Porcelana Europeia. Reservas do Palácio Nacional da Ajuda
1987
O Museu Calouste Gulbenkian (MCG) associou-se ao Palácio Nacional da Ajuda (PNA) para trazer a público uma parte significativa da coleção de porcelana europeia, até então mantida nas reservas do PNA. Num documento dirigido a José de Azeredo Perdigão, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, a diretora do MCG, Maria Teresa Gomes Ferreira, explica: «A Directora do Palácio da Ajuda, por não ter local no próprio Palácio nem dispor de facilidades financeiras que lhe permitam tal realização, muito desejaria a colaboração da Fundação Calouste Gulbenkian, a fim de patentear na nossa Galeria, parte do recheio das suas reservas.» (Apontamento do Serviço de Museu, 13 fev. 1987, Arquivos Gulbenkian, MCG 03265)
Assim, a Fundação Calouste Gulbenkian acordou apoiar o transporte, montagem, produção do catálogo e organização de atividades educativas; enquanto o então Instituto Português do Património Cultural, atual Direção-Geral do Património Cultural, assumiu o seguro das peças.
Ao receber esta mostra, o Museu Gulbenkian estabelecia uma nova linha programática: exposições de coleções nacionais ou internacionais. Depois das coleções de ourivesaria do Museo de Arte Hispanoamericano Isaac Fernández Blanco e de porcelana europeia do Palácio Nacional da Ajuda, seria ainda apresentada neste espaço, em 1988, a coleção de ourivesaria e cerâmica do Museo del Oro do Banco da República da Colômbia. A versatilidade do projeto museográfico de Vítor Manaças permitiu mostrar, com ligeiras adaptações, estas coleções de natureza tão distinta. Em todos os casos, Manaças conseguiu alcançar um equilíbrio entre experiência estética e interpretação histórica.
Esta exposição abria com o mapa da Europa, no qual estavam indicadas as localizações das diferentes fábricas de porcelana dos séculos XVIII e XIX, de onde provinham as quatro centenas de peças expostas. Agrupadas segundo a manufatura (Meissen, Pirkenhammer, Vincennes-Sèvres, Limoges-Haviland & Co., Vista Alegre, entre outras), as peças foram dispostas em vitrinas ao longo da sala. O critério de seleção foi, como explica Isabel da Silveira Godinho, diretora do Palácio Nacional da Ajuda, «o de dar uma panorâmica o mais variada possível das colecções existentes, […] mostrando ao público três serviços de jantar com um enorme número de objetos, que ilustram na sua variedade o critério da “quantidade”» (Porcelana Europeia: Reservas do Palácio Nacional da Ajuda, p. 10).
A museografia, aliada à profusão de peças, parecia procurar criar a ambiência de uma Wunderkammer. Para tal contribuía a tonalidade azul-escura escolhida para as paredes, a iluminação dramática e o desenho do espaço. Aos serviços de jantar, que ocupavam grande parte de um dos espaços, juntavam-se outros objetos decorativos (estatuetas de figuras humanas e animais, jarras, molduras, candelabros, relógios), expostos em vitrinas de menores dimensões e com configurações diferentes, triangulares ou quadrangulares. Estes estendiam-se a um segundo espaço, ocupado por vitrinas de pequeno e médio formato, dispostas de forma intercalada.
Os serviços de jantar eram acompanhados por alguns textos de sala relativos aos hábitos alimentares, refeições e banquetes da família real e ao modo como estes eram servidos. Numa pequena vitrina, foram ainda incluídos documentos que demonstravam a variedade de fornecedores da Casa Real. Segundo Isabel da Silveira Godinho, «a escolha destes documentos foi feita no sentido de completar a informação dada pelas próprias peças e pelas respetivas tabelas, embora também sejam muito interessantes do ponto de vista histórico e estético» (Porcelana Europeia. Reservas do Palácio Nacional da Ajuda, p. 11).
Com esta exposição, as comissárias procuraram dar a conhecer os desenvolvimentos técnico e artístico da porcelana europeia, bem como do gosto da monarquia portuguesa ao longo de quase dois séculos de história.
Tendo-se registado uma elevada afluência de público (13 998 visitantes até 28 de fevereiro), esta exposição foi prolongada por mais dois meses, durante os quais foi visitada por mais 6530 pessoas (Arquivos Gulbenkian, MCG 03075).
Mariana Roquette Teixeira, 2018