João Vieira
Galeria
A pintura sígnica de João Vieira desenvolve-se na sequência de experiências abstractizantes, afirmando o uso de letras como padrão através da exploração compositiva de figuras geométricas base. As experiências letristas – uso das letras como objecto de exercícios picturais –, que motivarão mais tarde o recurso a outros meios como performances, surgem na sequência dos contactos com o designado Grupo do Café Gelo, situado por baixo do seu atelier. Este grupo, que incluía, entre outros, José Escada, René Bertholo, Hélder Macedo e Herberto Hélder, proporcionará uma aproximação à poesia e a experiências surrealistas. O gestualismo pictural será aprofundado depois de 1957, já em Paris, a partir do convívio com António Saura do Grupo El Paso.
Uma Rosa É tem como mote um verso do poema “Sacred Emily” de Gertrude Stein, “A rose is a rose is a rose is a rose”, propondo a ideia tautológica de que as coisas são o que são. Esta pintura liga-se ao poema, mais do que pelo título, através da figuração das letras que, ao não perderem as suas propriedades linguísticas, permitem o acto de leitura. Isto é, apesar de se assistir a uma problematização da dimensão conceptual da letra-signo ao transformá-la em matéria pictórica, há sentido na combinação das letras, que decorre da sua obediência à convenção da língua, perturbada apenas pela orientação da escrita na composição:
A ROsE
Is AROS
ORAsIE
sEIsAR
João Vieira equaciona a carga semântica das letras gerando intencionalmente um desvio ambíguo. Ao fazê-lo, aproxima-se das preocupações da poesia concreta com que contacta na década de 60, propondo que as letras não percam o seu carácter identitário como escrita, e que se convertam simultaneamente em imagem.
O plano pictórico desta grande tela é organizado em quatro bandas horizontais onde, não obstante a simetria gerada, confirmada pela definição de uma moldura e pela disposição regular das letras. A forma algo desalinhada que têm imprime dinâmica à composição, firmada pelo uso de vários tons em cada um dos elementos. A tela apresenta, assim, uma harmonia conseguida entre o equilíbrio da disposição geral do motivo e a robustez individual de cada carácter. Há, por isso, uma dimensão compositiva assente no mote gestual: as letras como estrutura-base relacionadas numa composição maior, ordenada pela super-estrutura do quadro. O fundo branco, além de destacar e orientar a forma geral, reforça as explorações de um gesto, em que o autor faz depender a percepção do acto de pintar do tratamento das texturas da matéria e dos contrastes entre gamas variadas de cor como vermelhos, verdes ou rosa e vários tons de azul, cor dominante. O resultado plástico acentua o acto de pintar como meio expressivo, tornando a escrita matéria da pintura.
Maria Coutinho
Maio de 2010
Informação técnica
- Autor(es)
- João Vieira
- Título
- Uma Rosa É
- Data
- 1968
- Materiais
- Tela
- Dimensões
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Tipo Valor Unidades Parte Altura 200 cm Largura 161 cm - N.º de inventário
- 80P536