Cruz-Filipe. Modo de Ver

A iniciativa marcou o regresso de Cruz-Filipe às exposições individuais na Fundação Calouste Gulbenkian. Ao integrar seis décadas de produção artística e dez pinturas inéditas, contribuiu para reafirmar o seu estatuto de figura incontornável no panorama artístico português.

A exposição «Cruz-Filipe. Modo de Ver» pôde ser visitada gratuitamente, entre 23 de fevereiro e 15 de abril de 2024, na Galeria do Piso Inferior da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG). Integrando um total de 57 pinturas, da autoria de Ricardo da Cruz-Filipe (1934, Lisboa), a mostra traduziu-se numa retrospetiva do seu trabalho, cobrindo um arco cronológico de seis décadas: de 1970 a 2020.

«Modo de Ver», que também possibilitou a fruição de dez pinturas inéditas de Cruz-Filipe (realizadas a partir de 2013), teve curadoria de Ana Vasconcelos (Centro de Arte Moderna, CAM), desenvolvida em estreita colaboração com o próprio artista. Foi do pintor, por exemplo, a decisão de dispor as obras de acordo com a data da sua execução, seguindo um critério de progressão cronológica. No geral, a montagem da exposição privilegiou uma museografia tradicional, permitindo às obras “respirar". A mostra acabou por marcar, dezassete anos depois, o regresso do pintor às exposições individuais na FCG, cujo início remonta a 1986, no CAM.

Recorde-se que, atualmente, a Coleção do CAM Gulbenkian conta no seu acervo com vinte e duas obras de Cruz-Filipe, doze doadas pelo próprio, em 2017. Do total, treze integraram a exposição, sendo as restantes provenientes das principais coleções portuguesas de natureza institucional: Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, Caixa Geral de Depósitos, Fundação EDP, Millennium BCP e Banco BPI. A mostra contou ainda com pinturas da coleção pessoal do artista e de coleções privadas.

Para além das especificidades enunciadas, a proposta diferenciou-se de todos os projetos expositivos a solo de Cruz-Filipe, por oferecer pela primeira vez ao público, a possibilidade de fruir, em simultâneo, de obras inseridas naqueles que foram identificados – de acordo com diferentes especialistas – como os dois grandes ciclos da sua prolífera obra visual: o primeiro, corresponde à fase em que a sua marca autoral se consolidou (1968/69), enquanto o segundo, se desenvolveu a partir de 2004 em diante.


Nas obras de Cruz-Filipe, que cruzam pintura e fotografia, o tempo parece congelado por instantes. Nelas adivinham-se uma certa melancolia por tempos idos, ao mesmo tempo inquietante e apaziguadora. Parecem tratar-se de segmentos de um tempo indefinido, volátil e sísmico, que sugere estar prestes a desmoronar-se. Carregadas de mistério e poesia, confrontam o espectador com uma solidão que o incita à reflexão. As suas criações, povoadas de camadas e signos distintos, cativam, fixam e confundem o olhar. Citando Raquel Henriques da Silva, no catálogo da exposição: «(...) um dos traços definidores da sua poética: o que vemos transporta lastros de passado, vivido ou expectante, e são eles que alimentam a inquietação do presente.» (p. 15)

O conjunto das criações do artista, que completou 90 anos aquando da inauguração da exposição, revela uma panóplia diversificada de interesses e inspirações, sustentados por uma profunda erudição em constante atualização. Abrangendo múltiplas áreas, como o cinema, a música (sobretudo ópera) e a literatura, torna-se mais evidente, no contexto do primeiro ciclo da sua produção, a ligação à história da pintura ocidental. Cruz-Filipe, cativado, em especial, pela produção pictórica italiana e flamenga, dos séculos XVI e XVII (salientando-se o fascínio pela dramaticidade e exuberância do Barroco), revela frequentes apropriações de fragmentos de imagens originalmente concebidas nesse médium e nesse contexto espaciotemporal.

A título de exemplo, em Intervalle du temps, de 1982 (incorporada na Coleção do CAM, em 2017), é notória a citação da pintura de Johannes Vermeer, Senhora a escrever uma carta com a sua criada (cc. 1670-71), da qual Cruz-Filipe parcialmente se apropria. O Auto-retrato quando jovem, executado em 1634 por Rembrandt van Rijn, por sua vez, é também parcialmente incorporado numa obra realizada por Cruz-Filipe, em 1990: Portrait (6) Duplo olhar. Podemos ainda destacar a admiração pelas naturezas-mortas (com instrumentos musicais) assinadas por Evaristo Baschenis, no decorrer do século XVII, que se manifesta em Questions du réel (concluída em 1976). Fragmentos de pinturas de Henry Fountain-Latour, Francisco de Goya ou Ticiano, são igualmente integrados por Cruz-Filipe, atestando a admiração do artista pelas suas composições.

Perante estas constatações faz sentido citar Bernardo Pinto de Almeida, no no catálogo da exposição: «Os quadros de Cruz-Filipe configuram-se quais pequenas caixas de joias onde parecem acolher-se os mais preciosos testemunhos de múltiplos tempos e lugares sob a sumptuosa e rica luz da sedução e do brilho, de sedas e metais, veludos e madeiras, artefatos que contam um tempo gravemente quieto e que, como tal, parecem constituir-se, cada um a seu modo, como pequenos museus, já que neles coabitam, sem aparente conflito ou oposição, elementos trazidos de múltiplas épocas e culturas, de estilos e de modelos diversos» (p. 33).

Durante a primeira fase da sua obra, a apropriação, junção e sobreposição de imagens previamente existentes, provenientes quer do universo da pintura quer da fotografia, sendo ou não autorais, mantiveram-se uma constante no contexto das suas produções de matriz figurativa, reprodutiva e construtivista. Heranças da pop art e do surrealismo são suscetíveis de serem identificadas. O processo criativo iniciava-se com a realização de impressões serigráficas em telas fotossensibilizadas (de trama larga), precisamente de fragmentos deslocados das imagens repescadas, sobre as quais aplicava primeiro óleo e acrílico e, depois, exclusivamente acrílico, assinando composições que recontextualizam e expandem esses mesmos fragmentos.

 

Convém recordar que tudo isto aconteceu quando os dispositivos tecnológicos e digitais que permitem a manipulação de imagens, eram praticamente inexistentes ou davam os primeiros passos, o que tornou Cruz-Filipe pioneiro neste domínio em Portugal. Decorreu também, numa época (anos 80) em que a morte da pintura estava vaticinada e em que, a fotografia, ainda não se tinha assumido como indiscutível médium de criação artística.

A partir de 2004, a produção de Cruz-Filipe foi alvo de expressivas transformações que marcaram a inauguração do  segundo ciclo, no panorama da sua obra pictórica. A paisagem natural (apontamentos do mar, céu, terra, nuvens e árvores, entre outros),preferencialmente reproduzida em grandes formatos, passou a assumir-se como protagonista incontestável das suas criações, enquanto desapareciam a integração de objetos (espelhos e janelas eram frequentes), os espaços interiores e os elementos arquitetónicos. Também a figura humana, integral ou parcialmente representada e tendencialmente feminina, deixou de marcar presença, subsistindo apenas mãos e rostos, nos quais o olhar quase nunca confronta o espectador).  

As pinturas deste segundo ciclo, potencialmente o derradeiro, continuaram a resultar de apropriações de imagens prévias. Neste período, tratavam-se, sobretudo, de fotografias captadas pelo próprio Cruz-Filipe, no contexto das inúmeras viagens que realizou. A abordagem privilegiada, passou a ser de natureza mais abstrata, transportando consigo um potencial manifestamente mais contemplativo e melancólico, sugerindo uma relação estreita com o romantismo. Segundo João Pinharanda, na publicação que acompanhou a mostra: «É de uma abstracção lumínica e cromática que agora se trata, de uma pintura atmosférica, envolvente, iluminada por superfícies de luz onde Turner alcançou fundir o céu, o mar e a terra.» (p. 23)

Os títulos atribuídos às obras, tal como as composições, foram  igualmente alvo de um processo de simplificação. Tecnicamente, manteve-se o uso exclusivo da tinta acrílica, residindo a novidade nas impressões digitais sobre tela, e não mais nas fotocomposições serigrafadas.

Deste segundo ciclo destacou-se a pintura realizada em 2020 que integrou «Modo de Ver». Em Meditação sobre a paisagem, segundo Ana Vasconcelos: «(…) o observador é literalmente «puxado» para dentro da imagem (...). Perante o mistério da imagem, o nosso olhar segue a escada que parte do plano inferior até se confundir com a vegetação, e ao lado da qual não podemos deixar de ver e de nos sentir atraídos pela abertura negra na rocha» (Cruz-Filipe. Modo de Ver, 2024, p. 8). A sugestão de abismo queda iminente é, de resto, recorrente em muitas pinturas desta segunda fase. A propósito da mesma obra, Cruz-Filipe confidenciou a Luísa Soares de Oliveira: «Depois de fazer esta pintura, fiquei com medo de pintar. Foram 70 anos para pintar isto...» (Público. Ípsilon, 15 mar 2024, p. 22) Trata-se, portanto, de uma obra crucial no seu longo percurso artístico, marcando, talvez, o seu culminar.

Por ocasião desta exposição individual na Fundação, foi editado um catálogo em português com 127 páginas e uma tiragem de 300 exemplares. A publicação inclui reproduções de todas as obras expostas e uma biografia (resumida no final deste texto), bem como um prefácio de Guilherme d'Oliveira Martins e textos da autoria de Ana Vasconcelos, Raquel Henriques da Silva, João Pinharanda e Bernardo Pinto de Almeida.

A programação paralela, definida no âmbito da mostra que totalizou 17956 visitantes, traduziu-se numa visita e conversa com a curadora (Ana Vasconcelos), que decorreu a 1 de março e 12 de abril, e se destinou ao público em geral.

Apesar da exposição ter estado patente por um período de tempo considerado excecionalmente reduzido, «Cruz-Filipe. Modo de Ver» foi objeto de uma cobertura mediática expressiva, tendo sido divulgada em diferentes tipologias de órgãos de comunicação social, como a RTP2, a SIC, a SIC Notícias, a TSF, o Jornal de Letras, o Observador, o Jornal de Negócios, a Agenda Cultural de Lisboa, a TSF e a Rádio Renascença. Merecem especial destaque três leituras que convergem na celebração da obra de Cruz-Filipe. Luísa Soares de Oliveira, no suplemento Ípsilon do Público, atribui a nota máxima , sublinhando como a pintura se abre para além de si mesma através da desconstrução da imagem. Também José Luís Porfírio, no Expresso, distingue a exposição com cinco estrelas, exaltando a cintilação do instante perdido e reencontrado, numa obra que transforma o efémero em permanência. Já Guilherme d’Oliveira Martins, no Diário de Notícias, encontra neste percurso um “modo de ver” que é também um modo de ser: «Trata-se de um movimento interior, de uma experiência da vida do mundo.» (27 fev. 2026, p. 26)

 

 

Biografia


Ricardo José Minotti da Cruz-Filipe licenciou-se em Engenharia, em 1957, pelo Instituto Superior Técnico (IST). Nesse mesmo ano, e sempre na qualidade de pintor autodidata, realizou a sua primeira exposição individual na Galeria Pórtico, também em Lisboa. Música de Câmara (1955) é a única obra que, em «Modo de Ver», remete para essa fase inicial do seu percurso artístico. Em 1965 foi distinguido com o Prémio Malhoa e, cinco anos mais tarde, expôs, pela primeira vez, pintura sobre tela fotossensibilizada, na Galeria 111 (Lisboa).

No contexto português apresentou trabalhos no Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa), no Museu Nacional Soares dos Reis (Porto), na Sociedade Nacional de Belas-Artes (Lisboa), no Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (Lisboa), na Culturgest (Lisboa), na Galeria da Fundação EDP (Porto), na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva (Lisboa) e nas galerias Quadrum (Lisboa) e Buchholz (Lisboa), entre outras.

Internacionalmente, Cruz-Filipe expôs em Paris ( Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris, Grand Palais, Galerie du Dôme e Centre Culturel Portugais); em Roma (Galleria Nazionale d’Arte Moderna); em Madrid (Palácio de Congressos); em Salamanca; em Barcelona; em Nova Iorque (Hudson River Museum e Murray and Isabella Rayburn Foundation; no Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo); na Suíça (Galeria Patrick Cramer, Genebra); na Suécia e no Museu Van Reekum (Apeldorn, Holanda).

Está representado nas coleções dos Ministérios da Educação, da Cultura, e dos Negócios Estrangeiros; do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian; do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado (MNAC); do Museu de Serralves; do Museu Nacional de Amadeo Souza Cardoso (MNASC); do Museu de Tomar (Coleção José--Augusto França); da Sociedade Nacional de Belas-Artes; da Mobil; da Fundação EDP; da Caixa Geral de Depósitos; do Millennium BCP; do Banco Espírito Santo; do BPI e do Banif.
Até 2012, e durante cinquenta e cinco anos, desenvolveu aquela que foi a sua principal atividade profissional. Toda a sua carreira, de reconhecido mérito, nacional e internacional, esteve alicerçada na engenharia e, em particular, no setor da eletricidade. Durante dez anos foi professor-assistente no IST. Ocupou o cargo de administrador da Electricidade de Portugal (EDP) e representou as empresas portuguesas de eletricidade na Union Européenne pour la Coordination de la Production et du Transport de l’Electricité. Foi agraciado com o grau de Chevalier de l’Ordre du Mérite do Governo francês. Presidiu à Secção Especializada para Apoio às Privatizações, por nomeação do Ministério das Finanças português. Entre outras ocupações destaca-se, ainda, o cargo de presidente do Conselho Fiscal da CIMPOR.

Cristina Campos, 2025


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

A medida comum das mais humildes coisas

Ricardo da Cruz-Filipe (1934-)

A medida comum das mais humildes coisas, 1972 / Inv. 80P704

A Onda

Ricardo da Cruz-Filipe (1934-)

A Onda, 2004 / Inv. 17P1831

Bride of Stillness

Ricardo da Cruz-Filipe (1934-)

Bride of Stillness, 1972 / Inv. 73P658

Cintilações

Ricardo da Cruz-Filipe (1934-)

Cintilações, 2007 / Inv. 17P1827

Fragments d'une présence

Ricardo da Cruz-Filipe (1934-)

Fragments d'une présence, 1998 / Inv. 17P1826

Intervalle du Temps

Ricardo da Cruz-Filipe (1934-)

Intervalle du Temps, 1982 / Inv. 17P1829

Ordre des Visibilités

Ricardo da Cruz-Filipe (1934-)

Ordre des Visibilités, 1988 / Inv. 17P1830

Questions du Réel

Ricardo da Cruz-Filipe (1934-)

Questions du Réel, 1976 / Inv. 17P1828


Eventos Paralelos


Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Cruz-Filipe, Emílio Rui Vilar e Guilherme d´Oliveira Martins
Cruz-Filipe, Guilherme d´Oliveira Martins
Cruz-Filipe e Guilherme d´Oliveira Martins
António Feijó, Cruz-Filipe, Ana Vasconcelos e Guilherme d´Oliveira Martins
Cruz-Filipe

Multimédia


Documentação


Periódicos


Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa

Conjunto de documentos referentes à exposição. Contém materiais gráficos, fotográficos, multimédia, pressbook, comunicados de imprensa, entre outros. 2024 – 2025


Exposições Relacionadas

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