Eduardo Batarda

I Like Art ou a Perspectiva do Costume com Água no Bico
1967 – 1968

Galeria


Informação técnica

Autor(es)
Eduardo Batarda (Coimbra, Portugal, 1943 – Lisboa, Portugal, 2025)
Título
I Like Art ou a Perspectiva do Costume com Água no Bico
Título traduzido
I like art, or the usual perspective with a twist
Data
1967 – 1968
Materials and media
Madeira; Tinta acrílica
Técnica
Tinta acrílica sobre madeira
Dimensões
Altura 195,00 cm; Largura 170,00 cm
N.º de inventário
81P697

Inscrições

Tipo
Assinatura
Descrição
Batarda
Posição
Frente, margem esquerda
Tipo
Data
Descrição
67-68
Posição
Frente, margem esquerda

Incorporação

Tipo
Aquisição
Local
Lisboa
Proveniência
Manuel de Brito
Data
Julho de 1981

Texto

DEPOIMENTO DO ARTISTA

Classificada pelo próprio pintor como a «pièce de résistance» da sua primeira exposição individual (1968), esta pintura tem a particularidade do formato poligonal não retangular, que permite o jogo de trompe l’œil no plano inferior: um cubo ou caixote visto em profundidade, mas com o artifício em perspetiva posto a nu pelo prolongamento das linhas a tracejado. Foram usadas tintas fluorescentes para obter contrastes insólitos, mas o efeito luminoso perdeu-se. O quadro convoca, com humor e cinismo, vários elementos do vernacular, da política e da religião, sendo ao mesmo tempo um comentário à história da arte. É também uma alusão ao mapa estratégico, à pintura de paisagem e às suas relações com a topografia, propriedade e abstração, e à terra vista do espaço («a Terra é azul», descreveu o primeiro homem a viajar na órbita da Terra, Y. Gagarin). Podemos distinguir vários elementos, entre eles uma cabeça hitleriana decapitada, de óculos escuros, com um pássaro cujo «BLESS YOU» tanto remete para a ideia de um Hitler «abençoado» (e em inglês) como parece responder comicamente («santinho») ao «ACHTUNG» (espirrado, como num discurso apoplético do líder nazi) que surge cortado na borda do caixote. A figura repete-se no plano inferior, com o número 2 e um chapéu colonial, junto à inscrição «CHAG», parte do cumprimento festivo judeu Chag Sameach («Boas Festas») e ao mesmo tempo lembrando Chagall, chaga, KAG, CAG (Cabo Verde, Angola, Guiné), entre outras alusões — um comentário à Guerra Colonial.

Outras inscrições e elementos permitem mais leituras e associações, numa estratégia de conotações, ambiguidades e segundos (ou mais) sentidos, explorada em parte pelo hábito e necessidade de fugir à censura, mas sobretudo assumida enquanto pintura. A minúscula figura dentro de um dos caixotes/cubos esboçados que pairam no espaço é encimada por um balão de BD com a afirmação, algo irónica «I like art», que lembra o slogan da campanha de Eisenhower de 1952, «I like Ike». No entanto, por ser parte do título, leva-nos a refletir na tradução literal: gostar de arte (ou de pintura) porque é ela que permite desierarquizar assuntos, amalgamá-los num mesmo plano, associá-los entre si, pôr tudo no mesmo saco (neste caso, no mesmo caixote), e ao mesmo tempo comentar a tradição e a especificidade formal desta maneira de contar histórias, evocando, por exemplo, a perspetiva clássica — na própria pintura e no título, «a perspectiva do costume» —, e aludindo à sua capacidade de ocultação de sentidos, «com água no bico».

 

Mariana Pinto dos Santos

Maio de 2010

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