Paula Rego

Estudo para «S. Vomiting the Pátria»
1960 – 1961

Galeria


Informação técnica

Autor(es)
Paula Rego (Lisboa, Portugal, 1935 – Londres, Reino Unido, 2022)
Título
Estudo para «S. Vomiting the Pátria»
Data
1960 – 1961
Materials and media
Papel; Óleo; Grafite
Técnica
Óleo sobre papel
Dimensões
Altura 39,00 cm; Largura 46,70 cm
N.º de inventário
DP235

Inscrições

Tipo
Assinatura
Descrição
Paula Rego
Posição
Frente, canto superior esquerdo

Incorporação

Tipo
Aquisição
Local
Lisboa
Proveniência
Jorge de Brito
Data
Julho de 1983

Texto

Não obstante a ausência de título e de data nesta obra, tudo parece indicar tratar-se de um estudo para a tela Salazar a Vomitar a Pátria (1960, óleo sobre tela, 94 x120 cm), também da colecção do Centro de Arte Moderna.  Relativamente à datação, verificamos que os materiais, a sua exploração, o suporte e as formas delineadas apresentam uma continuidade com as obras realizadas entre 1959 e 1961, nomeadamente Aparição (1959, óleo sobre papel, 20 x 30 cm), Troféu (1960, óleo sobre papel, 29 x 42 cm) ou Rainha (1961, colagem, carvão e óleo sobre tela, 20 x 30 cm).

Em primeiro plano, numa apresentação frontal que nos remete para os desenhos infantis — denotando, a este nível e na forma como emprega os materiais, a influência decisiva do encontro com a obra de Dubuffet em 1959 ­—, a autora desenha três figuras. Na central e na da esquerda apercebemo-nos claramente de uma ligação com as personagens que ocupam a mesma posição em Salazar a Vomitar a Pátria: neste último, a forma e os campos de cor da figura da esquerda são depurados, a figura central perde a sugestão antropomórfica dos braços, mas mantém o essencial da sua forma ovoidal, o seu apoio sobre um banco e adquire nova intensidade pela transformação de certos elementos figurativos (como a sugestão de órgãos sexuais na figura central) e pela presença mais evidente da cor. Todavia, nesta obra observamos um grupo de figuras ausentes de Salazar a Vomitar a Pátria: em segundo plano, no canto superior direito da composição, a autora desenha a grafite uma mesa com três pequenas personagens, as menos abstractizantes da composição.

A expressividade plástica da obra é conseguida através da exploração da materialidade do grafite e do óleo, num equilíbrio tenso em que uma técnica se não sobrepõe à outra. O óleo é assumido na sua visceralidade de material, jogando com concentrações mais densas e outras mais transparentes, misturando pigmentos, numa manipulação em que os materiais parecem funcionar como um índice do gesto de pintar. Simultaneamente, o grafite, para além de delinear formas, parece empregue também como a marca de uma trajectória de um gesto, mais carregado ou mais suave, aceitando as suas indecisões e sublinhando a forma que finalmente se deseja.

Paula Rego oferece-nos uma obra aberta a todas as interpretações, até por se recusar a ancorá-la num título narrativo. A liberdade da sua imaginação e composição é-nos, assim, completamente devolvida.

 

Luísa Cardoso

Julho 2014

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