Julião Sarmento por Benjamin Weil

Benjamin Weil, diretor do Centro de Arte Moderna, recorda o artista e amigo Julião Sarmento.
«Marie», 2015, de Julião Sarmento instalada no jardim da Fundação Calouste Gulbenkian. Foto: Rita Romão

Conheci o trabalho de Julião Sarmento através de uma obra singular que ele coproduziu com o cineasta Atom Egoyan. Close, de 2001, é tão especial como todas as obras e séries de obras produzidas ao longo da vida de Julião. Projeção de dimensão cinematográfica, que só pode ser vista, depois de passar um estreito corredor, e parar em frente a uma imagem sem distância. A imagem torna-se dominante e muito dificilmente se consegue ver como um todo. Um artista tão conceptual como tátil, o seu trabalho é tão sensual como intelectual, mas é também a marca da irreverente juventude deste homem maravilhoso, este amigo de imensa generosidade, que só pensava na arte: a dos outros, que colecionava com paixão, e a sua própria, que também colecionava. Durante a nossa última conversa, dez dias antes de nos deixar, Julião falou-me de todas as obras que nunca quis vender, e que permanecem no seu ateliê bem organizado.

Recordo hoje o nosso trabalho durante o outono de 2019, e novamente no verão de 2020, para preparar uma exposição que jamais poderia ter imaginado que seria póstuma. Guardo também na memória a sua participação num projeto de partilha de fotografias (uma foto por dia), que organizei na primavera de 2020, para manter em contacto todas aquelas e todos aqueles que se encontravam fechados em casa, reduzidos à viagem à volta dos seus quartos, por causa da pandemia. Cada manhã esperava a fotografia dos imensos catos do jardim do Estoril, diante de um céu sempre diferente, que ele diligentemente fotografava, às escondidas, antes de partir para o seu ateliê. Esta será uma das suas últimas obras: uma série de 89 fotografias instantâneas tiradas com o telemóvel, que Julião queria mostrar numa série prevista para uma das paredes da Casa das Mudas de Madeira, o nosso projeto comum que infelizmente não irá ver, mas que foi iniciado com Close, a maravilhosa videoinstalação que marcou o início de uma bela amizade.

Rest in Peace, my friend. We miss you so much, already, but we are blessed with all the great and inspiring work you have entrusted the world with.

Benjamin Weil
5 de maio de 2021


Um ano passou desde que perdemos Julião Sarmento, a 4 de maio de 2021. Em sua honra e memória, a Fundação Calouste Gulbenkian decidiu instalar a obra Marie (2015), uma escultura adquirida em 2015, mostrada pela primeira vez em Paris, França. Marie, vestida por Felipe Oliveira Baptista, vai permanecer em frente à entrada da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian até que seja possível a sua reinstalação permanente nos novos jardins do Centro de Arte Moderna. Esta primavera colocamos também uma das carrinhas da Biblioteca Itinerante ao lado da escultura, onde os visitantes terão acesso a uma seleção de publicações pelo artista, para se familiarizarem com o seu trabalho.

O CAM orgulha-se também de anunciar que adquiriu a obra Close para a sua coleção permanente.

Maio de 2022

 

«Marie», 2015, de Julião Sarmento e carrinha da Biblioteca Itinerante, instaladas no jardim da Fundação Calouste Gulbenkian. Foto: Rita Romão
Atualização em 19 maio 2022

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