Paula Rego

O Príncipe Perfeito
1977 – 1978

Galeria


Informação técnica

Autor(es)
Paula Rego (Lisboa, Portugal, 1935 – Londres, Reino Unido, 2022)
Título
O Príncipe Perfeito
Data
1977 – 1978
Materials and media
acrílica; Tecido; Kapok
Dimensões
Altura 100,00 cm; Largura 47,00 cm; Profundidade 18,50 cm
N.º de inventário
78E874

Incorporação

Tipo
Aquisição
Proveniência
Galeria 111
Data
Novembro de 1978

Texto

Num apontamento datado de 26 de Julho de 1978, Fernando de Azevedo afirma: “Pelas fotografias que documentam estes ‘bonecos’ apercebemo-nos de que eles são verdadeiramente uma criação. Criação singular entre a expressividade irónica e a terrífica, ou a mágica, dotados de uma excepcional qualidade plástica, equivalente àquela que estamos habituados a reconhecer na sua pintura. Sempre considerámos que a investigação sobre os contos populares e os seus ilustradores que Paula Rego se propôs e tem estado a realizar, se é importante em si mesma, é-o também e não menos significativamente, pelo modo como se projecta na própria obra, a que acrescenta uma dimensão e desenvolvimento surpreendentes. A realização destas figuras veio, mais uma vez, confirmar plenamente esta nossa convicção.”*

Efectivamente, a “excepcional qualidade plástica” deste Príncipe Perfeito é fácil de reconhecer, levando-nos mesmo a acrescentar que esta é exacerbada relativamente aos guaches que realizara, entre 1974 e 1975, sobre contos populares. Esse acréscimo de expressividade plástica deve-se, por um lado, à alteração de suporte e, por outro, ao “desenvolvimento surpreendente” de uma interpretação pessoal da autora sobre as mitologias estruturantes dos contos populares.

Relativamente ao primeiro aspecto, parece que a passagem da bidimensionalidade do desenho e da pintura para a tridimensionalidade deste “boneco” descola a interpretação da autora da textualidade do conto e da tradição da ilustração para uma expressividade plástica inédita. O trabalho com materiais como o tecido, o kapok e a lã, cortando-os, cosendo-os, enchendo-os e moldando-os numa nova forma, permite-lhe abandonar completamente um certo convencionalismo dos seus desenhos anteriores, forjando uma liberdade expandida para a sua narrativa reinventada. Se por motivos de comodidade classificativa os designamos por “esculturas”, seremos contudo obrigados a reconhecer que de esculturas particulares se tratam. Não fora tal léxico aparentemente estranho a determinado discurso disciplinar, poderíamos admitir, como Fernando Azevedo, que de “bonecos” se tratam, bonecos da infância, feitos para brincar. E Paula Rego parece jogar com essa ambiguidade: se os contos populares contêm uma dimensão pedagógica eminentemente associada ou dirigida à infância, a opção pela sua interpretação através de “bonecos” parece continuar essa tradição didáctica, ainda que metamorfoseando os significados originais. Recriando uma nova pedagogia, “estas esculturas foram feitas para brincar”.

O segundo aspecto acima mencionado — o “desenvolvimento surpreendente” de novas propostas interpretativas da autora — encontra-se intimamente relacionado com o anterior. A interpretação do clássico príncipe perfeito é uma figura desproporcionada — uma cabeça e mãos demasiado grandes para a dimensão do corpo, umas orelhas demasiado grandes em relação à cabeça —, com protuberâncias a lembrar deformações, com barba, sobrancelhas e cabelo crespos, com uma expressão facial de zanga e raiva — conseguida à custa do olhar, posição das sobrancelhas e esgar contorcido dos lábios — que contrasta, contudo, com a impotência da sua figura.

De perfeito este príncipe nada tem, e é essa revelação que Paula Rego oferece, pedagogicamente, ao seu espectador, para que este deixe de sonhar e de aguardar pelas incutidas mitologias da perfeição.

 

Luísa Cardoso

Julho 2014

 

* Citado em Ana Ruivo, “Anos 70 — Contos Populares e Outras Histórias”, Paula Rego. Anos 70: Contos Populares e Outras Histórias, Cascais, Fundação Paula Rego/Casa das Histórias Paula Rego, 2010, p. 6

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