Nevarte Essayan. Memórias na Coleção Gulbenkian

A partir de obras da Coleção do Fundador e de documentos do Arquivo Gulbenkian, a exposição traçou um retrato íntimo de Nevarte Essayan Gulbenkian, figura habitualmente menos visível na narrativa em torno de Calouste Gulbenkian. Um percurso entre memórias pessoais, sociabilidade e gosto, que devolveu protagonismo à mulher que acompanhou o Fundador ao longo de seis décadas.

Entre 29 de novembro de 2024 e 30 de março de 2025, por ocasião da celebração dos 150 anos do nascimento de Nevarte Adèle Essayan Gulbenkian (1875–1952), o Museu Calouste Gulbenkian apresentou a exposição «Nevarte Essayan. Memórias na Coleção Gulbenkian», com curadoria de Vera Mariz, conservadora de investigação do museu.

Instalada na Galeria do Renascimento, a mostra reuniu, maioritariamente em vitrines, um conjunto de obras de diferentes épocas e geografias que, apesar de integrarem a Coleção do Fundador, não costumam constar da montagem permanente do museu. Foram também apresentados documentos do Arquivo Gulbenkian, habitualmente ausentes do circuito expositivo. Tratou-se, assim, de uma oportunidade para dar a conhecer um conjunto de cerca de trinta peças provenientes de diferentes acervos da instituição.

O principal objetivo de «Nevarte Essayan. Memórias na Coleção Gulbenkian» foi, contudo, contribuir para um conhecimento mais consistente e abrangente sobre a mulher com quem Calouste Sarkis Gulbenkian casou, em Londres, no Hotel Metropole, em 1892. Ao longo de seis décadas, a “Madame 5%”, que viria a morrer em 1952 — três anos antes do marido — acompanhou “o homem mais rico do mundo” não apenas na vida privada, mas também no contexto da constituição da extraordinária coleção de arte reunida por Calouste Gulbenkian.

Dividida em seis núcleos temáticos, a exposição reunia maioritariamente obras que integraram os aposentos privados de Nevarte. Escolhidas pela própria, e refletindo o seu gosto pessoal, estas peças permitem entrever, ainda que indiretamente, aspetos da sua identidade, sensibilidades e percurso de vida. Sabe-se que integraram alternadamente a decoração do n.º 38 de Hyde Park Gardens, em Londres, adquirido por Calouste Gulbenkian em 1899, e do n.º 51 da Avenue d’Iéna, em Paris, comprado em 1922, ambas residências concebidas para acolher o núcleo central da família, constituído pelo casal e pelos seus dois filhos, Nubar e Rita.

O palacete parisiense foi alvo de profundas obras de remodelação para acolher igualmente parte da coleção de arte reunida pelo Fundador. Em Lisboa, onde o casal se instalou em 1942, Nevarte dividiu o seu tempo entre o extinto Hotel Aviz e o Hotel Palácio, no Estoril, antes de regressar a Paris, em 1946.

«Nova Rosa em Flor», «Meu Querido Calouste», «Sempre Elegante», «Genial, mas um Elefante Branco», «A Alma da Festa» e «Vinte Mil Léguas por Terra e Mar» foram os seis núcleos definidos para organizar o percurso expositivo, reunindo cerca de 25 obras e documentos particularmente associados à vida e ao universo pessoal de Nevarte Gulbenkian.

Entre os objetos apresentados encontravam-se antigas estatuetas egípcias — funerárias e representações de divindades como Harpócrates e Osíris —, o broche Mulheres e Serpentes, de René Lalique (c. 1901), duas gravuras de Francesco Bartolozzi pertencentes à série Meses do Ano, segundo William Hamilton (c. 1798), o busto Cabeça de Cigana, de Jean-Antonin Injalbert (c. 1901), três zarf (suportes para taças de café, Irão, século XIX), uma caixa para batom da casa Boucheron (França, c. 1920) e o toucador de Nevarte na residência parisiense, concebido em estilo Art Déco por Edgar Brandt, em 1927.

Gulbenkian, que reconhecera o talento de Edgar Brandt aquando da Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes (1925), encomendou-lhe igualmente diversos elementos decorativos em ferro para a residência da Avenue d’Iéna, incluindo portas de elevador, guardas de janelas, portas interiores, a porta de entrada e as balaustradas das escadarias.

Do Arquivo Gulbenkian vieram várias fotografias de Nevarte em diferentes fases da sua vida, um postal enviado ao marido a partir do Mónaco, o seu passaporte diplomático — enquanto cônjuge do Conselheiro Comercial da Embaixada do Irão em Paris (1950) — e uma fotografia de família, entre outros documentos.

Era tradição entre famílias arménias abastadas, de fé católica, casarem entre os seus pares, e os Gulbenkian e os Essayan, que se conheciam de longa data, não foram exceção. A união entre ambas as famílias, formalizada com o casamento de Calouste e Nevarte, seria reforçada na geração seguinte com o matrimónio entre Rita Gulbenkian e Kevork Essayan, primos entre si e pais de Mikhael Essayan, único neto de Calouste Gulbenkian.

Face às perseguições à comunidade arménia, que se intensificaram nas décadas que antecederam o genocídio de 1915 e a queda do Império Otomano, ambas as famílias foram empurradas para a diáspora. O casal Gulbenkian, quatro anos após o casamento, abandonou Istambul, cidade natal de ambos, fixando-se em Londres.

O primeiro pedido da mão de Nevarte em casamento foi recusado pelo pai, Ohannes Essayan, com o argumento da juventude da filha, então com 14 anos. Foram necessários mais dois anos para que Calouste Gulbenkian consolidasse o seu percurso profissional e obtivesse o consentimento familiar, tendo sido exibidos na exposição tanto o convite de casamento como uma fotografia do enlace.

Segundo o pai da jovem, «com a sua inteligência, o seu tato, o seu bom senso e a sua energia, ela teria sido um sucesso nos negócios», lamentando apenas o facto de ter nascido mulher. Apesar dos constrangimentos da época, Nevarte teve acesso a uma educação invulgarmente privilegiada para o seu contexto e género: estudou em casa francês, inglês, arménio — partilhando, na juventude, o mesmo preceptor de Calouste Gulbenkian — e disciplinas científicas, como astronomia, paralelamente à aprendizagem de saberes mais convencionais. A exposição incluía, aliás, uma carteira para fotografia bordada pela própria e oferecida ao marido.

A exposição sublinhava o papel determinante de Nevarte na afirmação social dos Gulbenkian e no complemento das características pessoais do marido, com impacto nas diferentes esferas da sua vida social. Calouste Gulbenkian surgia como uma figura profundamente discreta, introvertida, de relações pessoais restritas e pouco dada ao convívio social; Nevarte, pelo contrário, era apresentada como sociável, expansiva e dotada de uma notável capacidade de hospitalidade e relação.

Frequentemente evocada como a «alma da festa», apreciava a convivialidade, organizava receções, cultivava sentido de humor, audácia e uma evidente joie de vivre. Cosmopolita e elegante, acompanhava as tendências da moda, assistia a óperas, peças de teatro e concertos — apreciando particularmente Franz Lehár e Verdi — e viajava com frequência, privilegiando no inverno estâncias balneares e termais como Nice, Évian ou Baden-Baden.

Rendeu-se às linguagens visuais da Belle Époque, da Art Nouveau e da Art Déco e, apesar de não dispor de autonomia financeira plena, adquiriu diretamente peças de René Lalique e da casa Boucheron.

As rosas eram as flores prediletas de Calouste Gulbenkian, e o vasto jardim que mandou construir em Deauville, entre 1937 e 1946, figurava entre os seus lugares preferidos. Quando Nevarte morreu, em 1952, e por ocasião das cerimónias fúnebres realizadas na igreja arménia de Paris, Gulbenkian ordenou o corte de todas as rosas vermelhas da propriedade para com elas cobrir o corpo da companheira.

Em arménio, o nome Nevarte significa “nova rosa”, e este último gesto de homenagem sugere a profundidade da relação entre ambos. Numa carta dirigida ao filho, em 1948, Nevarte escrevera: «não há, no mundo, um marido que ame tanto a sua mulher como o seu pai me ama», citação que integrou igualmente a exposição.

Dada a dimensão reduzida da mostra, não foi publicado catálogo. A documentação curatorial resumiu-se aos textos apresentados no espaço expositivo — painéis, legendas e tabelas, com design gráfico do estúdio Overshoot Design — e aos conteúdos disponibilizados na página web do Museu Calouste Gulbenkian. Nesta plataforma, para além do texto principal, podiam ainda consultar-se pequenos textos temáticos redigidos pela curadora, correspondentes aos seis núcleos da exposição.

A programação paralela traduziu-se em duas visitas orientadas à exposição, concebidas e conduzidas por Vera Mariz. Dirigidas ao público em geral e intituladas «Nevarte Essayan: além de Calouste Gulbenkian», realizaram-se nos dias 30 de novembro e 15 de março.

A exposição contou com uma cobertura mediática assinalável na imprensa nacional, ainda que proporcional à sua escala mais contida. Tratando-se de uma mostra de pequena dimensão, integrada no percurso expositivo do museu, a sua presença mediática assumiu naturalmente um carácter mais discreto, com a divulgação a ocorrer sobretudo através dos canais institucionais da Fundação Calouste Gulbenkian, nomeadamente a página oficial da exposição no website do museu e as respetivas redes sociais.

No contexto da imprensa e das plataformas digitais, a exposição foi referida em meios de divulgação cultural como a Agenda Cultural de Lisboa e o portal Arte Informado, que reproduziram a informação disponibilizada pela Fundação. Registaram-se igualmente referências pontuais em publicações pessoais de visitantes nas redes sociais, com partilha de impressões e registos da visita.

O relatório interno Museu, CAM e Exposições. Evolução dos Principais Indicadores Operacionais (2025) não inclui referência individualizada à exposição, o que poderá justificar-se pela sua integração no percurso expositivo do Museu Calouste Gulbenkian e pela consequente dificuldade em apurar autonomamente o respetivo número de visitantes.

Cristina Campos, 2025


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Inv. 2654I

Inv. 2654J

Chauabti

Anónimo

Chauabti, Desconhecida. / Inv. 1049

Chauabti

Anónimo

Chauabti, Desconhecida / Inv. 1048

Estatueta do deus Osíris

Anónimo

Estatueta do deus Osíris, Desconhecida / Inv. 1050

Harpócrates

Anónimo

Harpócrates, Desconhecida / Inv. 1047

Desconhecido

Inv. 728

Desconhecido

Inv. 730

Desconhecido

Inv. 738A/B/C

Desconhecido

Inv. 2712

Almofada de veludo

Desconhecido

Almofada de veludo, Inv. 2236

Painel para Calças

Desconhecido

Painel para Calças, Inv. 1396C

Painel para Calças

Desconhecido

Painel para Calças, Inv. 1396D

Retrato de senhora

Desconhecido

Retrato de senhora, Inv. 754

Os Meses do Ano

Francesco Bartolozzi (1725/27-1815)

Os Meses do Ano, Inv. 1926A-L

Cabeça de Cigana

Jean-Antonin Injalbert (1845-1933)

Cabeça de Cigana, Séc. XIX / Inv. 1718

Venus e Cupido - Venus jouant avec l'Amour

Louis-Marin Bonnet (1736-1793)

Venus e Cupido - Venus jouant avec l'Amour, Gravada em 1767 (?) / Inv. 1923

Figuras e serpentes

René Lalique

Figuras e serpentes, c. 1899 - 1901 / Inv. 1156

Galo

René Lalique

Galo, c. 1901 / Inv. 1282

Cesto de asa

Cesto de asa, Inv. 1288


Eventos Paralelos


Material Gráfico


Fotografias


Documentação


Periódicos


Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa

Conjunto de documentos referentes à exposição. Contém materiais gráficos, fotográficos, entre outros. 2024


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