Todas as Belas Artes

As Escolhas das Curadoras: Leonor Nazaré destaca a obra «Olympia 1 & 2» de Gabriel Abrantes e Katie Widloski.
Gabriel Abrantes e Katie Widloski, «Olympia 1 & 2», 2006. 16 mm transferido para HD, 16:9, cor, som, 8’52”. Inv. IM36

A pintura Olympia, de Manet, é um dos grandes ícones da história da arte ocidental. A partir dele, a ética e a estética invadem os diálogos estranhos e abruptos, nostálgicos ou assertivos desta mise en scène realizada por Gabriel Abrantes e Katie Widloski em duas partes: Olympia representada por uma mulher na primeira parte e pelo próprio artista (homem) na segunda parte.

A sexualidade ambígua, incestuosa, submissa ou agressiva dos protagonistas é questionada na dinâmica dos diálogos, durante os quais outras questões, como o cinema, a memória, os clichés afetivos, familiares e profissionais, ou a questão racial (the black faces), são sobrepostas.

A tensão desses diálogos é circunscrita ao plano mais ou menos fixo e ao espaço restrito dos elementos pictóricos evocados e exaltada nessa intensa exacerbação do décor, das cores, dos gestos, da linguagem corporal e das frases sintéticas.

 

Gabriel Abrantes e Katie Widloski, «Olympia 1 & 2», 2006. 16 mm transferido para HD, 16:9, cor, som, 8’52”. Inv. IM36
Gabriel Abrantes e Katie Widloski, «Olympia 1 & 2», 2006. 16 mm transferido para HD, 16:9, cor, som, 8’52”. Inv. IM36

 

Gabriel Abrantes (EUA, 1984) inscreve o seu trabalho num território transversal que nasce no circuito das artes plásticas mas se tem deslocado para o do cinema. Os seus filmes são pensados como uma problematização livre – filosófica, humorística e crítica – de grandes inquietações da atualidade e realizados no cruzamento da sedução narrativa com o mais apurado sentido da visualidade imagética e espacial.

Uma grande diversidade de soluções visuais, das mais rudimentares às mais elaboradas, permite constatar a presença de todas as «Belas-Artes» e ainda de outros campos artísticos nos seus filmes: literatura, cenografia, fotografia, representação e animação. Referentes literários, jornalísticos, científicos ou cinematográficos dinamizam as narrativas.

Nos diálogos coabitam o tom coloquial e/ou a coloração teórica das reflexões, a banalidade e a excentricidade, a cultura Pop e a alta cultura, a melancolia e a agitação. O seu imaginário abrange dimensões geracionais, coletivas, políticas e afetivas: o museu e a rua; os grupos e a solidão; o amor e a indiferença; as emoções e as razões. Alarga-se à crítica dos modelos sociais, dos estereótipos e da falsa seriedade.  

 

Gabriel Abrantes e Katie Widloski, «Olympia 1 & 2», 2006. 16 mm transferido para HD, 16:9, cor, som, 8’52”. Inv. IM36

 

Neste, como noutros filmes seus, a história da arte irrompe, como assunto, na história banal das vidas, empolgadas e caricatas ou simplesmente ensimesmadas; torna-se uma arte da pequena história e esta última um espelho de grandes questões que não são só da arte, ou só estão na arte porque invadiram a vida.

A abordagem entusiástica do seu trabalho preencheu todo o meu esforço de candidatura à representação portuguesa na Bienal de Veneza no ano em que venceu Leonor Antunes (2019).

 

Leonor Nazaré
Curadora do Centro de Arte Moderna


As Escolhas das Curadoras

As curadoras do Centro de Arte Moderna refletem sobre uma seleção de obras, que inclui trabalhos de artistas nacionais e internacionais.

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Atualização em 11 junho 2021

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