Inês Zenha. Águas Turvas
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Data
- sáb,
- Encerra Terça
Local
Espaço Projeto Centro de Arte Moderna GulbenkianPreço
- Entrada gratuita
Partindo de um vocabulário simultaneamente poético e político, a artista propõe uma viagem subterrânea através de sistemas—do corpo e das infraestruturas humanas—em que a água, os fluidos corporais e a argila se tornam os fios condutores dessa transformação.
Este «tornar-se líquido» constitui o eixo conceptual e formal da exposição. Na sua recusa em serem fixados, classificados ou contidos, os líquidos espelham as dinâmicas da experiência queer, marcadas por noções de negociação, transição e resiliência. A água deixa, assim, de ser apenas uma metáfora para assumir o papel de protagonista, atravessando e ligando as diferentes obras.
O espaço expositivo transforma-se numa espécie de gruta pós-humana—simultaneamente templo e esgoto—onde tubagens e sistemas hidráulicos se cruzam com gestos performativos, convertendo a exposição num organismo vivo que respira, transborda e digere. Neste ambiente poroso, o público deixa de ser um observador passivo para participar numa coreografia de fluxos, sendo convidado a sentir em si o movimento rítmico da água.
Águas Turvas rejeita a lógica higienista da pureza e da ordem. Em vez disso, acolhe o monstruoso, o animal, o estrangeiro, o obscuro e o queer—figuras historicamente apagadas pelo imaginário normativo dominante. O trabalho de Zenha insiste na sua presença, construindo um espaço onde a contaminação se transforma em cuidado, a vulnerabilidade em força e a marginalidade num lugar de afirmação radical.
Mais do que oferecer respostas, a exposição cria as condições para sentir, experienciar e desaprender. Águas Turvas celebra a porosidade, a hibridez e a sobrevivência, lembrando-nos que, tal como a água, persistimos não apesar da nossa fluidez, mas precisamente por causa dela.
— Expresso«O que Inês Zenha parece propor é que todo esse conforto soçobre para dar lugar à potência das coisas sem nome, cuja condição híbrida entra nesta geometria conceptual como um vírus fértil e vivificador. A “inteligência líquida” resiste ao abafamento, à tutela de uma designação ou de uma circunscrição.»
Temas
Desenterro
Águas-Vivas
Becoming-Hydra [Devir-Hidra]
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Somos Lodo
Concebida especificamente para a apresentação de Águas Turvas no CAM, Somos Lodo assinala o início do percurso expositivo, fazendo da água a primeira protagonista da exposição. O fluxo contínuo que atravessa a escultura torna visível a circulação entre corpo, terra e infraestrutura, onde matéria, arquitetura e organismo deixam de existir como entidades separadas. Ao reivindicar o lodo como origem e matéria fértil, a obra recusa as oposições entre pureza e impureza, natural e artificial. A água afirma-se, assim, o fio condutor da exposição, convidando-nos a imaginar formas de existência fundadas na interdependência, no cuidado e na permanente possibilidade de devir.
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Desenterro
O mural Desenterro transforma a parede num organismo vivo onde terra, corpo e infraestrutura se tornam indissociáveis. Feita em barro cru, a obra permanece vulnerável ao tempo, recusando a estabilidade como valor. Pelos, fissuras e excrescências espalham-se pela superfície, infiltrando-se na arquitetura e trazendo para o primeiro plano uma parte do corpo historicamente sujeita a normas de controlo, higiene e género. Ao confundir crescimento orgânico e erosão, corpo e construção, a obra recupera a terra como lugar de memória e de emergência de outras formas de vida.
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Águas-Vivas
O tríptico Águas-Vivas reapropria o panorama—um formato historicamente associado à conquista, ao poder e à construção de imaginários patriarcais e heteronormativos—para imaginar um outro horizonte. Atravessadas por um verde que oscila entre o natural e o artificial, o vital e o tóxico, estas pinturas dão corpo a figuras híbridas, fluidas e mais-do-que-humanas. Na névoa, onde qualquer horizonte permanece suspenso, os corpos encontram-se, amparam-se e avançam em conjunto. A incerteza não impede a transformação nem a possibilidade de libertação: é nela que o cuidado, a resistência e a imaginação coletiva encontram espaço para emergir.
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Becoming-Hydra [Devir-Hidra]
A série de esculturas Devir-Hidra reúne um conjunto de organismos híbridos onde tubagens, órgãos e formas vegetais parecem pertencer a um mesmo fluxo vital. Os vidrados evocam o percurso da água, da nascente à terra, atravessando tubagens e intestinos, fazendo de cada superfície um registo de sedimentação, erosão e metamorfose. Como plantas ruderais que florescem em terrenos perturbados pela ação humana, estas esculturas ocupam as fissuras do construído e afirmam a interdependência entre corpos, matérias e ecossistemas. Em permanente devir, imaginam formas de vida onde crescimento e transformação são inseparáveis.
Biografias
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Inês Zenha
Inês Zenha (Lisboa, 1995) estudou Belas-Artes na Central Saint Martins, em Londres, tendo residido e trabalhado, até recentemente, em Paris. Neste momento vive e trabalha em Lisboa.
A sua obra integra variadas coleções institucionais e entre as suas exposições individuais e coletivas mais recentes destacam-se: Collegium, Arévalo; Kunsthalle Lissabon, Lisboa; Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, Madrid; Théâtre du Châtelet, Paris; La Maison Rouge, Paris; Saatchi Gallery, Londres; Central Saint Martins, Londres; e Freud Museum, Londres. -

João Mourão e Luís Silva
João Mourão e Luís Silva são co-directores da Kunsthalle Lissabon, fundada por ambos em 2009. Foram os curadores do Pavilhão de Portugal na 59.ª Bienal de Veneza (2022), com «Vampires in Space», de Isadora Neves Marques. Entre os seus projetos mais recentes destacam-se exposições individuais de Inês Zenha (CA2M, Madrid), Mounira Al Solh (Museu de Serralves, Porto), Jonathas de Andrade (CRAC Alsace e MAAT, Lisboa), entre outras. Além de colaborarem regularmente com diversas publicações e editaram várias monografias, na Kunsthalle Lissabon apresentaram exposições de variados artistas.
Ficha técnica
Curadores
João Mourão
Luís Silva
Imagem principal
© Bruno Lopes
Projeto originalmente produzido por
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