Stuart. Centenário do Nascimento, 1887 – 1987

31.º Aniversário da Fundação Calouste Gulbenkian

Exposição individual retrospetiva de Stuart Carvalhais (1887-1961), cujo centenário de nascimento coincidia com o de Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918), celebrando-se ambos naquele ano. Na Gulbenkian, as comemorações das duas efemérides alongaram-se em exposições e eventos paralelos, que se iniciaram no dia do 31.º aniversário da Fundação.
Retrospective solo exhibition on Stuart Carvalhais (1887-1961) in celebration of the centenary of the artist’s birth, coinciding with the centenary of Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918). The commemorations held at the Gulbenkian for both events extended to parallel exhibitions and events starting on the Foundation’s 31st birthday.

A 20 de julho de 1987, no dia do seu 31.º aniversário, a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) inaugurou duas retrospetivas que assinalaram a coincidência de dois centenários: o do nascimento de Stuart Carvalhais (1887-1961) e o do nascimento de Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918). Mário Soares, então presidente da República Portuguesa, esteve presente no arranque dessas celebrações.

A Amadeo foi consignado o espaço da Galeria de Exposições Temporárias da Sede da FCG (piso 0), onde se expuseram mais de 250 peças, naquela que terá sido a primeira retrospetiva exaustiva da sua obra. Amadeo daria ainda o mote para exposição «10 Amad(e)ores. Desafio de Amadeo aos Artistas Contemporâneos», apresentada no piso 1 do Centro de Arte Moderna da FCG. Por sua vez, Stuart ocupou a mais exígua Sala de Exposições Temporárias do CAM, totalmente preenchida com uma mostra que propunha evidenciar a pluralidade do longo percurso do autor.

A Fundação Calouste Gulbenkian voltava assim a reunir num mesmo espaço e tempo dois protagonistas da mesmíssima geração e que, como tantos outros nessa época, partilharam uma mesma plataforma de partida: a ilustração e a caricatura. Contudo, a rápida bifurcação dos seus destinos artísticos é bem conhecida: Amadeo imiscui-se no epicentro da vanguarda artística em Paris, lançando-se numa obra fulminante que, hoje, pode ser confirmada como um dos casos mais peculiares do contexto alargado das vanguardas históricas europeias. Já Stuart permaneceria ligado ao desenho humorístico, à imprensa e ao cartaz publicitário – extensões mediáticas de uma cultura urbana portuguesa cuja face modernista ajudou a criar. Destaque para expressões como a banda desenhada e o cartoon, tal como hoje as conhecemos (atualizações da ilustração e da caricatura, de que foi, efetivamente, um coinventor no contexto internacional).

Reunindo um total de 315 peças, esta retrospetiva de Stuart no Centro de Arte Moderna (CAM) tentou homenagear as múltiplas vertentes da sua obra, desde a interessante pintura que (apesar de rarefeita) Stuart também realizou, à faceta de artista gráfico e comunicador assertivo que foi, ritmando o cosmopolitismo que o século XX, a espaços, introduzia em Lisboa. A exposição ia dos icónicos esquiços rápidos a cartões-matriz para cartazes e capas, passando também, claro, por imensos (embora longe de serem todos) desenhos originais e reproduções dos cartoons, ilustrações e tiras de BD com que Stuart, ao longo de cerca de meio século, animou as páginas de tantos periódicos. Neste campo, merecem natural destaque as famosas aventuras de Quim e Manecas (1915-1953), no suplemento humorístico de O Século – jornal de batismo de Stuart na imprensa, em 1906. Desde então, o autor percorreria com o seu traço quase todo o meio editorial lisboeta, tendo uma última estação no Diário de Notícias, onde ainda colaborava à entrada para os anos 60 – década que cedo assistiria à morte de Stuart e, como que por «ironia do destino», à revitalização pop dos terrenos artísticos em que ele sempre se moveu.

A exposição realçava igualmente o design gráfico e editorial como campos da atividade de Stuart. Incluiu cartazes e capas de livros e revistas de índole diversa – desde a Ilustração Portugueza dos anos 10 ao ABC dos anos 20, passando pelo Sempre Fixe dos anos 30, O Mosquito nos anos 40, o Picapau da década de 50, além das capas de obras literárias e partituras musicais. Dava-se ainda nota de alguns dos reclames publicitários e rótulos que Stuart concebera, bem como dos cenários e figurinos para espetáculos de teatro de revista.

O nome Stuart designa, assim, uma vida dedicada a formas artísticas que, mesmo após terem derrubado os preconceitos entre uma «alta» e uma «baixa» cultura, nem sempre beneficiaram de um reconhecimento prestigiante – nem por parte da história, nem tão-pouco da parte desses anos 20 e 30 em que a indústria das artes gráficas era ainda embrionária (com Stuart à proa, no caso português). Foi, no entanto, esse mesmo século XX que viu essas imagéticas tornarem-se formadoras do imaginário coletivo, e de uma memória vivencial à qual a história incessantemente recorrerá para construir as suas narrativas.

A presença de Stuart na cultura visual portuguesa é portanto enorme, e estará para lá de eventuais dívidas de consagração e estatuto. Pois talvez nunca haja propriamente um «panteão» para a ação direta que a sua obra (desde o singelo divertimento à crítica tenaz e, por vezes, necessariamente subversiva) foi exercendo sobre as mais variadas franjas de público (literalmente «dos 8 aos 80»).

Paralelamente à exposição, a vida e obra de Stuart seriam aprofundados num ciclo de mesas-redondas organizado pelo Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte da FCG (ACARTE). As três sessões tiveram lugar na Sala Polivalente do CAM a 21 de julho, 20 de agosto e 20 de setembro de 1987. António Valdemar, assíduo estudioso da obra de Stuart, estabeleceu estreita colaboração com a curadoria desta programação paralela. O então jornalista e crítico do Diário de Notícias tinha coordenado, pouco tempo antes, os inquéritos «Stuart: 25 anos depois» (Diário de Notícias, 1986), uma sondagem a vários artistas gráficos vivos, na senda de outras iniciativas que já promovera em torno deste autor.

António Valdemar integrara também o comissariado da exposição, a convite de José Sommer Ribeiro, então diretor do CAM. No entanto, abandonaria a equipa de trabalho a 10 de julho de 1987, após sucessivas crispações, recusando-se a publicar no catálogo o texto que redigira para o efeito. Publicá-lo-ia mais tarde no jornal Expresso, junto de uma resenha crítica à exposição da autoria de Paulo Pereira (Pereira, Expresso, 25 jul. 1987, pp. 54R-56R).

Na manhã de 20 de julho de 1987 (dia da inauguração da mostra), o Diário Popular publica declarações de António Valdemar divulgando a sua demarcação do projeto expositivo (Valdemar, Diário Popular, 20 jul. 1987, p. 43). Esse artigo desencadearia diversas ações noticiosas em torno do caso, e um clima de controvérsia. A 24 de julho de 1987, José Sommer Ribeiro reage às alegações, remetendo uma resposta oficial a vários jornais do país, apelando à lei de imprensa (Ribeiro, Diário Popular, 29 ago. 1987). Estavam assim reunidos os ingredientes para uma polémica que se alastraria publicamente até setembro de 1987. Vivesse ainda Stuart, e talvez nascesse um cartoon mordaz sobre esta celeuma, publicado na mesma imprensa que tanto a mediatizou.

Daniel Peres, 2018


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Estudo para Capa da Revista ABC

Stuart Carvalhais (1887-1961)

Estudo para Capa da Revista ABC, 1920 / Inv. DP1036

Estudo para Capa da Revista ABC

Stuart Carvalhais (1887-1961)

Estudo para Capa da Revista ABC, 1920 / Inv. DP1043

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1035

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1045

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1046

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1047

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1044

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1034

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1037

Estudo para Capa da Revista ABC

Stuart Carvalhais (1887-1961)

Estudo para Capa da Revista ABC, 1920 / Inv. DP1036

Estudo para Capa da Revista ABC

Stuart Carvalhais (1887-1961)

Estudo para Capa da Revista ABC, 1920 / Inv. DP1043

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1035

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1045

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1046

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1047

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1044

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1034

s/título

Stuart Carvalhais (1887-1961)

s/título, Inv. DP1037


Eventos Paralelos

Colóquio

Stuart. Centenário do Nascimento, 1887 – 1987

21 jul 1987 – 20 set 1987
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna – Sala Polivalente
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Mário Soares (à esq.), António Reis, José de Azeredo Perdigão, Madalena de Azeredo Perdigão (à dir.)
Madalena de Azeredo Perdigão, José de Azeredo Perdigão (à esq.), Mário Soares (ao centro) e Maria Barroso (à dir.)
Madalena de Azeredo Perdigão e José de Azeredo Perdigão (à dir.)
Maria Barroso (à dir.)
Mário Soares (à dir.)
Mário Soares (à esq.), José de Azeredo Perdigão (ao centro) e Madalena de Azeredo Perdigão (à dir.)
Mário Soares (à esq.) e José Sommer Ribeiro (à dir.)
José Sommer Ribeiro (à dir.)
Maria Barroso (ao centro)
Roberto Gulbenkian (ao centro)
Mário Soares (à dir.)
Mário Soares
Mário Soares (à esq.)
Mário Soares (à esq.)
Roberto Gulbenkian (à esq.)
Mário Soares (à esq.)
Mário Soares (à esq.)
Madalena de Azeredo Perdigão (à dir.)
Madalena de Azeredo Perdigão (à dir.)
José Blanco (à esq.) e Mário Soares (à dir.)
José Blanco (à esq.) e Mário Soares (à dir.)
Maria Barroso (à esq.), José de Azeredo Perdigão (ao centro) e Madalena de Azeredo Perdigão (à dir.)

Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Biblioteca de Arte Gulbenkian, Lisboa / Dossiê BA/FCG

Coleção de dossiês com recortes de imprensa de eventos realizados nas décadas de 80 e 90 do século XX, organizados de forma temática e cronológica. 1984 – 1997

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00151

Pasta com documentação referente à produção da retrospetiva da obra de Stuart na FCG, comemorando o centenário do seu nascimento. Contém convites, orçamentos, correspondência interna e externa e recortes de imprensa. 1987 – 1989

Arquivos Gulbenkian (ACARTE), Lisboa / ACARTE 00119

Pasta com documentação referente à programação do Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (ACARTE) durante o ano de 1987. Dela constam as mesas-redondas organizadas por ocasião da exposição comemorativa do centenário do nascimento de Stuart Carvalhais. 1987 – 1989

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM-S005/01/01-P0040-D02500

Coleção fotográfica, p.b., cor: aspetos (FCG-CAM, Lisboa) 1989 – 1989

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM-S005/01/01-P0040-D02499

Coleção fotográfica, cor: inauguração (FCG-CAM, Lisboa) 1987

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Comunicação), Lisboa / COM-S001/004-D00482

Coleção fotográfica, cor: inauguração (FCG-CAM, Lisboa) 1987


Exposições Relacionadas

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1989 / Sede Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

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