Redes de Confiança no Mundo da Arte

Colecionar e Negociar em Tempos de Guerra e Diplomacia

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Data

  • 17:30 / Cancelado 17:30 / Esgotado quarta, 17:30
  • 09:30 / Cancelado 09:30 / Esgotado quinta, 09:30
  • 09:30 / Cancelado 09:30 / Esgotado sexta, 09:30

Local

Auditório 3 Fundação Calouste Gulbenkian
A Conferência Calouste Gulbenkian em História da Arte propõe, na sua segunda edição, uma reflexão sobre redes de confiança no mundo da arte, a partir da figura e da atuação transnacional de Calouste Gulbenkian.

A segunda edição da Conferência Calouste Gulbenkian em História da Arte tem como tema «Redes de Confiança no Mundo da Arte: Colecionar e Negociar em Tempos de Guerra e Diplomacia». Partindo da figura de Calouste Gulbenkian e com especial destaque para o papel das redes arménias, este encontro propõe explorar as complexas dinâmicas sociais, políticas e culturais que moldaram a produção, circulação, colecionismo e exposição de obras de arte entre o final do século XIX e meados do século XX.

Comerciantes de tapetes, Tiblissi, c. 1900. Fotografia: Dmitri Yermakov.
Comerciantes de tapetes, Tiblissi, c. 1900. Fotografia: Dmitri Yermakov.

Calouste Gulbenkian surge como figura central nestas redes transnacionais, atuando como colecionador, empresário, diplomata e mecenas. A sua atividade articulou-se com uma vasta rede de relações – muitas delas no contexto da diáspora arménia – que mostram como a confiança pessoal, a solidariedade comunitária e as afinidades culturais foram fundamentais para manter o intercâmbio artístico em períodos de profunda instabilidade geopolítica.

Ao longo de três dias, um grupo de especialistas irá analisar de que forma estas redes de confiança sustentaram o mundo da arte em contextos marcados por migração, guerra e diplomacia. Apresentando investigações inéditas e perspetivas decorrentes de análises aprofundadas da Coleção e dos Arquivos Gulbenkian, os painéis irão abordar um leque variado de temas, incluindo os mercados nos impérios Cajar e Otomano; o impacto da Primeira e da Segunda Guerra Mundial no comércio e colecionismo de obras de arte; o papel de exposições internacionais na circulação de objetos e pessoas, bem como na formação de alianças; e as relações entre arte, filantropia e benevolência.

O evento será transmitido em direto e estará disponível nesta página.


Oradores


Programa

17:30 / Acolhimento

18:00 / Boas-vindas

Guilherme d’Oliveira Martins – Fundação Calouste Gulbenkian, LisboaAntónio Filipe Pimentel – Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa

Conferência inaugural

18:15 / Do silêncio da fotografia: Nevarte Essayan Gulbenkian como a retratada efémera, a «mestre» anfitriã, e a mecenas póstuma nas redes transnacionais de diplomacia

Apoiada nos vastos arquivos da Fundação Calouste Gulbenkian, esta palestra defende o papel central de Nevarte Essayan Gulbenkian no extraordinário sucesso do seu marido e na acumulação da fortuna que permitiu dar corpo à sua coleção de arte e ações de mecenato e filantropia global, dirigidas às comunidades arménias e para lá das mesmas. O capital económico de Calouste Gulbenkian – e os tropos da alta sociedade ocidental que o alimentavam e sustentavam – estavam condicionados por um controlo altamente disciplinar, até mesmo retributivo, domesticado por protocolos e burocracia. Aplicando teorias feministas e teoria crítica da raça na análise do uso discursivo do invisível e, por conseguinte, da «dona da casa», demonstramos que, por meio de estratégias historicamente relacionadas com o «domínio feminino», Nevarte navegou pela política de poder entre a identidade de valores arménios dos Essayan-Gulbenkian e o seu estilo de vida de valores burgueses europeu. Excluída dos privilégios patriarcais de Calouste Gulbenkian, Nevarte envolveu a sua rede diplomática feminina, organizou «festas» irrepreensíveis, renunciou à vida pública, particularmente à carreira e às câmaras, doando após a sua morte o único bem que tinha à sua disposição – as suas joias – para financiar a educação de crianças arménias. A nossa palestra destaca, assim, o papel fundamental das «esposas» menorizadas, como foi o de Nevarte, que possibilitou a ascensão do seu marido, magnata do petróleo, à riqueza que potenciou o seu negócio e colecionismo de arte.
Talinn Grigor – University of California, DavisHouri Berberian – University of California, Irvine

09:30 / Acolhimento

10:00 / Discurso de abertura

Jessica Hallett – Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa

Painel 1 – Origens dos Comerciantes e Redes de Confiança

Moderação
Heghnar Watenpaugh – University of California, Davis

10:20 / De comerciante, a negociante, a colecionador: Origens na Anatólia, práticas comerciais e confiança na carreira inicial de Calouste Gulbenkian

Calouste Gulbenkian mudou-se para Londres na década de 1890, mas não deixou o Império Otomano para trás. Um dos recursos mais impressionantes dos Arquivos Gulbenkian é a sua correspondência com os familiares que geriam negócios na sua «terra natal». A partir dessas cartas, é possível reconstruir uma ideia das atividades e redes existentes, incluindo o comércio do que hoje seria classificado como objetos de arte, juntamente com lã e angorá, ópio, cereais, petróleo, têxteis e outros artigos. O final da década de 1890 também coincidiu com a transferência de importantes bens da família, incluindo antiguidades, para Londres. Esta comunicação aborda a transição de Calouste Gulbenkian, de comerciante trabalhando para a família, para o Gulbenkian que se estabeleceu como agente independente. Será investigada a aquisição de obras de arte em Londres (da Christie's, Gimpel e outras), mas também serão mapeadas as relações com outros arménios da Anatólia – Hagop Kevorkian, Kirkor Minassian e Dikran Kelekian – envolvendo negócios colaborativos, tarefas discretas e financiamentos bancários. Será que Gulbenkian nunca abandonou, afinal, o mundo dos negócios?
Alyson Wharton-Durgaryan – University of Lincoln

10:45 / O clã Ispenian e o comércio de salvados no Cairo do século XX

A progressão do negócio da família Ispenian, da modesta loja num bazar de Istambul até à sumptuosa galeria junto às pirâmides, no Cairo, a partir de 1936, ilustra a ascensão bem-sucedida de um negócio familiar no campo das antiguidades. Uma linha importante do seu negócio era o comércio e a reutilização de materiais salvados, numa época em que este reaproveitamento era praticado em larga escala no Cairo. Usando documentos fornecidos por um descendente, além de registos dispersos entretanto recolhidos, esta apresentação situará Kevork Ispenian e o seu filho Boghos (mais tarde conhecido por Paul) Ispenian no cenário florescente do comércio de antiguidades no Cairo do século XX, centrando-se em Paul Ispenian (1884-1970), que se destacou como negociante/decorador-diplomata/mecenas, circulando eficazmente entre o Cairo, Paris e Veneza.
Mercedes Volait – InVisu – Centre National de la recherche scientifique, Paris— Intervalo 20 min. —

11:30 / Judeus e arménios como comerciantes de arte islâmica: Perspetivas de Constantinopla e Paris

Embora os arménios otomanos e os judeus tivessem um papel igualmente proeminente no comércio de arte e antiguidades islâmicas da era moderna – trabalhando frequentemente nos mesmos campos, nos mesmos bairros, nas mesmas ruas e até nos mesmos edifícios – as suas relações sociais ou profissionais continuam a ser pouco conhecidas. Recorrendo a pistas espalhadas por vários arquivos, esta apresentação explora as evidências tentadoras, embora fragmentárias, das parcerias arménio-judaicas forjadas durante as últimas décadas do império Otomano, desde a capital imperial aos novos centros da diáspora, como Paris.
Julia Phillips Cohen – Vanderbilt University, Nashville

11:55 / Banca e comércio de antiguidades: Transformar artefactos em ativos

A informação financeira faz parte do substrato histórico da arte. Faturas, recibos e documentação relacionada com seguros são uma parte importante do trilho documental e, às vezes, encontramos inclusive inventários e registos contabilísticos com os quais podemos trabalhar. Os arquivos estão repletos de artefactos que foram transformados em valores financeiros associados a documentos de identificação e reproduções fotográficas. Embora hoje em dia o consideremos como condição natural dos objetos colecionados, isto resultou, em parte, da estreita relação entre o setor bancário internacional e o comércio de antiguidades no final do período colonial, indústrias que se desenvolveram e expandiram em simbiose entre o final do século XIX e o início do século XX. Esta apresentação identifica e explora casos em que o setor financeiro e o comércio de antiguidades do Médio Oriente coexistiram no seio das mesmas famílias, por vezes até nas atividades dos mesmos indivíduos, questionando como a continuidade entre a banca da era colonial e as antiguidades provocaram a milagrosa transubstanciação de artefactos em ativos.
Margaret Graves – Brown University, Providence

12:25 / Debate

— Intervalo 90 min. —

Painel 2 – Comércio, Colecionismo, Diplomacia e Guerra

Moderação
Yuka Kadoi – Universität Wien

14:00 / Gulbenkian(s), arménios e Pérsia: Arte e diplomacia 1919-1941

Este artigo analisa as extensas e multifacetadas ligações de Calouste Gulbenkian com o Irão entre 1919 e 1941. Baseado exclusivamente em documentos conservados nos Arquivos da Fundação Calouste Gulbenkian, esta apresentação analisa a colaboração próxima e complexa de Gulbenkian com a Embaixada do Irão em França, onde exerceu o cargo de Adido Comercial, e compara os seus métodos e estratégias com os do seu filho, Nubar, que ocupou o mesmo cargo no Reino Unido. A comunicação realça o modo como a abordagem de Calouste Gulbenkian combinou diplomacia estratégica, conhecimentos comerciais e uma extensa rede de contactos arménios, culminando com um caso que pode ser visto como emblemático do próprio Calouste Gulbenkian: a sua aquisição de pinturas europeias para a Corte Imperial do Irão, em vésperas da Segunda Guerra Mundial.
Negar Habibi – University of Geneva

14:25 / Comércio e colecionismo de antiguidades durante a ocupação alemã de França

A ascensão de Paris como capital do comércio de antiguidades, no início do século XIX, deve-se em grande medida aos negociantes arménios. Embora os objetos por si vendidos se encontrem, hoje em dia, em quase todos os grandes museus do mundo, muito pouco se sabe ainda sobre eles. Esta lacuna é particularmente problemática no que respeita às transações em tempo de guerra. Durante a ocupação alemã, os Museus Estatais de Berlim adquiriram numerosas antiguidades no mercado de arte parisiense. A sua proveniência foi recentemente analisada pela primeira vez. Os resultados desta investigação podem ajudar a compreender melhor a importância dos negociantes arménios no comércio de antiguidades e respetivas redes, e podem também ilustrar os desafios específicos associados à investigação da proveniência de antiguidades. Neste contexto de escassez de arquivos relacionados com os comerciantes de antiguidades, os acervos da Fundação Calouste Gulbenkian são particularmente relevantes, constituindo não só um museu como também o arquivo de um colecionador que, devido às suas origens, mantinha uma relação estreita com esses comerciantes arménios – e cuja própria coleção se encontrava parcialmente em Paris durante a Ocupação.
Mattes Lammert – Universität Zürich

14:50 / O «couraçado» Gulbenkian: A casa do Colecionador em tempo de guerra

Calouste Gulbenkian descreveu a sua casa a Kenneth Clark como tendo sido «construída como um couraçado, meu amigo». O colecionador referia-se não apenas à complexidade da renovação do 51 Avenue d’Iéna, mas também ao objetivo orientador do projeto: assegurar privacidade, segurança e a proteção da coleção. Quando adquiriu este hôtel particulier, Gulbenkian já tinha vivido uma guerra mundial como colecionador. Contudo, a Segunda Guerra Mundial apresentou um desafio completamente distinto: além dos bombardeamentos, a casa e a coleção enfrentariam a ameaça de apreensão pelas forças nazis. Esta comunicação examina as particularidades da casa do colecionador durante a guerra, os riscos enfrentados e as medidas implementadas por Gulbenkian – ainda em Paris e, posteriormente, a partir de Vichy e de Lisboa – para proteger a coleção. Esta abordagem revelará figuras habitualmente esquecidas, como o pessoal doméstico, cuja ação se revelou determinante neste período crítico da história da coleção.
Vera Mariz – Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa

15:15 / Debate

— Intervalo 20 min. —

15:55 / Mesa-redonda – Nos Bastidores: Os Arquivos de Calouste Sarkis Gulbenkian e a criação da Conferência

Mattes Lammert, Negar Habibi, Roxanne Goldberg, Vazken Davidian
Moderação
Mafalda Melo de Aguiar – Arquivos Gulbenkian, Lisboa

09:30 / Acolhimento

Painel 3 – Exposições, Mobilidade e Política

Moderação
Margaret Graves – Brown University, Providence

10:00 / Dikran Kelekian e as suas coleções nas Exposições Universais: Chicago, Paris e St. Louis

Kelekian nasceu em 1868 numa família arménia da elite do Império Otomano, descendendo de três gerações de antiquários e com meios culturais e económicos que lhe permitiam atravessar fronteiras com facilidade e estabelecer redes transnacionais e transatlânticas com polos em Istambul, Cairo, Teerão, Londres, Paris e Nova Iorque. Ao longo da vida, Kelekian acumulou uma coleção grande e eclética de antiguidades e obras de arte, abrangendo períodos desde a Antiguidade e a Idade Média até à Modernidade. Recorrendo a fontes textuais e visuais anteriormente inexploradas, esta comunicação olha para as primeiras experiências de Kelekian como colecionador arménio otomano num mercado de arte global emergente, com foco na sua participação nas Exposições Mundiais de Chicago (1893), Paris (1900) e St. Louis (1904), tendo como pano de fundo o panorama político otomano tardio, o crescente interesse pela arte islâmica e a complexa dinâmica da autoformação, do exílio e do sentimento de pertença.
Gizem Tongo – British Institute at Ankara

10:25 / Paris e Munique como centros de criação de redes estáveis entre colecionadores, especialistas de museus e comerciantes ao longo de meio século

A exposição de obras-primas da arte islâmica em Munique, em 1910, foi um ponto de viragem para o jovem colecionador Calouste Gulbenkian. O Dr. Hugo von Tschudi (1851-1911), organizador da exposição de Munique em 1910, enviou-lhe um convite eloquente para participar neste grande evento com a sua coleção de arte islâmica, fazendo referência à participação de colecionadores parisienses. Esta ocasião seria a primeira vez que Gulbenkian participava oficialmente numa exposição internacional com a sua coleção de objetos de «arte oriental», ainda pequena mas de qualidade reconhecida. Impressionado com a qualidade da exposição de Munique, Gulbenkian viria a adquirir, mais tarde, alguns dos objetos expostos, passando a participar regularmente em exposições de arte islâmica/oriental. No evento de Munique, Gulbenkian teve a oportunidade de contactar com comerciantes, colecionadores e museólogos, alguns residentes em Paris. Foi nessa ocasião que conheceu também o jovem conservador alemão Ernst Kühnel (1882-1964), que viria a publicar um catálogo completo da coleção Gulbenkian em 1963. Esta rede de contactos e as transações realizadas em Munique e Paris são o tema desta comunicação.
Nathalie Neumann – Johannes Gutenberg-Universität Mainz— Intervalo 20 min. —

11:10 / A União dos Artistas Arménios, 1916-1921: Uma instituição expositiva móvel e o mercado de arte arménio embrionário

No outono de 1915, quatro artistas arménios reencontraram-se perto de Etchmiadzin, onde milhares de arménios otomanos procuravam refúgio do massacre, da fome e de doenças epidémicas resultantes do genocídio arménio. Três pintores arménios russos – Vardges Sureniants, Yeghishe Tadevossian e Martiros Sarian – chegaram ao local para prestar apoio aos refugiados. Fugindo da sua terra natal, Van, o arménio otomano Panos Terlemezian atravessou as fronteiras imperiais até aqui chegar como refugiado. A resposta humanitária internacional ao genocídio arménio inspirou importantes estudos. Em contrapartida, uma vasta rede de artistas arménios da diáspora organizou uma resposta cultural: a União dos Artistas Arménios (UAA). Entre 1916 e 1921, a UAA organizou seis grandes exposições e outras mais pequenas, debateu o papel da arte na construção da nação na imprensa popular, e criou um embrionário mercado de arte. Este artigo defende que os fundadores da UAA, galvanizados pela violência genocida, materializaram uma instituição «semelhante a um Estado», hoje em grande parte esquecida, que pressagiou a formação da República da Arménia (1918-1920), tendo igualmente negociado um enquadramento para a venda de arte privada e pública, o qual conduziu ao desenvolvimento de um colecionismo comercial com vista à criação de um museu estatal.
Sato Moughalian – CUNY Graduate Center, New York

11:35 / Londres 1931: Trajetórias dos objetos persas de Calouste Gulbenkian

As exposições internacionais e os empréstimos de obras de arte especialmente selecionadas constituem frequentemente instrumentos de diplomacia cultural, estando estreitamente ligados a projetos ideologicamente motivados e patrocinados pelos Estados. Ao fomentarem perceções internacionais, estes eventos encontram-se profundamente enraizados na complexa teia de relações entre os diversos intervenientes, não só curadores, profissionais de museus, académicos e colecionadores, como também aqueles responsáveis pelo fornecimento dos objetos: os negociantes de arte. Ao pesquisar a trajetória dos empréstimos de Calouste Gulbenkian para a Segunda Exposição Internacional de Arte Persa, realizada em Londres, em 1931, esta apresentação pretende lançar luz sobre a rede de negociantes de arte persa que floresceu durante as primeiras três décadas do século XX. Esta rede, operada principalmente por pessoas de origem arménia e judaica, teve uma enorme influência no desenvolvimento do conhecimento de Gulbenkian relativamente ao que era então designado, de forma imprecisa e subtil, por «arte persa».
Yuka Kadoi – Universität Wien

12:00 / Debate

— Intervalo 90 min. —

Painel 4 – Arte, Benevolência e Filantropia: Reconstruir Redes

Moderação
Razmik Panossian – Serviço das Comunidades Arménias da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

14:00 / O tapete Hereke de Gulbenkian, exposições e a ampla rede de produção de tapetes arménios no império otomano

Esta comunicação propõe uma análise da produção de tapetes arménios no Império Otomano, com um foco especial na sua participação nas exposições universais e imperiais da época. Serão especificamente examinadas as redes de produção que os funcionários, comerciantes, designers e trabalhadores arménios criaram até ao final do Império Otomano. Estes diferentes intervenientes arménios contribuíram para a melhoria da qualidade e do design dos tapetes orientais, tanto em empresas estatais como privadas, esforçando-se por desenvolver o mercado internacional dos tapetes otomanos. Destaca-se o papel fundamental que os arménios desempenharam na expansão do mercado de tapetes otomano antes do genocídio, sem os quais este crescimento não teria sido possível.
Yaşar Tolga Cora – Boğaziçi University, Istanbul

14:25 / Culturas visuais de doação nos “pedidos de apoio” do arquivo de Calouste Gulbenkian

Os escritos existentes sobre Calouste Sarkis Gulbenkian sugerem que as doações caridosas do «Sr. Cinco Por Cento» estiveram sempre em sintonia com a sua abordagem aos negócios: com um foco ambicioso na consolidação e internacionalização e com uma relação meramente cínica com as preocupações dos seus compatriotas arménios na diáspora. As mais de cinquenta pastas na Biblioteca de Arte e Arquivos da Fundação Calouste Gulbenkian rotuladas como «Caridade» indicam o contrário. Entre o Genocídio Arménio, frequentemente descrito como o primeiro movimento humanitário internacional, e a criação da Fundação em 1956, Gulbenkian e a sua equipa responderam – ocasionalmente com desconfiança e frequentemente com cansaço, mas muitas vezes com compaixão – a milhares de apelos de ajuda caritativa de indivíduos, associações locais e organizações de ajuda supranacionais, dos quais muitos, mas não todos, beneficiaram o povo arménio. Este artigo analisa as fotografias e outros materiais visuais que acompanhavam ocasionalmente a correspondência, para refletir sobre as formas como os documentos da «Caridade» de Gulbenkian manifestam as várias culturas de dádiva – ou seja, a caridade cristã e a beneficência «amira», a ajuda humanitária e a filantropia altruísta com a sua burocracia inerente – que estiveram em jogo na resposta à violência do início do século XX e às suas consequências devastadoras.
Roxanne Goldberg – ETH Zürich

14:50 / Imagens de desespero e sofrimento: Revisitar uma exposição das pinturas de Sarkis Katchadourian sobre o genocídio arménio em Paris, 1923

Esta comunicação desenvolve-se em torno do conjunto de pinturas apresentadas numa exposição individual do pintor arménio otomano Sarkis Katchadourian (1886-1947), na rue Tronchet, em Paris, em 1923. Muitas destas obras foram adquiridas por colecionadores de arte abastados, incluindo Calouste Gulbenkian, e encontram-se atualmente em várias coleções privadas. Artista prolífico com um alcance verdadeiramente global, este arménio formado em Roma é hoje mais conhecido pelas suas alegres «reproduções» de murais iranianos e indianos, realizadas durante as décadas de 1930 e 1940. Esta apresentação centra-se no seu trabalho anterior e menos conhecido: o «período arménio», constituído por obras que surgiram da observação direta e do envolvimento do artista com sobreviventes do genocídio que procuraram refúgio na Transcaucásia em 1915 e 1916. Alvo de ampla circulação por toda a Europa e não só na década de 1920, através de exposições e publicações nas quais foram fortemente aclamadas, muitas das imagens criadas por Katchadourian durante esse período do pós-1915 são frequentemente lancinantes, captando as vidas e transmitindo o desespero destes refugiados no rescaldo do genocídio arménio.
Vazken Davidian – University of Oxford

15:15 Debate

— Intervalo 20 min. —

15:55 / Mesa-redonda – O Enigma da Proveniência: Novos caminhos e questões em aberto

Franziska Kabelitz, Heghnar Watenpaugh, Margaret Graves, Nathalie Neumann
Moderação
Nathalie Neumann – Johannes Gutenberg-Universität Mainz

16:25 / Encerramento


Ficha técnica

Organização

Jessica Hallett – Diretora-Adjunta, Museu Calouste Gulbenkian
Alyson Wharton-Durgaryan – Senior Lecturer, University of Lincoln
Vera Mariz – Conservadora de investigação, Museu Calouste Gulbenkian

Este evento é uma iniciativa conjunta do Museu Calouste Gulbenkian, do Serviço de Comunidades Arménias da Fundação Calouste Gulbenkian e da Lincoln University. A Biblioteca de Arte e os Arquivos Gulbenkian apoiaram a ampla investigação realizada para esta conferência durante dois workshops em 2024 e 2025.

Imagem

Comerciantes de tapetes, Tiblissi, c. 1900. Fotografia: Dmitri Yermakov.

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