«Será que foi miragem de carnaval?»

As Escolhas das Curadoras: Rita Fabiana destaca quatro pinturas-objetos de Ana Jotta.
Vista da instalação das obras de Ana Jotta na Coleção Moderna, 2018.

Será que foi miragem de carnaval? (letra de Caetano Veloso em Miragem de Carnaval)

 

Nas quatro pinturas de Ana Jotta (Lisboa, 1946), de 2008, realizadas sobre ecrãs de projeção com tripé – objetos obsoletos para a projeção de diapositivos ou de filmes – a artista inscreve, alternadamente, imagens pintadas (frente) e palavras escritas que dão título às obras (verso). São imagens e palavras que pertencem a uma coleção íntima de memórias e de objetos que a artista reencena, convocando nestas pinturas-objetos a história da arte, na obra Mademoiselle Rivière, que cita a famosa pintura de Jean-Auguste-Dominique Ingres de 1805 com o mesmo título; o cinema, na obra Il Profumo della Signora in Nero que alude ao filme de mistério e terror de Francesco Barilli, de 1974; a literatura, a banda desenhada ou as ilustrações de jornais, presentes na obra Album; ou ainda a experiência das viagens, representada aqui numa vista noturna, «captada» a partir de um automóvel em movimento, na obra Mirage.

 

Ana Jotta «Mirage», 2008. Óleo sobre ecrã de projeção. Inv. 10P1613

 

Esta última pintura deve ainda o seu título ao nome da marca do ecrã de projeção, «mirage», visível em baixo, à direita, que aparece aqui como uma «assinatura de circunstância», acidental. Junto aos títulos das obras no verso dos ecrãs, a artista assina com a letra «J», a primeira letra do seu nome – Jotta – que, neste jogo de redução, citação e apagamento, se torna imagem, signo (aludindo au passage ao símbolo dos direitos autorais, um «J» circunscrito como o «©»), arabesco, objeto, desígnio de uma nova coleção.

 

Ana Jotta, «Mademoiselle Rivière», 2008. Óleo sobre ecrã de projeção. Inv. 10P1611

 

A obra de Ana Jotta, visível a partir dos anos de 1980, é muitas vezes desconcertante e quase sempre subversiva em relação aos códigos fundadores da prática artística, desde logo o conceito de «autor(ia)». Com grande capacidade de reinvenção e recriação do seu próprio território autoral, a sua obra percorre – com inventividade, gravidade e humor – o desenho, a pintura, a escultura, o bordado e a construção de objetos.

 

Ana Jotta, «Il profumo della Signora in Nero», 2008. Óleo sobre ecrã de projeção. Inv. 10P1612

 

Jotta faz uso de uma grande variedade de materiais e suportes, reciclando e incorporando objetos do quotidiano, do seu quotidiano, num vai e vem descomprometido entre cultura erudita e cultura popular.

 

Ana Jotta, «Album», 2008. Óleo sobre ecrã de projeção. Inv. 10P1610

 

As quatro pinturas-objetos de Ana Jotta do Centro de Arte Moderna foram inicialmente apresentadas no Espaço Chiado 8 em Lisboa, em 2008, na exposição s/he is her/e, que reuniu uma série de 16 pinturas sobre ecrãs de projeção. As obras foram incorporadas na Coleção em 2010.

 

Rita Fabiana
Curadora do Centro de Arte Moderna


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As curadoras do Centro de Arte Moderna refletem sobre uma seleção de obras, que inclui trabalhos de artistas nacionais e internacionais.

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Atualização em 11 junho 2021

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