Sem fronteiras

As Escolhas das Curadoras: Hashim Samarchi é a escolha da curadora Patrícia Rosas, que reflete sobre o trabalho do artista e sobre a relação da Fundação com o Iraque.
Hashim Samarchi, «Movement», 1968. Água-tinta sobre papel Fabriano. Inv. GE678

Hashim Samarchi (Mossul, 1939) chega a Lisboa em 1967 com os seus amigos iraquianos, os artistas Rafa Nasiri e Salim al-Dabbagh, com o propósito de frequentar um curso na GRAVURA – Cooperativa de Gravadores Portugueses. A bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, atribuída pela Sociedade de Artistas Iraquianos, veio fortalecer as relações entre Lisboa e Bagdade que a Fundação já mantinha desde a sua criação, em 1956.

Pela primeira vez, a Cooperativa recebe artistas estrangeiros com a finalidade de trabalharem e criarem nas suas oficinas. Subsidiado pela Fundação, o curso é orientado por Alice Jorge e João Navarro Hogan. No relatório final de avaliação, Alice Jorge destaca o excelente profissionalismo dos artistas iraquianos, que durante o período em que permaneceram em Lisboa travaram conhecimento com «todos os processos de gravar», evoluindo esteticamente, estabelecendo boas relações com os artistas portugueses e concretizando três exposições coletivas.

 

Hashim Samarchi, «A pálida lua», 1967. Aguarela sobre papel. Centro de Arte Moderna

 

Após a estadia em Lisboa, o regresso de Rafa, Salim e Hashim a Bagdade estabelece um ponto de viragem na gravura e assinala o início da Op Art na cena artística iraquiana. Hashim Samarchi é assim considerado o pioneiro da Op Art no Iraque e um proeminente artista gravador da sua geração.

Movement, de 1968, faz parte desta mudança de paradigma no trabalho de Samarchi. Quando chegara a Lisboa, o artista explorava uma natureza idílica, afastada do registo abstrato que tem origem nas oficinas da GRAVURA e no contacto com artistas, como o «amigo» Fernando Calhau, que frequenta o mesmo curso. Sea Image ou Sem título, ambas datadas de 1968, dão conta de um novo universo trabalhado na técnica da água-tinta.

 

Hashim Samarchi
Hashim Samarchi, «Sea Image», 1968. Água-tinta sobre papel. Centro de Arte Moderna
Hashim Samarchi, Sem título, 1968. Água-tinta sobre papel. Centro de Arte Moderna

 

Em resposta ao nosso desafio, Samarchi deixa um depoimento sobre estas obras em 2018: «[…] comecei a pesquisar sobre o ponto e as composições permitidas durante o seu processamento e movimento. Do ponto surge a linha, e desta linha surge a forma, e da repetição da forma surge o objeto do trabalho artístico, assim como o impacto do efeito provocado na visão de cada um; e o mesmo se passa relativamente à cor, à sua combinação e gradação com outras cores, pois quando a combinação de cores muda, também muda a impressão causada.»

A simulação ótica que Samarchi inicia em Lisboa vai indiscutivelmente ter contornos no seu futuro como artista. Depois de partir para Londres em 1981, onde ainda hoje vive com a sua família, trabalha durante mais de uma década no ateliê de Dia Al-Azzawi (Bagdade, 1939), considerado um dos pioneiros da arte moderna árabe.

Em 2018, passados 50 anos da sua estadia na capital portuguesa, a Fundação Calouste Gulbenkian convida Hashim Samarchi para a inauguração da exposição Arte e Arquitetura entre Lisboa e Bagdade, que organizei com Ricardo Agarez. Pela primeira vez, são mostrados nos espaços da Fundação obras da Coleção do CAM pertencentes aos seus artistas bolseiros iraquianos.

 

Vista da exposição «Arte e Arquitetura entre Lisboa e Bagdade». A Fundação Calouste Gulbenkian no Iraque 1957-1973. Galeria do Piso Inferior, Museu Calouste Gulbenkian, 25 de outubro de 2018 a 28 de janeiro de 2019
Hashim Samarchi, «Movement», 1968. Água-tinta sobre papel Fabriano. Centro de Arte Moderna

 

As iniciais gravuras hipnotizantes de ilusões óticas, onde há uma multiplicação de linhas e cores que se fundem, ganham novas formas e uma tridimensionalidade quase inevitável, culminando no período mais intenso da produção artística de Samarchi.

Em 2019, a Coleção do CAM recebe de Samarchi a escultura-relevo Movement Composition No. 2, de cores verdes e vermelhas, constituída por quatro grandes módulos, que combinam várias possibilidades de exposição.

Reavivam-se aqui as relações, que permanecem sem fronteiras.

 

Patrícia Rosas
Curadora do Centro de Arte Moderna 


As Escolhas das Curadoras

As curadoras do Centro de Arte Moderna refletem sobre uma seleção de obras, que inclui trabalhos de artistas nacionais e internacionais.

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Atualização em 11 junho 2021

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