Obra de Inês Botelho no CAM

Em 2021, o CAM adquiriu a obra «Rotação a 19 graus, translação e prumo», de Inês Botelho. Saiba mais sobre esta obra neste artigo da curadora Leonor Nazaré.
18 jan 2022

Inês Botelho tem consolidado o seu percurso com trabalho em escultura, instalação e desenho, articulando de modo sugestivo um pensamento sobre o espaço, os objetos, as tradições, a geometria, os materiais, as forças e um imaginário dos artefactos e da manualidade.

A gravidade como força estruturante do espaço e dos corpos estava já muito presente na exposição que realizou em 2008 na Galeria Filomena Soares com o título, significativo a esse nível, de Resistência/Desistência. «Deixar-se levar pela gravidade é abdicar de possuir um corpo e por consequência abdicar de ocupar espaço», escrevia a artista, nessa altura, em entrevista à ArteCapital.

 

Inês Botelho, «Rotação a 30, translação depois e antes da deslocação do eixo, evaporações a partir de 24 e 50 graus», 2013
Inês Botelho, «Acima de dois sóis», 2011

 

Presença Inflectida, na mesma galeria em 2011, refletia também de modo alargado sobre a relação espaço-tempo, questionando o conceito e destabilizando a ideia de um centro e de um eixo a partir do qual se estabelecem todas as posições relativas, todas as escalas e hierarquias. Nesse contexto, a experiência do sujeito é um dilema entre vivências e teorias. Alguns dos desenhos expostos, realizados a tinta da China, tinham títulos como Rotações em aceleração centrípeta-centrífuga, ou Rotações em aceleração centrípeta-centrífuga.

A obra Acima de dois sóis prepara nitidamente aquela que agora adquirimos: a corrente metálica erguida contra toda a expetativa de obediência à gravidade é comum às duas peças.

 

Inês Botelho, «Rotação a 19 graus, translação e prumo», 2013. Inv. 21E1954. Foto: Catarina Botelho

 

A exposição que realiza em 2014 na mesma galeria é inteiramente dedicada ao movimento da matéria no espaço e nela surgem movimentos de rotação e translação de objetos tridimensionais, quase sempre em barro pintado e moldados numa roda de oleiro. Chama-lhe O Espaço diz à matéria como se mover e a matéria diz ao espaço como se curvar, numa nítida dedicação a essa problemática que abrange física e geometria: perspetiva, pontos cardeais, movimento, orientação, escala, força, linhas tangenciais, combinações cónica, esférica e cilíndrica, sobre o chão e sobre a parede, pintura nas concavidades e convexidades, tornando enfático o volume.  

Para a artista, a tensão criada por novos pontos de vista favorece a interrogação do sujeito sobre a sua centralidade no cosmos e sobre o carácter cíclico do tempo. Para nós, no caso da obra adquirida, a suspensão da corrente hirta no vazio e a inscrição do objeto (vaso, recetáculo, contentor) fora e dentro do pequeno território circular beneficia a perceção geral de que as leis do espaço e da forma são diferentes e inconstantes noutra dimensão, não linear, desse mesmo cosmos. 

 

Leonor Nazaré
Curadora

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