Amadeo de Souza-Cardoso

Sem título (Clown, Cavalo, Salamandra)
c. 1911 – 1912 (data atribuída)

Galeria


Informação técnica

Autor(es)
Amadeo de Souza-Cardoso (Manhufe, Portugal, 1887 – Espinho, Portugal, 1918)
Título
Sem título (Clown, Cavalo, Salamandra)
Data
c. 1911 – 1912
Materials and media
Papel; Guache
Técnica
Guache sobre papel
Dimensões
Altura 23,80 cm; Largura 31,80 cm
N.º de inventário
77DP345

Inscrições

Tipo
Assinatura
Descrição
A.S.C.
Posição
Canto inferior esquerdo
Tipo
Título
Descrição
CLOWN CAVALO SALAMANDRA
Posição
Canto inferior esquerdo

Incorporação

Tipo
Doação
Proveniência
Lucie de Souza Cardoso
Data
1977

Texto

Clown, Cavalo, Salamandra é o mais reproduzido dos guaches de Amadeo, e foi, provavelmente, uma das obras da sua primeira exposição com Modigliani (1911).[1] Embora o desenho domine então o seu trabalho, a experiência breve com o guache seria decisiva, levando-o às experiências pictóricas que desenvolve mais tarde a óleo, impondo à simplificação gráfica das composições o colorido e a materialidade intensa que se tornam uma das suas marcas distintivas, e explorando novos meios para representar o ritmo e movimento nos seus usuais temas cinegéticos.

Conhecem-se dois desenhos preparatórios idênticos deste guache (ver I e II), nos quais a fisionomia do cavalo parece ser decalcada do pergaminho japonês de Fujiwara Takanobu (século XII).[2] Porém, a figura do cavaleiro montado desaparece do guache, e surge, em seu lugar, um insólito chapéu colorido de palhaço (clown). Também o cavalo, o único protagonista, apesar de não ter decoração no desenho, adquire a extravagante pigmentação de uma salamandra, com círculos brancos e verdes (exagerando o cavalo malhado do ícone japonês), numa malha de signos pictóricos que, no mesmo ano em que Franz Marc começara a pintar os cavalos azuis, e antes da invenção dos círculos órficos de Robert Delaunay, se torna um motivo recorrente na obra de Amadeo, que a vai manipulando de formas diferentes como uma estratégia para reformular a ideia da representação naquilo que ela mais atacada pelas vanguardas: no ritmo, no espaço e na vitalidade.

Ao contrário da selva exótica, à Henri Rousseau, como prevista no desenho, com o enquadramento esquemático e minimal de plantas na frente e uma palmeira no fundo, no guache, esta última será colocada num canteiro. Parece assim situar-se num interior (inacabado?), atravessado por uma mancha amarela que une vários núcleos da imagem, caracterizados pelo espaço plano e pelas escalas divergentes. Desconhece-se qualquer eventual referente narrativo da inscrição Clown, Cavalo, Salamandra, pelo que a combinação aparentemente aleatória de palavras parece anunciar o uso futurista que dela fará depois. A ilustração insólita, porém, evoca o ambiente festivo que obedece ao programa de euforia visual protagonizado por Amadeo, recorrendo ao circo como motivo central na arte moderna, e na cultura popular – de coincidentes paralelos à famosa obra de Seurat[3] –, para explorar, de modo visualmente apelativo, possibilidades pictóricas do colorido e desenho.

 

Afonso Ramos

Junho de 2013

 

[1] A exposição de Amadeo e Modigliani teve lugar no ateliê do artista português, no 3, rue Colonel Combes, em Paris, onde afirma ter apresentado “desenhos e alguns cartões,” ao lado de guaches e sete esculturas do italiano. Entre os convidados de honra, estiveram presentes Apollinaire, Brancusi, Derain, Max Jacob e Picasso.

[2] O original, Handscroll of Horses, encontra-se no British Museum, Londres. Cf. Amadeo de Souza-Cardoso: diálogo de vanguarda, Lisboa: CAM/FCG, 2006, p. 187.

[3] A emblemática obra de Seurat, Le Cirque (1890), cuja paleta tem aqui algum eco, parece ter sido citada diretamente por Amadeo num desenho desse ano.

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