Paula Rego

Branca Flor – Rapaz a brincar com o Diabo (da série «Contos Populares Portugueses»)
1974

Galeria


Informação técnica

Autor(es)
Paula Rego (Lisboa, Portugal, 1935 – Londres, Reino Unido, 2022)
Título
Branca Flor – Rapaz a brincar com o Diabo (da série «Contos Populares Portugueses»)
Título traduzido
Branca Flor – Boy gambling with the Devil - Portuguese Fairy Tales series
Data
1974
Materials and media
Papel; Guache
Técnica
Guache sobre papel
Dimensões
Altura 70,20 cm; Largura 50,00 cm
N.º de inventário
DP241

Inscrições

Tipo
Assinatura
Descrição
Paula Rego
Posição
Frente, canto inferior direito
Tipo
Título
Descrição
Branca Flor
Posição
Margem inferior central
Tipo
Data
Descrição
74
Posição
Frente, canto inferior direito
Tipo
Título
Descrição
Branca flor - boy gambling with the devil
Posição
Verso, margem inferior

Incorporação

Tipo
Aquisição
Proveniência
Paula Rego (Lisboa, Portugal, 1935 – Londres, Inglaterra, 2022)
Data
Maio de 1976

Texto

O desenho Branca Flor – boy gambling with the devil é uma das quatro obras que Paula Rego realizou a partir do conto Branca Flor (três das quais pertencentes ao espólio do CAM) e representa um rapaz que, gostando muito de jogar cartas, acaba por apostar a sua alma num jogo com o diabo. Parece ser esse momento de total despossessão que é aqui captado: o rapaz privado de todos os seus bens, nu, cercado pela figura do diabo e de um seu duplo, amarrado por umas vestes cujo padrão, de espadas, nos remete para a armadilha que o cercou. No chão, no canto inferior direito da composição, numa escala completamente distinta, dois pequenos diabos jogando cartas recordam-nos, alheados e absortos, a causa próxima da cena principal.

Porém, a narrativa do quadro é-nos completamente oferecida pela composição. O rapaz destaca-se, em primeiro lugar, pelo contraste cromático da sua pele com o predomínio geral do vermelho e tons terrosos, escolhidos tanto para as restantes personagens como para o fundo. É também a única personagem que nos é apresentada frontalmente, sendo-nos assim possível ver o desalento na expressão do seu rosto e o seu corpo exposto, mostrando que nada lhe resta — mensagem sublinhada pela palma da mão aberta e voltada para o espectador.

Numa diagonal relativamente a este corpo central destacado, surge representado o diabo — que vemos em primeiro plano, de costas para o espectador e que identificamos pela sua cauda — e, num plano recuado, no canto superior direito da composição, uma personagem que poderá ser um seu duplo ou o seu desdobramento. A continuidade das vestes entre as duas personagens diabólicas que sujeitam o rapaz sugere a cumplicidade e reforça a noção de “captura”, sublinhada pela mão do diabo a segurar um pedaço de pano colocado em jeito de trela no rapaz (recurso aliás repetido no desenho da mesma série Branca-Flor — O Diabo e a Mulher do Diabo) e pelo pé que pisa outra parte do mesmo. A diagonal cria a ideia de tensão, mas o sinuoso do traço empresta-lhe algum dinamismo, o qual joga com um prazer encontrado na descrição decorativista dos padrões do tecido.  

O tema de Fausto ou até de Prometeu — o jogo do homem com forças superiores — surge assim reinterpretado num conto infantil, jogando com as transformações de fronteira entre infância e idade adulta, literalmente corporizadas no corpo adolescente do rapaz.

 

Luísa Cardoso

Julho 2014

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