A autorrepresentação: Almada Negreiros e Pedro Cabrita Reis

Como os outros nos veem passou a ser a primeira assinatura visual contemporânea: a imagem que se tem de si próprio está «espelhada» na selfie, ato performativo quase diário. Esta ideia de reconhecimento é antiga e representada desde sempre na criação artística. Aqui destacamos duas obras que se debruçam sobre este reconhecimento, uma de 1925 e outra de 2005, portanto são oitenta anos que as separam. Quer a autorrepresentação de Cabrita Reis, quer o autorrepresentado Almada Negreiros refletem sobre os limites da criação artística: o artista como representação própria.

Pedro Cabrita Reis tem explorado, ao longo da sua carreira e de modo sistemático, os temas do rosto e do autorretrato, que apontam para um lado autobiográfico. A representação dos olhos do artista no canto superior direito da obra Large Portraits #4 direciona um caminho: são olhos que querem ver, de mente aberta e espírito inventivo.

Almada Negreiros autorrepresenta-se de perfil, em grupo, sentado à mesa num café. Uma máscara que é, ela própria, realidade e não o disfarce para enfrentar a realidade. É uma autorrepresentação que analisa e revela uma identidade e não a ideia de um duplo do artista.

Patrícia Rosas, curadora