Gil Heitor Cortesão. Mnémopolis

Exposição individual de Gil Heitor Cortesão (1967). Comissariada por Leonor Nazaré, esta mostra reúne 12 pinturas a óleo sob vidro acrílico, apresentadas como uma sequência de ecrãs que transportam o visitante para outros lugares, onde fantasia e realidade se cruzam.
Solo exhibition of work by Gil Heitor Cortesão (1967). Curated by Leonor Nazaré, the show featured 12 oil paintings on plexiglass, displayed as a sequence of screens that transport the visitor to another place, where fantasy and reality interweave.

Exposição individual de Gil Heitor Cortesão (1967), apresentada na Sala de Exposições Temporárias do Centro de Arte Moderna. Comissariada por Leonor Nazaré, esta mostra reúne 12 pinturas inéditas, com as quais o artista dá continuidade ao trabalho em pintura a óleo sob vidro acrílico, que vinha desenvolvendo desde meados da década de 1990.

O título da exposição é retirado do romance Compact, de Maurice Roche. Mnémopolis é o nome de uma cidade imaginária, com forma de cérebro, onde o viajante se consegue esgueirar para um buraco da memória. É precisamente um universo de fantasia com flashes de realidade, ou, por outras palavras, de imagens que guardamos na memória, composições ou criações do tempo, que esta exposição nos apresenta.

Um conjunto de 12 pinturas, com idênticas dimensões, é exposto, de forma alinhada, ao longo das paredes da sala. Sucessão de janelas ou ecrãs para outros lugares, paisagens urbanas que nos parecem simultaneamente familiares e estranhas, imagens onde o passado e o futuro se fundem.

O visitante assiste, a partir de fora, qual espectador televisivo, a uma série de situações em que realidade e fantasia se misturam. Leonor Nazaré, curadora da exposição, encontra no realismo fantástico uma filiação para estes trabalhos, pois como a própria afirma no texto para o catálogo «há suficiente efeito de reconhecimento, apesar da estranheza "sonambólica", para utilizar uma expressão do artista» (Mnémopolis, 2004, p. 9).

As imagens que se nos apresentam, produzidas «no outro lado» do vidro, são espelho daquelas em que o artista trabalhou. Neste caso, o vidro é simultaneamente suporte e barreira, impossibilitando o contacto direto com a materialidade da pintura. Por outro lado, este acaba por funcionar também como revestimento, contribuindo para o alcance de uma plasticidade brilhante, semelhante ao efeito das tintas sintéticas. Esta artificialidade combina com a natureza das imagens. Como afirma o artista: «O natural não tem muita presença no meu trabalho, […] interessa-me o cultural e, portanto, artificial.» (Mnémopolis, 2004, p. 10)

Aos elementos representados de uma forma quase hiper-realista juntam-se outros que destroem essa orientação, dos quais fazem parte escorrências, pinceladas, manchas, esboços que se parecem desintegrar, em suma gestos que salientam a natureza pictórica destes trabalhos, mutável e manipulável. Como revela o artista, numa entrevista por ocasião da exposição, «o que me interessa mais na pintura tem a ver com a dimensão do artifício […]. Mais do que uma forma de expressão, a pintura é para mim uma construção» (Nunes, JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, 2004, p. 15). Para tais construções, Gil Heitor Cortesão faz uso de imagens preexistentes, que cruza e manipula, mas também da palavra, através da inserção de palavras e frases, que «ecoam» nesses ambientes como memórias de um qualquer slogan publicitário que procura vender uma ficção.

Esta exposição chamou a atenção da imprensa não só pela temática tratada, mas também pela reflexão que suscita sobre o medium da pintura. As imagens, em confronto com o título da exposição, deram origem a diferentes leituras. Rocha de Sousa, no seu artigo para o Jornal de Letras, propõe um olhar alternativo ao apresentado no texto do catálogo da exposição, afirmando: «A minha leitura não passa por nenhum sonambulismo, nem letargia, nem esquecimento; talvez, de outra maneira, o espectáculo das obras expostas […] contenha a alegria um tanto pueril das feiras modernas e de um lazer futuro, imaginário, afinal irrealizável – e nas substituições do qual, coloridas, luminosas, de cartão e vidro, as multidões se precipitam, clonos intermináveis na sua semelhança, também na sua alienação.» (Sousa, JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, 21 jul. 2004, p. 28)

Seguindo uma linha de pensamento semelhante, Celso Martins vê nesta série de pinturas uma «viagem ao espectáculo do mundo, entre o festival e o apocalipse», um retrato inquietante e aparentemente confuso, dada a complexidade da época em que vivemos: «No século XIX, Baudelaire exigia aos artistas que revelassem a vida do seu tempo, o seu ritmo, a sua velocidade, electrizante. Um artista do início do século XXI sabe que a questão só se intensificou. Não se trata apenas de retratar o caos, mas de mostrar como ele se infiltrou profundamente no modo como lidamos com as aparências sugeridas pelas imagens.» (Martins, Expresso, 3 jul. 2004, p. 43)

O olhar de Luísa Soares de Oliveira encontra, por sua vez, nas imagens criadas e nos processos desenvolvidos por Gil Heitor Cortesão uma reflexão sobre a pintura enquanto meio: «[…] é um passado, ou melhor, os seus restos materiais que nos são aqui dados a ver. […] o que nos mostra é, sobretudo, a metáfora do mecanismo já fora de uso da pintura.» (Oliveira, Público, 26 jun. 2004, p. 21)

A exposição é acompanhada de um pequeno catálogo, do qual se destacam o texto da curadora e a reprodução de todas as obras expostas, entre as quais, S/Título (Manifestação) (2004), posteriormente incorporada na Coleção do Centro de Arte Moderna.

Mariana Roquette Teixeira, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

S/Título (Manifestação)

Gil Heitor Cortesão (1967- )

S/Título (Manifestação), 2004 / Inv. 04P1262

S/Título (Manifestação)

Gil Heitor Cortesão (1967- )

S/Título (Manifestação), 2004 / Inv. 04P1262


Eventos Paralelos

Visita(s) guiada(s)

[Gil Heitor Cortesão. Mnémopolis]

27 jun 2004 – 19 set 2004
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Arte Moderna – Sala de Exposições Temporárias
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Periódicos


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00526

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência, apólices de seguro, guias de transporte. 2004 – 2004

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 01017

Pasta referente ao processo de aquisição de uma das obras expostas (Inv. 04P1262). 2004 – 2004


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