O que (não) nos escapa

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«O que (não) nos escapa» é um convite à pausa, ao olhar atento e a compreender aquilo que nos rodeia com mais leveza, enquanto se reflete sobre as múltiplas dimensões da fragilidade.

Quando tudo aquilo que tomamos por garantido parece desmoronar-se sob o peso da incerteza e da rápida transformação, O que (não) nos escapa considera a fragilidade não como algo que se quebra, mas como uma força que molda a forma como vivemos, recordamos e nos relacionamos uns com os outros. Reunindo uma seleção de obras da Coleção do CAM de nove artistas, esta exposição propõe uma reflexão sobre as múltiplas dimensões da fragilidade.

Os trabalhos apresentados situam-se ao longo de um espectro de noções de fragilidade interligadas: a estrutural, a pessoal e a friccional. Cada dimensão oferece uma forma distinta de compreender como a vulnerabilidade se fissura, se dobra e, por vezes, se desfaz assim que lhe tocamos.

A dimensão estrutural olha para fora, para a vasta teia que parece sustentar a nossa sociedade; questiona o que acontece quando os sistemas de que dependemos começam a fraturar-se e as injustiças ressurgem à medida que a história se repete.

Manuel Botelho (1950, Lisboa), através de 104.rç-cmb (da série «confidencial/desclassificado: ração de combate») (2007–2008), recolhe artefactos de momentos que não presenciou e expõe-nos cruamente, enquanto Miguel Palma (1964, Lisboa), em Upa! União dos Povos de Angola (2006), parece aprisioná-los à vista de todos. Aqui, a fragilidade surge não como uma fraqueza, mas como um sinal de que a transformação é simultaneamente inevitável e necessária.

A dimensão pessoal volta-se para o interior, para a delicada arquitetura do nosso ser;  reflete identidades em constante transformação, conjuntos de memórias que arquivamos em nós mesmos e o impulso de fixar o que é efémero. Yonamine (1975, Luanda), com Eu não sou eu (2004), e Maria Altina Martins (1953, Luanda), com Tempo – Infância, Adolescência, Maturidade (1997/2000), organizam fragmentos, texturas do quotidiano, materiais descartados e restos de memória para evocar esta construção instável, enquanto Maria Antónia Siza (1940, Porto – 1973, Porto), na sua série Sem Título (anos de 1960), desenha imagens em potencial, que deixam lacunas a serem preenchidas pelo olhar dos outros. Em Cair em Palco (2021), o protagonista de Fernão Cruz (1995, Lisboa) encontra-se em queda livre, tornando-se vulnerável perante o olhar de uma plateia.

A dimensão friccional existe num espaço liminar onde convergem as forças do passado e do futuro, da destruição e da renovação, do pessoal e do coletivo. Margaret Benyon (1940, Birmingham – 2016, Londres) traduz estas dimensões em imagens holográficas que resistem a ser apreendidas em Conjugal Series: Hands and Rice e Binding 2 (1983). Em No Trace of Accelerator (2017), Emily Wardill (1977, Rugby) transforma-nos em espectadores de algo que nunca se fixa. Por fim, To Turn Around 40 (2001), de Gabriela Albergaria, entrelaça elementos da natureza com a artificialidade.

Em conjunto, estas perspetivas convidam-nos a reconsiderar a fragilidade como uma força de revelação daquilo que escolhemos preservar, deixar morrer ou reconstruir. Acima de tudo, O que (não) nos escapa é um convite à pausa, ao olhar atento e a compreender aquilo que nos rodeia com mais leveza enquanto navegamos a mudança contínua.

Esta exposição, organizada no âmbito da parceria entre o The Lisbon Consortium da Universidade Católica Portuguesa e o CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian, contou com a curadoria dos estudantes de Práticas Curatoriais, do Mestrado em Estudos de Cultura, para a Galeria da Fundação Amélia de Mello, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.


Ficha técnica

Imagem principal

Maria Antónia Siza, «S/Título», anos 1960. Coleção do CAM

Organização

Universidade Católica Portuguesa
Cultura @ Católica 2024

Artistas Representados

Emily Wardill; Fernão Cruz; Gabriela Albergaria; Manuel Botelho; Margaret Benyon; Maria Altina Martins; Maria Antónia Siza; Miguel Palma e Yonamine.

Editorial

Anika Borko
Sarah Zammit Munro
Melissa Liebertha
Direndra Selvanayagam
Sarah Tober
Anna-Sohpie Löhr

Comunicação

Justin Stewart Ross
Natalia del Río
Leonor Marques dos Santos Queiroz
Silvia Lomdardini
Léanne Charron
Iana Kardanova

Layout expositivo

Amal Abu Nafisah
Imani D. Cooper
Margarida Dias
Margarida da Fonseca
Giulia Benetti
Circé Poisson
Tatiana Fraisse

Programa paralelo

Lucille Gerebtzoff
Yoosun Choi
Hajer Khader
Vitor Fonseca
Margarida Martins Raimundo
Constança Mafra

Coordenação curatorial e científica

Luísa Santos

Design Gráfico

Íris Sousa

Montagem

Feirexpo

A Fundação Calouste Gulbenkian reserva-se o direito de recolher e conservar registos de imagens, sons e voz para a difusão e preservação da memória da sua atividade cultural e artística. Caso pretenda obter algum esclarecimento, poderá contactar-nos através do formulário Pedido de Informação.

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