Pintores da Escola do Porto, Séc. XIX e XX, nas Colecções do Museu Nacional de Soares dos Reis
1983
150.º Aniversário do Museu Nacional de Soares dos Reis
Exposição concebida no âmbito dos objetivos definidos pela Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) no campo do intercâmbio cultural com os museus portugueses, entre os quais o Museu Nacional de Soares dos Reis (MNSR), no Porto. A exposição realizou-se a convite da FCG, por ocasião da celebração dos 150 anos daquele museu.
No catálogo da exposição, seria apresentada uma cronologia das várias ações de intercâmbio promovidas pela FCG com os museus portugueses, cujos primeiros passos remontavam a 1961, aquando da parceria com o Museu Nacional de Arte Antiga para a exposição «Pinturas da Colecção da Fundação Calouste Gulbenkian».
A seleção das 70 obras apresentadas nesta exposição de 1983 foi assumida pela então diretora do MNSR, Maria Emília Amaral Teixeira, que esclareceria que as escolhas procuravam corresponder aos pintores portuenses mais representativos da época, expostos por ordem cronológica, independentemente de filiações artísticas e movimentos estéticos, embora com evidente destaque para a corrente naturalista.
Esteve inicialmente previsto que a exposição se subordinasse exclusivamente ao tema da paisagem; todavia, por decisão conjunta das duas instituições envolvidas, esta ideia foi abandonada a favor de uma conceção menos restritiva, como se lê num ofício interno redigido pela diretora-adjunta do Serviço de Museu, Maria Helena Soares Costa, dirigida ao presidente da FCG: «Incidir na paisagem seria […] restringir a representação que se quereria mais completa dos pintores naturalistas mais notáveis da Escola do Porto […]. Fazer coincidir esta exposição com a inauguração do Centro de Arte Moderna afigura-se-nos uma oportunidade de grande significado, já que permitia estabelecer a ligação entre os pintores do naturalismo do séc. XIX e os que na passagem do século ou no séc. XX o prolongaram, sem esquecer outros, abertos já às correntes estéticas do séc. XX.» (Apontamento do Serviço de Museu, 30 jun. 1983, Arquivos Gulbenkian, MCG 03068)
Coincidindo com a abertura do Centro de Arte Moderna (CAM) da FCG, cuja coleção proponha fixar os seus limites cronológicos entre 1911 e a contemporaneidade, esta mostra destacava alguns aspetos da pintura naturalista e contextualizava a pintura portuguesa, procurando apontar as direções que esta percorrera desde os finais do século XIX até chegar às práticas artísticas das várias gerações de modernistas portugueses a que a coleção moderna da FCG procurava dar representatividade. A diretora do Serviço do Museu Gulbenkian, Maria Teresa Gomes Ferreira, entendia também que este pequeno núcleo de obras do MNSR poderia ser «facilitador da leitura da Colecção de Pintura Portuguesa» do CAM (Pintores da Escola do Porto Séc. XIX e XX…, 1983). Maria Teresa Gomes Ferreira chamaria ainda a atenção para o diálogo que se poderia estabelecer entre as referências da pintura francesa patentes na coleção do Museu Calouste Gulbenkian e as obras dos artistas da Escola do Porto no acervo do MNSR, largamente influenciadas por aquele «grupo de paisagista dos meados do século XIX» e cuja relação já havia sido posta em evidência, nomeadamente, na apresentação, em 1964, da exposição «Artes Plásticas Francesas. De Watteau a Renoir», no MNSR (Ibid.).
Entre os 24 pintores portuenses representados, destacavam-se Sousa Pinto (1856-1939), Silva Porto (1850-1893), Artur Loureiro (1853-1932), Marques de Oliveira (1853-1927), Henrique Pousão (1859-1884), mas também artistas atentos às novas correntes estéticas, como Dordio Gomes (1890-1976), Armando Basto (1889-1923) ou Dominguez Alvarez (1906-1942).
Os artistas mais representados foram Henrique Pousão, com treze pinturas, entre as quais a emblemática obra Casas Brancas de Capri; Silva Porto, com um total de dez óleos; e Marques de Oliveira, com nove obras.
Relativamente à representatividade das gerações de modernistas da Escola do Porto, a diretora do Museu Calouste Gulbenkian considerou «desajustada» a sua inclusão nesta exposição, pela diversidade de práticas e de artistas formados na escola nortenha, embora reconhecendo que era «obrigação» lembrá-los igualmente (Ibid.).
Talvez por ter coincidido com a tão aguardada inauguração do Centro de Arte Moderna, não se registou uma afluência significativa de público nesta exposição (que totalizaria apenas 12 760 visitantes), sobretudo tendo em conta que, para o público da cidade de Lisboa, se tratava de uma oportunidade única de conhecer o acervo de um dos principais museus nacionais. Aparentemente, o público deu preferência à coleção moderna do CAM, que veio satisfazer uma necessidade de contacto direto com os valores modernos da arte portuguesa, através de uma coleção de vocação pública, há muito reclamada.
No ano seguinte, em 1984, a exposição acabaria por ter uma itinerância pelas Caldas da Rainha, sendo apresentada no Museu José Malhoa.
Filipa Coimbra, 2017