Maria de Lourdes de Mello e Castro

Exposição individual de Maria de Lourdes de Mello e Castro (1903-1996), última discípula do pintor José Malhoa (1855-1933). De caráter retrospetivo, apresentou uma obra de continuidade com o naturalismo oitocentista, no embate com a cultura do século XX. De Lisboa, a mostra viajou para o Museu de José Malhoa, nas Caldas da Rainha.
Solo exhibition of Maria de Lourdes de Mello e Castro (1903-1996), the last pupil of painter José Malhoa (1855-1933). The retrospective presented work which continued the eighteenth-century naturalist tradition, in a confrontation with twentieth-century culture. The show travelled from Lisbon to the José Malhoa Museum in Caldas da Rainha.

A obra de Maria de Lourdes de Mello e Castro (1903-1903) insere-se na tradição tardia do naturalismo português, enraizada no último quartel do século XIX. De forte implantação em Portugal, essa escola foi transposta para o século XX pela longevidade de muitos dos seus protagonistas, entre os quais José Malhoa (1855-1933), de quem esta artista terá sido a última discípula (Carta de Luís Alvelos para José de Azeredo Perdigão, 4 abr. 1989, Arquivos Gulbenkian, SEM 00423).

O retrato, a paisagem, a natureza-morta e, especialmente, a pintura de género e de costumes predefinem-se como as temáticas exploradas por Mello e Castro ao longo dos sessenta anos de atividade que esta retrospetiva na Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) contemplou. Em fase alguma da sua carreira parece haver compromissos com as estéticas das vanguardas históricas do século XX, nem tão-pouco com os modernismos oficiais que o Estado Novo promoveu nas décadas de 1930 e 1940 – anos de forte atividade pictórica da autora.

Como acontecera com o trabalho de muitos autores nas mesmas circunstâncias geracionais e socioeconómicas, a pintura de Mello e Castro percorre a vida burguesa e aristocrática, sempre com um tratamento declaradamente bucólico e conservador, radicado nos valores artísticos do século XIX. A contaminação pelo cosmopolitismo do século XX – o século a que pertence – sente-se em alusões pontuais no vestuário das personagens e noutros artefactos representados, que, justamente por serem trabalhados com nostalgia e passadismo estético, tornam a imagética de muitas das cenas de Mello e Castro uma curiosa síntese de anacronismos – síntese talvez menos acidental do que possa parecer e que assume uma forte dimensão diacrónica.

A sua exposição na Fundação Calouste Gulbenkian surge por iniciativa de Luís Alvelos, seu filho. Data de 4 de abril de 1984 uma primeira carta endereçada a José de Azeredo Perdigão (presidente da FCG), propondo a realização da mostra por forma a dar a ver a globalidade do corpo de trabalho da pintora. Isso era algo que só tinha sido possível fazer muito recentemente nos Paços do Concelho da cidade de Tomar, de onde a pintora é natural. Após essa cooperação com a Câmara Municipal de Tomar, reforçou-se a vontade de realizar um projeto semelhante em Lisboa, encetando-se contactos com o Ministério da Cultura e a FCG.

O presidente da FCG encaminharia a proposta para Sommer Ribeiro, que, por constrangimentos de calendário, só conseguiria dar andamento ao projeto a partir de 1988. A 27 de outubro, é retomado o contacto com Luís Alvelos, iniciando-se a produção da mostra. Estabelece-se a data de inauguração para 29 de março de 1989 e a sua duração até 17 de abril, na Galeria de Exposições Temporárias da Sede da FCG (piso 01). Maria Barroso, primeira-dama de Portugal, esteve presente na inauguração, na companhia da pintora, de José Sommer Ribeiro e de José de Azeredo Perdigão.

Através de solicitações enviadas a um vasto número de colecionadores institucionais e particulares, terão sido reunidas 136 peças da autora, na sua maioria pinturas a óleo, figurando também 12 desenhos a pastel, seis a carvão e um a tinta-da-china. Um retrato a pastel da autoria de José Malhoa, representando a pintora, também foi incluído (Maria de Lourdes de Mello e Castro, 1989).

De Lisboa, a mostra seguiria para o Museu de José Malhoa, nas Caldas da Rainha, por sugestão da diretora desse espaço. Inauguraria a 28 de abril de 1989, o exato dia da celebração 55.º aniversário daquela instituição.

A cobertura da imprensa foi vasta e, como seria de esperar, nem sempre acolheu bem uma obra que acompanhou cerca de setenta anos do século XX voluntariamente desligada das linguagens vanguardistas. Hoje, porém, há espaço para reler o inegável passadismo de Mello e Castro, dando-lhe uma valia própria, e para analisar historicamente esse outro lado da produção artística que, alheado do legado dos modernismos, também faz parte da produção artística de Portugal ou de qualquer outro país. É que, na história da arte do século XX, essas expressões contrabalançam a importância transformadora dos modernismos com sintomas intimamente ligados à própria sociologia do gosto e à sua compartimentação nos valores culturais dominantes.

Daniel Peres, 2018


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Eventos Paralelos

Visita(s) guiada(s)

[Maria de Lourdes de Mello e Castro]

12 abr 1989
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede – Galeria de Exposições Temporárias (piso 01)
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

José de Azeredo Perdigão (à esq.) e a artista Maria de Lourdes Mello e Castro (à dir.)
José Sommer Ribeiro (à esq.) Maria Barroso e Maria de Lourdes Mello e Castro (ao centro) e José de Azeredo Perdigão (à dir.)
Maria de Lourdes Mello e Castro

Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Biblioteca de Arte Gulbenkian, Lisboa / Dossiê BA/FCG

Coleção de dossiês com recortes de imprensa de eventos realizados nas décadas de 80 e 90 do século XX, organizados de forma temática e cronológica. 1984 – 1997

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM 00423

Pasta com documentação referente à produção da retrospetiva da obra de Maria de Lourdes Mello e Castro na FCG e da sua respetiva itinerância para o Museu de José Malhoa nas Caldas da Rainha. 1990 – 1990

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0256-D00811

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 1989

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0256-D00810

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 1989

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0256-D00812

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 1989

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Comunicação), Lisboa / COM-S001/019-D02223

Coleção fotográfica, cor: inauguração (FCG, Lisboa) 1989


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