Júlio Pomar
Galeria
Foi a partir de finais dos anos 60 que Pomar começou a trabalhar, não só com colagem – usando predominantemente pedaços de tela recortada – mas também em experiências de assemblage. A tela recortada e colada vem no seguimento da passagem do óleo para o acrílico, que, com a possibilidade de secagem rápida e maior opacidade, permitia aplicar a cor em bloco ao mesmo tempo que ocultava os vestígios mais evidentes da pincelada individual. Daí resultavam pinturas com um carácter mais gráfico, quase industrial.
Dá-se, pois, a passagem natural da justaposição de blocos de cor, simulacro de colagem, para a colagem efectiva, substituindo o pintor em parte ou no todo as superfícies de tinta por superfícies feitas de pedaços de tela pintada.
Na obra Le Luxe os recortes colados não se reportam tanto ao «desenho com tesouras» herdeiro de Matisse, que Pomar apropria, comenta e transforma em várias outras obras, mas talvez mais à assemblage que o pintor experimentou nos objectos tridimensionais. Os elementos colados são aqui não apenas tela mas também outros materiais, como papel e até pêlo sintético, e são acumulados para, sem perderem um carácter formal individual, evocarem o corpo do tigre enrolado sobre si mesmo. Embora não seja claro nesta pintura em particular, a série com o tema dos tigres foi explorada em associação estreita com elementos do corpo feminino, associando ao felino uma carga erótica mas ou menos reconhecível, consoante os quadros. O pintor justifica a escolha do tigre como uma explícita recusa dos temas clássicos da pintura, considerando que «o assunto em pintura (o que é representado) acaba por ser mais o lugar em que se joga do que a própria finalidade do jogo»* , mas a verdade é que o tigre é referência literária consagrada e, associado por Pomar ao corpo feminino e a temas eróticos, induz a variadas leituras simbólicas mais ou menos óbvias. Nesta pintura, o título remete para o ambiente de «luxe, calme et volupté», verso de Baudelaire de As Flores do Mal, e título de um quadro de cores fauve vibrantes de Matisse de 1904, em que banhistas se recostam dengosamente à beira da água.
* Júlio Pomar. Da Cegueira dos Pintores (trad. Pedro Tamen). Lisboa: Edições D. Quixote, 1986, p. 12.
MPS
Maio de 2010
Informação técnica
- Autor(es)
- Júlio Pomar
- Título
- Le Luxe
- Data
- 1979
- Materiais
- Tela
- Dimensões
-
Tipo Valor Unidades Parte Altura 81 cm Largura 116 cm - N.º de inventário
- 83P766