Paula Rego

Quebra-Cabeças
1964

Galeria


Informação técnica

Autor(es)
Paula Rego (Lisboa, Portugal, 1935 – Londres, Reino Unido, 2022)
Título
Quebra-Cabeças
Data
1964
Materials and media
Papel
Técnica
Água-forte sobre papel
Dimensões
Altura 44,10 cm; Largura 58,60 cm
N.º de inventário
GP194

Inscrições

Tipo
Assinatura
Descrição
Paula Rego
Posição
Frente, quadrante inferior direito
Tipo
Data
Descrição
64
Posição
Frente, quadrante inferior direito
Tipo
Número de série
Descrição
X/XV
Posição
Frente, quadrante inferior esquerdo

Incorporação

Tipo
Aquisição
Local
Lisboa
Proveniência
Gravura - Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses
Intermediário
CAM/FCG
Data
Abril de 1988

Texto

No catalogue raisonné da obra gráfica de Paula Rego da autoria de Hannah Begbie, a gravura Quebra-Cabeças surge emparelhada com a gravura A Espada de Cortiça (igualmente presente na colecção do CAM), acrescentando a autora tratarem-se de gravuras políticas. Para além da coincidente datação e da oficina de gravura onde foram executadas (Gravura — Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses), há óbvios paralelismos entre as duas obras. Para além de apresentarem a mesma linguagem surrealizante, há elementos figurativos comuns (como seja a presença de um monociclo) e estratégias compositivas semelhantes (como a resolução do espaço com um plano horizontal, sobre o qual são colocadas as personagens, e um plano vertical e fundeiro a negro).

A comparativa leveza destas personagens relativamente à gravura Espada de Cortiça sugere alusões com um universo cómico de banda desenhada ou circense, oferecendo personagens irreais que parecem desfilar para o espectador na caixa de um palco ou de um ecrã, atravessando-a longitudinalmente.

Sobre um chão representado por uma faixa branca e por uma lista a branco e preto — que, revela-nos a autora, se trata de um piano*—, caminham quatro personagens. A da esquerda, a mais antropomórfica de todas elas, parece uma personagem masculina, de cuja perna esquerda salta um pé extensível que lhe pontapeia a própria cara. A representação desse choque com traços ao seu redor remete-nos indiscutivelmente para o universo gráfico da BD. Ao centro observamos uma personagem sobre um monociclo, de cujo corpo arredondado a traços sinuosos emerge uma pequena cabeça e duas asas. Tal como em A Espada de Cortiça, também nesta gravura o equilibrista do velocípede é alado. À direita desta figura, observamos outra que literalmente perdeu a cabeça: nela discernimos um tronco, um pé e duas mãos. Pertencer-lhe-á o chapéu que vemos perto do monociclo? No extremo direito da composição, consta um pássaro, cuja cabeça remete para uma gaivota, cegonha ou pelicano, sustendo um peixe no bico. Se a proporção da cabeça do pássaro se impõe, quase não tem asas, restando-lhe equilibrar-se sobre a única pata que possui.

No canto superior direito da composição, figura um rectângulo branco com uma inscrição, sobrepondo-se a três letras invertidas. Nenhuma das palavras é claramente legível.

Se alguma narrativa ou interpretação coesa existe nesta gravura é refém da sua autora. Resta ao espectador reinventá-la, seguindo assim o repto do título.

 

 * Depoimento de Paula Rego por correspondência electrónica, datada de 13.04.2014.

 

Luísa Cardoso

Julho 2014

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