Uma história por contar
Nos bastidores da renovação nasce o Gabinete de Numismática, uma das novidades que o Museu apresenta aos seus visitantes a partir da reabertura. Revelamos como, por detrás deste espaço, existem histórias por contar ligadas à Coleção e ao Fundador.
O projeto
O espírito do projeto original do Museu Gulbenkian, datado de 1969, foi a referência central para o novo enquadramento da Coleção. Ainda assim, o percurso da exposição permanente terá algumas novidades.
A partir de 18 de julho, os visitantes passam a poder conhecer um espaço até agora interdito ao público. Junto à galeria da Grécia, Roma e Mesopotâmia, o gabinete de numismática que, durante vários anos, serviu de base à investigação sobre a coleção de moedas, estará aberto a visitas.
Uma paixão
Ainda que se possa considerar Gulbenkian um entusiasta colecionador de moedas gregas, este terá iniciado a sua coleção de numismática de forma cautelosa.
Em correspondência com o seu principal conselheiro, o Dr. E. S. G. Robinson, conservador do Departamento de Numismática do British Museum, afirmou:
“Quando comecei a minha coleção, o meu objetivo era limitar-me às moedas jónicas, mas, aos poucos, fui-me envolvendo.”
Rodeando-se dos melhores peritos e comerciantes da especialidade, usava a rara beleza e o perfeito estado de conservação dos objetos como critérios de um gosto muito particular e exigente.
Nesta relação de proximidade, o Colecionador confiou ao Dr. Robinson algumas das suas mais importantes transações. Entre elas, a compra da maior parte da coleção Jameson, pertencente ao banqueiro francês que, nos anos 1930, reuniu um dos melhores conjuntos de moedas da Grécia Antiga do mundo.
Um Catálogo «tip top»
Consciente da qualidade do núcleo de moedas gregas que vinha reunindo, Gulbenkian empenhou-se em editar um catálogo dedicado a esta parte da sua coleção.
Num post-scriptum de uma carta de 20 de dezembro de 1946, dirigida ao Dr. Robinson, a propósito da sua coleção de moedas gregas e da produção do catálogo, escreveu:
“Com todas estas novas aquisições, as minhas próprias moedas, acha que possuo moedas gregas de primeira linha do ponto de vista artístico e de conservação? Presumo que tenha no museu uma coleção muito mais requintada. Não me refiro ao número nem à dimensão, mas sim à beleza e à arte. Tenho o ambição de ter o meu catálogo “tip top”.”
Não se sabe ao certo em que momento terá surgido a ideia de produzir o catálogo, mas este tornou-se, sobretudo a partir da aquisição da coleção Jameson em 1947, um dos grandes objetivos de Gulbenkian. A 2 de fevereiro desse mesmo ano, escrevia:
“Desejo ter um catálogo verdadeiramente monumental e não o habitual e seco livro descritivo. […] Conto, evidentemente, com a sua eminente colaboração para o capítulo sobre a arte numismática grega. Para os restantes estudos, terei de encontrar os melhores e mais qualificados peritos.”
O desejo de editar um catálogo só se concretizou após a sua morte, sendo o projeto assumido pelos administradores da Fundação Gulbenkian. No livro «Calouste Gulbenkian Coleccionador», José de Azeredo Perdigão relata que a Fundação seguiu os moldes estabelecidos pelo Colecionador, ficando o Dr. Robinson responsável pela direção da publicação.
A investigação
O projeto de publicação do catálogo criou a necessidade de um espaço dedicado ao estudo desta coleção nas instalações do Museu. Dr. Robinson contou com a colaboração do investigador e numismata Mário de Castro Hipólito, que se instalou no gabinete entre a década de 1970 e o início dos anos 2000.
Cumprindo a vontade de Calouste Gulbenkian, o primeiro volume do «Catalogue of the Calouste Gulbenkian Collection of Greek Coins», publicado em 1971, procurou servir, nas palavras de Mário de Castro Hipólito, todos os numismatas, investigadores e demais estudiosos interessados na Coleção.
Esta primeira parte da publicação foi dedicada ao Sul de Itália, à Sicília e a Cartago, com o objetivo de tornar acessível toda a documentação relativa às moedas gregas da Coleção, até então ora inédita, ora dispersa.
O segundo volume, «Catalogue of the Calouste Gulbenkian Collection of Greek Coins. Greece to East», publicado em 1989, completou o trabalho anterior, consagrando, nos dois volumes, a abordagem integral da coleção.
O novo gabinete
Com a reabertura do Museu, abre-se um novo capítulo na história deste espaço, que passa agora a ser acessível aos visitantes. O público poderá, assim, visitar um gabinete que serviu a investigação de um dos mais importantes núcleos privados de numismática do mundo.