19 julho 2018

Uma conferência com Impacto

Armenia 2018: Realidades e Perspetivas

O serviço  apoiou a organização da conferência internacional “Armenia 2018: Realidades e Perspetivas”, em Erevan.

Vai fazer um ano desde de que eu e o professor Ashot Voskanyan falámos sobre a necessidade de analisar, adequadamente, e com base em investigações pertinentes, a realidade atual na Arménia. O objetivo consistia na elaboração de conselhos, no âmbito das políticas públicas, para promover o desenvolvimento económico, social e político. A arménia estava presa a uma rotina e não existiam investigações académicas suficientes para esclarecer as causas da sua enfermidade.

Na altura não sabíamos que dentro de alguns meses o significado de “realidade atual” ia sofrer mudanças profundas. Em abril houve uma “revolução de seda”, de caráter popular e pacífico, que dissolveu a “velha guarda” e abriu o caminho para um governo jovem e dinâmico, sob a liderança do novo primeiro-ministro, Nikol Pashinyan.

Como já tínhamos planeado, realizou-se a conferência internacional “Arménia 2018: Realidades e Perspetivas”, organizada pelo centro de Investigação em Humanidades Arménio, entre 22 e 24 de Junho de 2018, na Universidade Americana da Arménia. No entanto, o tema principal da conferência sofreu uma alteração drástica. O foco não foi analisar formas de executar mudanças graduais, mas sim refletir sobre como consolidar os ganhos de uma revolução pacífica. A maioria dos oradores vieram da arménia, outros da Rússia e dos Estados Unidos. No total, cerca de 100 pessoas participaram nos diversos painéis e debates. Alguns dos participantes que tinham sido convidados meses antes para apresentar o seu trabalho como investigadores são agora Ministros-adjuntos ou assessores no novo governo.

O programa da conferência foi estruturado com 11 painéis, incluindo sessões de trabalho paralelas, centradas em diversos temas. Entre outras questões, debateu-se se os modelos teóricos Ocidentais são relevantes para compreender a realidade Arménia, a necessidade de haver uma reforma no sector educativo do país, possíveis percursos para o desenvolvimento económico, questões de justiça, corrupção e partidos políticos, o estudo da diáspora e a dinâmica cultural na Arménia. Um dos temas mais recorrentes foi a necessidade de haver um novo “contrato social” na Arménia associado a uma reformulação da constituição. Todos os debates centraram-se no contexto atual de mudança política do país, considerando os desafios e oportunidades que se apresentam. As apresentações e palestras foram concebidas, principalmente, em Arménio, mas também em Russo e Inglês, com tradução simultânea.

Ao fazer o resumo da conferência optei por realçar sete pontos. Em primeiro lugar, como devemos categorizar esta mudança política de abril-maio 2018? Foi uma revolução ou uma mudança de governo devido a pressões populares? É demasiado cedo para formar conclusões, mas avaliações preliminares aparentam indicar que o país se encontra a meio de uma revolução pacífica. Esperamos que mantenha o seu caracter pacífico e que seja bem-sucedida em trazer e consolidar mudanças fundamentais. Em segundo lugar, um dos temas mais debatidos foi como consolidar os ganhos da revolução em todos os sectores da sociedade, para que o sentido de justiça prevaleça e que o desenvolvimento económico cresça. Em terceiro lugar, foi realçada a importância de sermos realistas e seguir um progresso lento mas estável, tendo em mente que a democracia é um processo, um objetivo permanente, e não uma fase final para atingir e depois parar. Em quarto lugar, houve um verdadeiro desejo de compreender as complexidades da diáspora e as suas várias entidades e, a sua relação com a “nova” Arménia. Em quinto lugar, a necessidade de reformular o sector educativo na Arménia foi destacado: são precisas restruturações a todos os níveis, desde universidades e centros de investigação até aos métodos pedagógicos nas escolas primárias. Em sexto lugar, foram enumerados alguns “próximos passos”: continuar a basear recomendações políticas em investigações, ter especialistas a aconselhar o governo, analisar a revolução na Arménia num contexto global, e como um exemplo positivo de mudança social. Por fim, é interessante notar os “silêncios” na conferência – o que não foi falado – o conflito Nagorno-Karabakh, e a possibilidade de uma contra-revolução pela velha guarda.

Os abstracts da conferência podem ser consultados online.

Durante a minha viagem à Arménia, pedi ao nosso “focal Point” Hamazasp Danielyan que partilhasse algumas observações como testemunha da revolução na Arménia. A nossa breve conversa está disponível aqui

Razmik Panossian

Diretor, Comunidades Arménias – Fundação Calouste Gulbenkian