantes inglesas. Não é nada agradável pois não?” Entrevista de Paula Rego in T.G Rosenthal, Paula Rego. Obra Gráfica Completa, Vol. 1, Lisboa, Cavalo de Ferro/Jornal de Letras/Visão, 2005, p. 96 

 

Luísa Cardoso

Julho 2014 

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