Chronos: Saxum Oceanum e Imago Lapis

Exposição do artista português João Basto e do canadiano Dereck Revington, subsidiado pelo Serviço de Belas-Artes. A mostra apresentou um projeto multimédia, com os módulos III e IV da videoinstalação Chronos (constituída pelos módulos I. Cappella Lunae, II. Porta Solis, III. Imago Lapis e IV. Saxum Oceanum).
Exhibition on Portuguese artist João Basto and Canadian artist Dereck Revington subsidised by the Fine Arts Service. The show featured a multimedia project, modules III and IV of the video installation Chronos (I.Cappella Lunae; II. Porta Solis; III. Imago Lapis; IV Saxum Oceanum).

Chronos é uma videoinstalação da autoria do português João Basto e do canadiano Dereck Revington. Teve apoio à produção do Serviço de Belas-Artes (SBA) da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), cujo envolvimento remonta a 1993, através de um contacto da Sociedade Lisboa 94 – entidade responsável pela Lisboa Capital Europeia da Cultura de 1994. Era solicitada à Fundação a atribuição de um subsídio a Basto e a Revington para financiar parte de um projeto multimédia de grande escala – intitulado Temenos –, com vista à sua integração na exposição coletiva «Múltiplas Dimensões», no Centro Cultural de Belém. De escopo internacional, esse evento traria a Lisboa obras de artistas de referência, com trabalhos no campo dos novos media e das então muito recentes tecnologias digitais e informáticas. Havia já vários anos que Revington e Basto desenvolviam obras com recurso a esse tipo de tecnologia, explorando frequentemente diálogos entre o vídeo, a escultura e a arquitetura – área de formação partilhada pelos dois elementos da dupla.

Revington e Basto delineavam um ambicioso projeto site-specific na senda de outras peças multimédia que já tinham elaborado, como The Burrow (Butler's Wharf, Londres, 1975), Narrazione Romane (Roma, 1992) ou Distentio Animi, Círculo de Bellas Artes, Madrid, 1992 (Arquivos Gulbenkian, CAM 00384). A peça estava a ser pensada para interior e exterior, pretendendo-se que alguns dos módulos vídeo que a constituiriam fossem projetados sobre edifícios e monumentos da cidade de Lisboa. A própria ideia de cidade, de urbe, funcionava como norteador conceptual das simbologias evocadas, muitas delas ancoradas na História de Portugal, as suas mitologias e as heráldicas – referências que eram articuladas com um ideário alquímico e esotérico.

Porém, várias vicissitudes conduziram a que Lisboa 94 desistisse de incluir a peça na referida exposição. Não obstante, a FCG manteve o compromisso assumido com os autores, respeitando o parecer inicial da pertinência artística da proposta, emanado pelo SBA (Arquivos Gulbenkian, SBA 8348).

O financiamento passava agora a destinar-se à produção da instalação Chronos-Aeolus. Os muitos documentos de produção guardados nos Arquivos Gulbenkian revelam que este novo projeto assentava sobre novas premissas, não obstante uma temática afim às ideias já gizadas.

Após diversas metamorfoses, a peça estabeleceu-se em quatro módulos «vídeo-escultóricos»: I. Cappella Lunae; II. Porta Solis; III. Saxum Oceanum; IV. Imago Lapis. Desde o início do projeto que essa conceção modular pretendeu salvaguardar a autonomia de cada um dos capítulos, por forma a possibilitar a eventual desarticulação do conjunto e a flexibilização de alternativas expositivas. Isso seria crucial para a apresentação que ocorreu no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAMJAP), em que apenas dois dos quatro elementos foram montados, apesar do plano preliminar de instalar os quatro módulos na Galeria de Exposições Temporárias do CAMJAP (piso 01) (Carta de Manuel da Costa Cabral para Jorge Molder, 26 out. 1995, Arquivos Gulbenkian, CAM 00385).

Essas alterações tiveram em linha de conta a envergadura da instalação e a restrição da área disponível para projetos temporários que a programação do Centro então impunha. Na altura, o CAMJAP dedicava grande parte do seu espaço à coleção de arte moderna e contemporânea da FCG, assumindo um perfil mais museológico, com uma recente e mais extensa reconfiguração da exposição permanente. Esses condicionamentos motivaram novas soluções, com o módulo III. Saxum Oceanum a ser montado numa black box construída para o efeito, no Hall do CAMJAP, enquanto o módulo IV. Imago Lapis decorreria na Sala de Exposições Temporárias do CAMJAP (Carta de Dereck Revington para Jorge Molder, 22 jul. 1997, Arquivos Gulbenkian, CAM 00385).

A estreia destes dois capítulos de Chronos ocorreu a 19 de agosto de 1999, com a exposição a ficar patente até 30 de setembro do mesmo ano. Um texto publicado por altura dessa apresentação na Gulbenkian adianta que os dois primeiros módulos, não incluídos, envolvem nas suas temáticas as salinas de Alcochete, prevendo-se a sua apresentação numa futura oportunidade (Arquivos Gulbenkian, CAM 00385). Desde cedo que o projeto propunha a conjugação dos vídeos com matérias naturais, nomeadamente o sal. Seria um dos recursos a utilizar nesses módulos I. Capella Lunae e II. Porta Solis, chamando a si valores escultóricos e atuando no cômputo das simbologias alquímicas exploradas pelo projeto. A proposta inicial de instalar no espaço expositivo do CAMJAP elementos escultóricos em sal tinha sido abandonada pelo facto de apresentar um significativo risco para a conservação das restantes obras expostas.

Entre Toronto (onde residia Revington) e Macau (onde se tinha entretanto estabelecido Basto) a conceção e produção de Chronos foi longa e complexa. Representou um considerável esforço orçamental aliado a exigentes especificidades metodológicas e técnicas. O processo só ficaria concluído em março de 1999, quando o CAMJAP confirma ao SBA a receção dos últimos desenhos e planos de montagem da videoinstalação (Arquivos Gulbenkian, CAM 00385). A documentação arquivada indica que esses materiais foram anexados aos vídeos e memórias descritivas já entregues para ingresso na coleção do Centro de Arte Moderna (Ibid.). Todavia, essa incorporação não foi concretizada.

Daniel Peres, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Publicações


Material Gráfico


Documentação


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00384

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém o «Relatório. Peça multimédia Chronos/Aeolus. Fundação Calouste Gulbenkian. Centro de Arte Moderna». O documento refere-se a uma versão preliminar do que viria a ser a instalação «Chronos» e está assinado por João Basto e Dereck Revington, autores da referida instalação. 1995 – 1995

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00385

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência interna e externa (inclui cartas com João Basto e Dereck Revington, autores da peça), plantas, desenhos técnicos, memórias descritivas, relatórios e outras informações de produção e logística do projeto. 1994 – 1999

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Belas-Artes), Lisboa / SBA 08348

Pasta com documentação referente à produção e apresentação de Chronos, uma instalação multimédia da autoria de João Basto e Dereck Revington. O projeto foi subsidiado pelo Serviço de Belas-Artes da Fundação Calouste Gulbenkian e viu dois dos seus quatro módulos serem apresentados Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão da FCG, no verão de 1887. Contém informações sobre o financiamento da peça; correspondência com os artistas e com a «Lisboa 94 – Capital Europeia da Cultura» (entidade que encomendou primeiramente o projeto, abdicando dele posteriormente); convite; planos de montagem e desenhos técnicos. 1993 – 1999


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