Amadeo de Souza-Cardoso

Canção d'açude poema em cor
c. 1913 – 1915 (data atribuída)

Galeria


Informação técnica

Autor(es)
Amadeo de Souza-Cardoso (Manhufe, Portugal, 1887 – Espinho, Portugal, 1918)
Título
Canção d'açude poema em cor
Data
c. 1913 – 1915
Materials and media
Papel; Guache
Técnica
Guache sobre papel
Dimensões
Altura 23,80 cm; Largura 33,10 cm
N.º de inventário
87DP335

Inscrições

Tipo
Inscrição
Descrição
Os moleiros/deste açude/ adoram a /virgem/ toda de branco/ Os moleiros /deste açude adoral /a farinha.

Incorporação

Tipo
Doação
Proveniência
Lucie de Souza Cardoso
Data
Janeiro de 1987

Texto

Canção d’açude poema em cor é um poema-pintura que faz parte dos materiais produzidos no contexto da Corporation Nouvelle, projeto coletivo que previa a edição de publicações e a organização de exposições internacionais e itinerantes que foi desenvolvido por Robert e Sonia Delaunay durante a sua estada em Portugal em 1915 e 1916 e contou com a colaboração dos artistas portugueses Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana e José de Almada Negreiros. Contendo possíveis referentes regionais, como a ponte D. Maria Pia no Porto, o aqueduto de Vila do Conde e a ponte de São Gonçalo em Amarante,[1] bem como letras de uma canção popular, esta pequena composição cristaliza o interesse do grupo pela arte popular. Além do destaque dado ao artesanato e a bonecos regionais nas obras do casal Delaunay, de Viana e de Amadeo, o último representaria igualmente máscaras típicas do norte de Portugal (os caretos de Podence, que têm um ritual especialmente intenso no Carnaval).

pochoir era a técnica uniformizadora da Corporation Nouvelle. Na correspondência com os Delaunay, Amadeo confessava a sua resistência aos escantilhões, que o “tornavam escravo”.[2] No entanto, o pintor já tinha recorrido a esta técnica na pintura Poème-Prière [Poema-Oração], de 1913, e acabaria por usar o pochoir na sua “imagem de marca” — a icónica assinatura reprodutível “amadeo / de souza / c ardoso”, que se tornaria parte integrante de muitas das suas obras durante a Primeira Guerra Mundial.  

Além de um trabalho dos Delaunay em torno da relação entre texto/imagem que vinha da Prose du Transsibérien e de la Petite Jehanne de France, escrito por Blaise Cendrars e ilustrado por Sonia Delaunay, e do próprio Poème-Prière de Amadeo, onde se inscreve uma oração, os escantilhões prestavam-se bem às letras e, como tal, às potencialidades da inscrição do texto que foram exploradas nesta pintura e em Serrana poema em cor, obra “gémea” de Canção d’Açude ao nível do grafismo, da técnica e da dimensão.

Em ambos os casos, Amadeo introduz na composição letras de canções populares que seriam da região. De momento, as pesquisas etnográficas não nos permitem resgatar a melodia, mas encontra-se no espólio do artista um manuscrito de 1913 com a transcrição destas letras. Na segunda estrofe, lê-se “Os moleiros — Os moleiros desta açude / adoram a Virgem toda de branco / porque, Christo seja louvado, / os moleiros desta açude / adoram a farinha”, excerto que passou para a pintura quase na totalidade.

Amadeo viria a dedicar grande atenção à música, atribuindo aos instrumentos musicais uma especial vitalidade. Esta obra revela outra faceta do pintor mais direcionada para a etnografia, interesse que se expressou igualmente na sua publicação da tradução francesa de “Chansons Portugaises chantées en des fêtes populaires” [Canções Portuguesas cantadas em festas populares] na revista La Vie em agosto de 1912[3].

 

Marta Soares

[1] Joana Cunha Leal, “A Long-Distance Call? Social Space and Corporation Nouvelle’s places of production”, Visual Resources, nº 35, 2019, pp. 8-12.

[2] Amadeo de Souza-Cardoso, Carta a Robert Delaunay, 11 de junho de 1915, publicada em Paulo Ferreira (ed.), Correspondance de quatre artistes portugais Almada Negreiros, José Pacheco, Souza-Cardoso, Eduardo Viana avec Robert et Sonia Delaunay, Paris: PUF; Fondation Calouste Gulbenkian Paris, 1981, p. 69.

[3] Catarina Alfaro, “Biographie”, in Helena de Freitas (ed.), Amadeo de Souza-Cardoso, Paris: Réunion des Musées Nationaux; Grand Palais, 2016, p. 275.

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.