Num recanto da memória

As Escolhas das Curadoras: Leonor Nazaré destaca a obra «Sem título (Manifestação)» de Gil Heitor Cortesão.
07 jul 2020

Se fosse uma vez uma cidade como esta, teríamos uma história de adormecer. Mas acontece que já estamos dentro do sono, na circunvalação de um cérebro adormecido, e nos afundamos num recanto da memória, como se explica no Dicionário dos Lugares Imaginários (de A. Manguel), na rubrica «Mnémopolis»: o nome de uma cidade imaginária do romance Compact de Maurice Roche deu o nome à exposição que o artista realizou no CAM, que comissariei em 2004, e que incluía esta obra.

É frequentemente de espaços urbanos que se ocupa a pintura de Gil H. Cortesão: Mnémopolis é como um imenso recinto de feira ou parque de diversões em que se agitam multidões, um magma coletivo indiferenciado, num espaço deixado em aberto, em relação ao qual o nosso ponto de vista aéreo nos dá um sentimento de omnipotente distância. Estamos retirados daquela massa coletiva e ao abrigo do seu tumulto, podendo, no entanto, assistir aos seus movimentos, a partir da torre de vigia móvel e imaginária em que fomos colocados.

O lado de cá do vidro, a superfície que não está pintada mas que é virada para nós (uma vez que o artista pinta do outro lado), acrescenta uma barreira e uma espécie de silêncio à espessura dessa distância. Gil H. Cortesão chegou a falar da ideia de aquário para explicar essa separação e essa forma demiúrgica de observar.

Do interior das rígidas fachadas de edifícios irrompem e transbordam manchas de tinta, escorrências e pinceladas que lhes desfazem a verosimilhante solidez. Para o artista é como se, em última instância, pudesse exprimir o desmoronamento da utopia modernista, através de uma sabotagem arquitetónica.

No seu trabalho, há sempre outras imagens (fotografias) a fornecer uma estrutura inicial que a pintura se encarrega de fazer vacilar, esboroar, deslocar. Neste díptico, a composição do céu em forma de puzzle geométrico mal arrumado sublinha a artificialidade da pintura no tratamento de qualquer paisagem.

 

Gil Heitor Cortesão, Sem título (Manifestação), 2004. Inv. 04P1262

 

É curiosa uma observação sua em que diz que poderia pensar na pintura como «um organismo que empalidece, adoece, se sacode, enfurece, etc.», uma espécie de ser manipulável de cuja realidade nos é dado apenas um ecrã assético e silencioso. Este acautelamento em relação à voz e ao ruído que teria a cidade é provavelmente uma forma de não aceder, através deles, à sua desumanidade.

Não sabemos se gostaríamos de salvar este mundo porque, quando o olhamos, já não é o nosso, e talvez seja melhor que cumpra o seu ciclo finito de existência.

A obra de Gil Heitor Cortesão foi objeto de várias publicações que assinei, entre as quais um livro publicado pela ADIAC em 2010 e um extenso capítulo do doutoramento que concluí em 2017.

 

Leonor Nazaré
Curadora do Centro de Arte Moderna


As Escolhas das Curadoras

As curadoras do Centro de Arte Moderna refletem sobre uma seleção de obras, que inclui trabalhos de artistas nacionais e internacionais.

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