Razões Imprevistas

As Escolhas das Curadoras: Leonor Nazaré escreve sobre as «ocultações» de Fernando de Azevedo, referindo, a propósito delas, a exposição retrospetiva dedicada ao artista que comissariou no CAM em 2013.
Aspeto da exposição «Razões Imprevistas – Retrospetiva de Fernando de Azevedo». CAM, 2013

Em 2013 realizei a primeira retrospetiva dedicada a Fernando de Azevedo (1922-2002). Do vasto trabalho que realizou ao longo de seis décadas, foram apresentadas pinturas, ocultações, colagens, desenhos, uma escultura, serigrafias, ilustrações, figurinos, estudos para cenários e trabalho gráfico.

As ocultações (páginas impressas ou desenhos ocultados parcialmente com tinta), processo de trabalho cuja origem se encontra, provavelmente, nas overpaintings de Max Ernst (c. 1918), marcam de forma singular a história do surrealismo. Para Azevedo, e para outros artistas em Portugal nos anos de 1940, balizam a passagem à não-figuração e a assunção do acaso e do inconsciente. O processo permitia a emergência do desconhecido em cada um, «porque por detrás do exercício, está o ser humano» (Fernando Azevedo).

 

Aspeto da exposição «Razões Imprevistas – Retrospetiva de Fernando de Azevedo», ,com cinco «ocultações» do artista. CAM, 2013

 

Tal como a colagem, e muita da pintura que realizou, as ocultações são a negação do princípio figura-fundo. A tinta da China é espalhada sobre imagens impressas arrancadas a páginas de revista ou, menos frequentemente, sobre desenhos do próprio artista, definindo formas a partir das zonas não cobertas, em composições que assumem o risco da irreversibilidade. O que se oculta e se adivinha poderia ser o exato simétrico do que se mostra e descobre, mas a imagem recortada é necessariamente uma eleição da forma na obra-ao-negro iniciada.

 

Aspeto da exposição «Razões Imprevistas – Retrospetiva de Fernando de Azevedo». CAM, 2013

 

As ocultações de Azevedo são dinâmicas e delicadas, fluidas e complexas. Nelas coexistem o grotesco e o poético, o motivo vegetal ou vagamente animal, a força geométrica e a natureza orgânica e mecânica. A qualidade cinética da composição favorece a impressão de iminência constante, de desvendamento e recusa, de epifania. A luz que nelas se projeta pela fabricação de um claro-escuro transitivo ou contrastante e o tratamento do seu volume escultórico atribuem às formas uma plasticidade perturbadora, maleável, ameaçada, assim como um lado fantasmático às figuras pontiagudas, bojudas, filamentosas, esponjosas, estriadas, lapidadas e matizadas.

 

Aspeto da exposição «Razões Imprevistas – Retrospetiva de Fernando de Azevedo». CAM, 2013

 

Para o artista, o entendimento da obra era de «ordem sensível», dado que «ninguém entende sem comover-se primeiro». Em 1951 escreveu: «sabe hoje o pintor que a realidade exterior e a realidade interior têm dois perfis dados pela mesma linha comum». As razões do inconsciente são imprevistas mas reais – irrompem na urgência da expressão com a estranheza e a força que a liberdade lhes confere. O surrealismo ergueu essa bandeira e proclamou a procura da totalidade e autenticidade do ser, através delas. Azevedo empregou entusiasmo e criatividade artística na ação cívica e no preenchimento desse programa, que se queria liberto de constrangimentos estéticos, referenciais ou políticos. A minha grande admiração por ele cresceu muito com esta evidência, que a preparação da exposição permitiu conhecer melhor.

 

Leonor Nazaré
Curadora do Centro de Arte Moderna


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As curadoras do Centro de Arte Moderna refletem sobre uma seleção de obras, que inclui trabalhos de artistas nacionais e internacionais.

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Atualização em 11 junho 2021

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