Dido e Eneias

Coro e Orquestra Gulbenkian / Maxim Emelyanychev

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A ópera com o libreto integralmente musicado era uma raridade na Inglaterra seiscentista. Mas entre as exceções de relevo encontra-se a obra Dido e Eneias (1689), de Henry Purcell, reveladora do génio dramático do compositor inglês. À frente da Orquestra Gulbenkian e de um leque de experientes cantores, o jovem maestro Maxim Emelyanychev irá demonstrar a sua liderança e a sua ousadia na abordagem do inexorável e trágico amor entre Dido, rainha de Cartago, e o troiano Eneias.


Programa

Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Maxim EmelyanychevCravo / Direção
Marianne Beate Kielland Meio-Soprano (Dido)
Edwin Crossley-Mercer Baixo-Barítono (Eneias)
Ana Quintans Soprano (Belinda / Vénus)
Cátia Moreso Meio-Soprano (Feiticeira / Primavera)
David Webb Tenor (Marinheiro / Phoebus)
Cecília Rodrigues Soprano (1.ª Bruxa, 2.ª Mulher, 2.ª Nereida, 2.ª Pastora)
Eduarda Melo Soprano (2.ª Bruxa, 1.ª Nereida, 1.ª Pastora)
Beatriz Ventura Soprano – Coro Gulbenkian (Espírito)

Helena Raposo Guitarra barroca
Shizuko Noiri Alaúde
Adrià Gàlvez Órgão

Henry Purcell
Dido e Eneias

*Por motivos de força maior, o maestro Leonardo García Alarcón é substituído por Maxim Emelyanychev.

Libreto de Nahum Tate
Composição: 1688
Estreia: Londres, 1688
Duração: c. 65 min.

Em Inglaterra, na segunda metade do século XVII, viviam-se tempos conturbados, marcados pela instabilidade do poder político e monárquico, com alternância entre reinados católicos e protestantes. Após o período republicano da Commonwealth (1649-1660), a monarquia foi progressivamente restaurada com a subida ao trono de Charles II, em 1660, e a Revolução Gloriosa de 1688.

Estas mudanças afetaram, pois, a produção cultural e musical da época. Durante a Commonwealth, os espetáculos teatrais foram suspensos e a estratégia encontrada por artistas e companhias para contornar essa proibição foi incluir números musicais nas peças. Esta prática permitiu que se desenvolvesse um género musico-teatral cuja génese vinha do início do século – a masque. Em parte semelhante ao ballet de court francês, a masque era sobretudo um espetáculo de caráter alegórico que incluía danças, figurinos e cenários vistosos, diálogos falados e pequenas árias de cariz popular. Foi dentro desta tradição que nasceu, nos anos 80, pela mão de Henry Purcell, um dos mais emblemáticos exemplares de ópera inglesa de todos os tempos: Dido e Eneias.

Purcell começou a sua carreira como menino de coro na Capela Real. Quando mudou de voz, tornou-se compositor de corte e organista na Abadia de Westminster. Compôs maioritariamente obras sacras e música para integrar peças de teatro. Dido e Eneias é uma obra atípica dentro do seu repertório por ser um género musico-teatral integralmente cantado. A sua principal inspiração vem de Venus e Adonis, de 1682, da autoria de John Blow, seu mentor e antecessor em Westminster.

As semelhanças entre as duas obras são evidentes: ambas têm uma estrutura em três atos com um prólogo alegórico, contam a história fatídica da relação entre uma mulher dominante e imperial e um homem tolo e vão, e terminam, ao contrário do que era habitual nas óperas do século XVII, na morte trágica da protagonista. As danças são usadas para articular o drama e o coro tem um papel integrante, assumindo personagens como cortesãos, cupidos, bruxas e marinheiros.

Embora a primeira apresentação documentada de Dido e Eneias seja datada de 1689, no colégio feminino de Josias Priest, em Chelsea, é possível que tenha sido também escolhida para celebrar a coroação de William III (1689-1702) e sua esposa Mary ou que tenha sido estreada ainda no ano anterior.

A obra está aparentemente cheia de conotações políticas. O prólogo, cuja música se perdeu, alude possivelmente à Revolução Gloriosa de 1688, com a representação alegórica do príncipe William a regressar à Grã-Bretanha. A própria história do libreto, de um monarca que abandona a sua rainha com um resultado trágico, é entendida por muitos como um aviso a William, também ele estrangeiro no país onde se encontra (era holandês de nascimento). A intervenção da bruxaria, que na época era associada ao rito católico, poderá ser uma alusão ao reinado de James II (1685-88), acabado de destronar.

O texto foi escrito por Nahum Tate, adaptado da obra anterior de sua autoria Brutus of Alba, or the Enchanted Lovers, de 1678, e baseado num episódio do quarto livro da Eneida de Virgílio. Eneias, um príncipe troiano, desembarca em Cartago após o saque de Troia pelos gregos. Dido, a rainha dos cartagineses, recebe-o friamente, receando tornar-se vulnerável, mas acaba por ceder ao amor. Embora apaixonado por Dido, Eneias é lembrado pelo mensageiro dos deuses que o seu destino é continuar viagem em direção a Roma, onde fundará um império. Na realidade, não é Mercúrio quem o avisa, mas um elfo disfarçado, enviado pelas bruxas que conspiram contra os amantes. Dido, iludida pelas promessas de Eneias, vendo-se abandonada e enfraquecida como monarca, entrega-se à morte.

A influência francesa é notória desde a abertura, em andamento lento com ritmos pontuados, ao qual se segue um fugato. Assim como na tragédie lyrique de Lully, as danças são um aspeto fundamental do drama e surgem em momentos importantes da história, tais como a celebração do amor dos protagonistas, a conspiração das bruxas, a urgência da partida dos marinheiros e a morte de Dido.

Quanto ao coro, comenta e reitera textual e musicalmente as intenções do número anterior, como em Fear no danger ou Come away fellow sailors. A estrutura tonal está particularmente bem definida, com associações entre tonalidades e afetos, cara a Purcell e característica do período barroco. Assim, o Dó menor inicial representa angústia e adivinha a tragédia que se aproxima, Fá maior e Dó maior estão associados ao amor e à alegria e Sol menor (lamento de Dido) à morte.

A parte mais moderna desta ópera são as árias, revelando um conhecimento dos estilos italianos da época. A primeira ária de Dido – Ah! Belinda – é em forma da capo, e a sua ária final – When I am laid – é um lamento em forma de passacaglia com baixo ostinato cromático ao estilo veneziano. Esta última, uma das mais belas e dolorosas árias do repertório para soprano, é o auge da ópera e o seu drama é acentuado pelo coro que se lhe segue e a conclui, trágica mas serenamente.

Susana Duarte

Prólogo
Febo ergue-se sobre o mar na sua quadriga. As Nereides saem do mar. No bosque a Primavera e as suas Ninfas dançam em conjunto, sendo logo secundadas pelos pastores e pelas pastoras.

Ato I
A ação desenrola-se no palácio de Dido, rainha de Cartago. A rainha conversa com Belinda, sua irmã, sobre o amor que sente por Eneias. Apesar de acreditar que o casamento com ele traria paz ao reino, suspeita que possa enfraquecê-la enquanto soberana. Belinda encoraja a rainha a ceder à insistência do príncipe e a casar com ele, dizendo-lhe que Eneias também a ama e que, com as núpcias, Cartago estará segura e Troia ressurgirá. O coro comenta a cena. Eneias entra. No primeiro momento é recebido com frieza, mas Dido cede ao amor e aceita-o.

Ato II – Cena 1
A ação decorre numa gruta. Uma feiticeira planeia a destruição de Cartago e, para isso, convoca o conluio das bruxas. Um espírito sob a aparência de Mercúrio dirá a Eneias que Júpiter ordena a sua imediata partida e o abandono de todos os planos de casamento com Dido. O coro junta-se às bruxas e evoca uma tempestade. Na dança da Fúrias, que encerra a cena, as bruxas desaparecem num trovão.

Ato II – Cena 2
Depois da tormenta, Eneias e os seus homens descansam numa clareira. As bruxas lançam-se sobre eles. Os homens dispersam-se e deixam Eneias sozinho. O Espírito com aparência de Mercúrio ordena-lhe que obedeça aos desígnios de Júpiter e que inicie a viagem de regresso a Itália sem demoras. Eneias resiste. Pergunta como Dido poderá suportar destino tão atroz: amada num dia e abandonada noutro. Finalmente, rende-se.

Ato III – Cena 1
No porto de Cartago são feitos os preparativos para levantar âncora. Ouve-se um coro de marinheiros. A feiticeira enuncia que Dido deverá morrer, Cartago consumir-se em chamas e que os intrépidos troianos deverão naufragar. A dança das bruxas encerra a cena.

Ato III – Cena 2
No palácio a rainha lamenta o destino. Eneias surge e tenta explicar-lhe os motivos da sua partida, mas Dido recusa aceitar e acusa-o de fraqueza de caráter. Comovido, Eneias decide ficar em Cartago, mesmo contra a vontade dos deuses, mas Dido rejeita-o novamente por este ter pensado em deixá-la. Após a saída de Eneias, a rainha canta o famoso lamento de Dido, preparando-se para morrer. Cupidos surgem entre as nuvens e vigiam o túmulo de Dido enquanto o coro encerra a obra.


GUIA DE AUDIÇÃO

 

Por Jorge Rodrigues

Jorge Rodrigues apresenta-nos Dido e Eneias, um dos mais emblemáticos exemplares de ópera inglesa de todos os tempos, revelador do génio dramático do compositor Henry Purcell.


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