Terre Transformée

Paris-Photo 2011

Exposição coletiva de fotografia e vídeo que inaugurou as novas instalações da Delegação em França da Fundação Calouste Gulbenkian. A mostra, comissariada por Sérgio Mah, apresentou o trabalho mais recente de nove artistas europeus emergentes, desenvolvido em torno do tema da paisagem.
Collective, landscape-themed photography and video exhibition featuring new installation work from the Fondation Calouste Gulbenkian – Délégation en France. The show, curated by Sérgio Mah, displayed the most recent work of nine emerging European artists.

«Terre Transformée» foi a primeira exposição a ser apresentada nas novas instalações da Fondation Calouste Gulbenkian – Délégation en France, no número 39 do Boulevard de la Tour-Maubourg, em Paris. Organizada por este serviço, a exposição apresentou, de 18 de outubro a 16 de dezembro de 2011, um conjunto de trabalhos de autores europeus dedicados à fotografia de paisagem, e foi parte integrante do programa do «Paris-Photo 2011», evento que teve lugar em Paris, de 10 a 13 de novembro desse mesmo ano.

Com curadoria de Sérgio Mah, a exposição reuniu nove artistas com trabalhos sobre a paisagem europeia e as mudanças que nela se operaram na contemporaneidade. Os artistas selecionados, todos nascidos nas décadas de 60 e 70 do século XX, apresentaram obra em vídeo e fotografia produzida durante os primeiros anos do novo milénio, sendo este um dos objetivos da missão do Centre Culturel Calouste Gulbenkian, em Paris: «Ces caractéristiques – la modernité et le pari fait sur des jeunes encore peu connus en France – correspondent très justement à ce que l'on souhaite voir devenir, dans le cadre européen, l'un des axes de l'action de la délégation de la Fondation Gulbenkian en France.» (Terre Transformée, 2011, p. 5)

Foram apresentadas obras de Jem Southam (1950), Geert Goiris (1971), Claudia Angelmaier (1972), Tacita Dean (1965), Joachim Koester (1962), Filipa César (1975), Collier Schorr (1963), Benno Schlicht (1962) e Rachel Reupke (1971), numa cenografia concebida por Teresa Nunes da Ponte.

Segundo Emílio Rui Vilar, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, pretendeu-se que esta exposição transmitisse um entendimento holístico da paisagem, e que o tema fosse tratado como campo de confluência experimental de materiais e técnicas, partilhando, deste modo, as intenções do comissário, no texto que assina no catálogo da exposição: «L'exposition prétend avant tout situer une zone de confluence réflexive, comme un immense champ de possibilités qui nous permet de confronter un ensemble diffus de topologies, de conditions physiques et matérielles, de vécus et de dispositifs sociaux.» (Ibid., p. 20)

Enquanto conceito interpretado de formas diferentes por cada cultura ou identidade geográfica, e por acompanhar as mudanças que se vão fazendo sentir no contexto socioespacial, a paisagem é também propícia a um exercício de análise e reflexão sobre o tempo em que se insere. A sua associação a temas como o aquecimento global e a guerra, agentes de profunda transformação do território, comprovam a sua constante atualidade e pertinência.

O projeto para esta exposição assentou nesta mesma perspetiva teórica e contemplou trabalhos do campo da produção de imagem que refletem não apenas o território mas as histórias e os significados associados a cada um dos locais. Em muitas das obras reunidas, a paisagem reflete a ocupação humana do espaço natural, numa intensa intervenção que conduz à transformação e redefinição dos territórios rural, urbano, natural e encenado.

«Terre Transformée» apresentou um variado leque de linguagens e práticas, desde trabalhos que descrevem reinterpretações alegóricas do real, até trabalhos marcadamente subjetivos e poéticos. Sérgio Mah quis que a diversidade dos modos de expressão estabelecesse uma ponte entre a pré-fotografia, predominantemente académica e pictórica, e a pós-fotografia, pós-moderna, mediatizada e tecnológica.

Uma das obras expostas que melhor resumiram as características e os objetivos da iniciativa foi Upton Pyne, trabalho que Jem Southam produziu entre 1966 e 2006. Durante este período, Southam registou a intervenção humana numa área junto à sua residência. Antiga mina de magnésio, este local acabou por se transformar num pequeno depósito de lixo, depois recuperado por dois homens, cuja ação ficou gravada em película fotográfica. Upton Pyne é um retrato da sua época, pois tem nele resquícios de uma industrialização passada, num espaço rural abandonado e levado ao declínio, mas cuja fuga a um destino fatídico foi possível graças à ação humana.

Geert Goiris apresentou seis imagens de diferentes zonas da Europa, às quais atribuiu uma composição rigorosa, um estilo neutro e documental, uma visualidade clara e objetiva aplicada aos locais abordados.

Com Plants and Animals (2004-2008), Claudia Angelmaier apresentou uma série fotográfica desenvolvida à volta do tema da reprodução imagética e do modo como as técnicas utilizadas podem alterar as características de uma mesma imagem. Neste caso específico, foram tiradas várias fotografias a uma ilustração de Albrecht Dürer (1471-1528), presente em diferentes livros.

Fernweh (2008), de Tacita Dean, é uma composição de oito fotografias de penhascos, florestas e dunas que a artista adquiriu em feiras de segunda mão, para construir uma paisagem de paisagens. O olhar do espectador era levado a mover-se por entre os detalhes das pequenas notas de texto indecifrável e a embarcar numa viagem imaginária dentro de uma realidade fictícia.

O contraste entre ficção e realidade foi também o ponto de partida para o trabalho de Joachim Koester na série From the Travel of Jonathan Harker (2003), que, num conjunto de dez fotografias, propunha o registo documental e contemporâneo do percurso realizado em Bargau Valley, na Transilvânia, pelo protagonista de Drácula, de Bram Stoker.

Collier Schorr apresentou algumas imagens selecionadas do livro Blumen (2010), onde memória e identidade coletiva são protagonistas. Este livro reúne duas décadas de trabalhos de fotografia, vídeo, desenho e colagem, que a artista produziu numa pequena vila alemã. As imagens selecionadas contêm composições de flores na paisagem presas por fios, transmitindo estruturas rígidas, que fixam o tempo e sugerem «une nostalgie, une tension, un drame, une anxiété et un traumatisme» (Ibid., p. 18).

A relação entre a imagem e o legado cultural que ela traz consigo estava presente no trabalho de Filipa César intitulado Memograma (2010), constituído por duas projeções de vídeo – Memograma e Insert – que abordam a memória de um local em Portugal: Castro Marim. Neste projeto, Filipa César evocou traumas relacionados com a história política portuguesa, associando a imagem que as pessoas têm da vila, conhecida pela produção de sal, às memórias menos conhecidas que relacionam este local com a imposição de trabalhos forçados a homossexuais durante a ditadura.

O segundo vídeo apresentado na exposição, Tignes (2005), era da autoria de Rachel Reupke e consistia numa sequência de cinco gravações retiradas de webcams instaladas numa estação de esqui nos Alpes Franceses, durante a época baixa. Os segmentos selecionados apresentavam uma ação nula ou quase nula, sendo a passagem do tempo apenas percetível através da mudança de luz e do movimento das nuvens.

Ao contrário das restantes obras, a paisagem aparece no trabalho de Benno Schlicht não como tema principal, mas antes com um valor que Sérgio Mah classifica de circunstancial, surgindo em função de um questionamento sobre os limites e convenções da fotografia: «[...] on peut même admettre qu'il a une valeur simplement circonstancielle en tant que scène d'une pratique de l'image fortement subjective, qui insiste à signaler des moments et des gestes signifiants de l'expérience quotidienne – tout comme les appels émotionnels et poétiques éveillés par les circonstances des lieux –, dans l'interaction avec les personnes de son cercle proche et avec les objets et les situations qu'il rencontre.» (Ibid., p. 19)

A divulgação de «Terre Transformée» sublinhou o facto de se tratar da primeira exposição a ser organizada nas novas instalações da Fondation Calouste Gulbenkian – Délégation en France, um edifício de 1869, adaptado pela arquiteta Teresa Nunes da Pontes.

Sobre a nova morada da Gulbenkian em Paris, Alexandra Prado Coelho referiu que se inauguravam «1900 metros quadrados distribuídos por cinco andares e uma cave, o que permite ter – além da biblioteca, agora em óptimas condições de acesso –, uma sala polivalente com 140 lugares e uma área de exposições com 240 metros quadrados. Há ainda dois gabinetes para investigadores e um pátio interior com uma pequena zona de convívio» (Coelho, Público, 17 out. 2011).

Carolina Gouveia Matias, 2019


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