Pedro Cabral Santo (1968-)
Azul em Ornans, 2006/07 / Inv. 08E1561
Exposição do artista português Pedro Cabral Santo (1968), apresentada na Sala de Exposições Temporárias do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão.
Esta é a terceira mostra de uma trilogia de homenagens iniciada pelo artista em 2002, com «ARCADIA – first, always, last» (Galeria Marta Vidigal, Porto), e à qual deu continuidade em «Emotions and Heart Attacks # 1» (Galeria do Palácio, Tavira, 2003; Galeria ZDB, Lisboa, 2004).
A exposição é composta por três esculturas e um vídeo, fruto da materialização de memórias do artista, em particular das suas experiências com determinadas obras de arte históricas, de diferentes períodos. Na maioria dos casos, as obras em causa são evocadas parcialmente no título das peças expostas, quer pela alusão ao nome do artista – The Turner PIC (2005-2007), 380 cm d’amour à Constantin (2007) –, quer por integrarem fragmentos do título da obra evocada – Azul em Ornans (2006-2007), Su pression (2007-2008).
Ao entrar na sala de exposições, o visitante depara com um conjunto de trabalhos que remetem para universos futuristas, cenas de ficção científica ou inspiradas no mundo de Marvel, aos quais se juntam outros, que resultam de combinações inusitadas. É, portanto, a partir de um olhar do século XXI, atravessado por uma série de outras referências culturais e vivências, que as obras Naufrágio de um Cargueiro (c. 1810), de William Turner, Colonne sans fin (1920-1930), de Constantin Brancusi, Pressione (1974), de Giuseppe Penone, e Un enterrement à Ornans (1849-1850), de Gustave Courbet, são percecionadas e trabalhadas. Deste modo, as relações estabelecidas com estas obras históricas podem não ser imediatas, mas vão surgindo à medida que um olhar mais aprofundado vai tendo lugar.
O título da exposição – «Tilt» –, palavra que em inglês significa «inclinação», tanto física como relativa a uma opinião ou um sentimento, remete de imediato para a questão da preferência, da escolha, subjacente a este projeto. No entanto, esta palavra significa também «combate», «luta», podendo fazer referência ao desporto medieval em que dois cavaleiros montados com lanças tentam derrubar-se um ao outro. O derrube simboliza a morte neste espetáculo de guerra. O título, em torno do qual se reúnem estas peças, à primeira vista sem relação aparente, surge assim como importante elemento orientador. De facto, ao percorrer novamente a exposição, o visitante dar-se-á conta de que a ideia de morte está presente em todos os trabalhos, desde a perfuração da espada azul em Azul em Ornans, passando pelo disparo da espingarda em Su pression e pelo naufrágio The Turner PIC, até à queda de 380 cm d’amour à Constantin. Por outro lado, traços de um humor peculiar e referências ao cinema e à banda desenhada remetem-nos para a ideia de morte ficcionada, para a representação, para a ilusão.
Esta mostra, que nas palavras do artista assenta na «evocação de memórias afectivas […], bem como de momentos marcantes, mecanismos de percepção», apresenta-se como uma clara alusão ao processo criativo, à interseção de experiências, à fusão de realidade e fantasia, e ao papel do confronto com a história da arte. Como refere Óscar Faria no seu artigo para o Ípsilon, «o trabalho de Pedro Cabral Santo tem inúmeras camadas de leitura», e acrescenta: «Uma sucessão de acidentes, demolições, quedas, colapsos, a mostra […], com montagem certeira, tem como pano de fundo as rupturas que afectaram a história económica, política, social e artística dos últimos séculos. É uma exposição iconoclasta.» (Faria, Público, 2008, p. 46)
Cabral Santo convida ainda para participarem neste projeto três artistas seus contemporâneos e que muito admira: Tiago Baptista, João Simões e Luís Alegre. Luís Alegre foi o responsável pelo design do catálogo e Tiago Baptista criou a imagem usada no convite, uma composição digital intitulada À Maneira de Dürer (2008), formada por quatro elementos iconográficos que remetem para as peças expostas. João Simões participa com a obra DR-During Rewind (2007-2008), integrada nos minutos finais do vídeo The Turner PIC (2005-2007), de Cabral Santo, com o som do vídeo a ser rebobinado.
Na sequência desta exposição, foram incorporadas na coleção do Centro de Arte Moderna as obras The Turner PIC e Azul em Ornans.
Mariana Roquette Teixeira, 2019
Azul em Ornans, 2006/07 / Inv. 08E1561
The Turner PIC, 2005/07 / Inv. IM29
Azul em Ornans, 2006/07 / Inv. 08E1561
The Turner PIC, 2005/07 / Inv. IM29