Desenho

Júlio Pomar

Retrato da mulher de António Dacosta
1971

Galeria

“Vinha o retratado, eu fazia o possível para que ele fosse contando coisas e fosse esquecendo a sua posição de retratado. Então começava uma espécie de ir à caça, de tentar prender a coisa fugaz que de repente vinha ao de cima.”*

 

Nesta série de retratos a lápis que Júlio Pomar realiza nos anos 70, essa “coisa fugaz que de repente vinha ao de cima” parece ser algo nunca plenamente conquistado pelo desenho, como se o próprio traço ameaçasse desvanecer-se e afundar-se na brancura do papel.

 

Contrastando com os retratos que pela mesma época realiza em acrílico sobre tela, estes retratos a lápis destacam-se pelo seu carácter eminentemente íntimo e privado. São retratos de pessoas do seu círculo privado e o próprio recurso ao desenho e a um traço evanescente parece conservar essa intimidade, quer na relação do artista com o retratado — mantendo assim uma distância que não pretende ousar conhecer ou desvelar o “mistério” do retratado —, quer na relação entre a obra e o observador. 

 

O específico da figura retratada parece principiar por uma pose ou postura, eleita como característica. Há sempre uma distância entre a representação e a superfície da obra, não obstante o autor não insistir na representação de volumetrias ou na construção de espaços perspécticos. E ainda assim, não obstante a tendencial bidimensionalidade, a figura surge recuada do plano da superfície, pairando, central, numa brancura de papel que lhe concede todo um espaço de respiração e também todo um respeitoso protagonismo.

 

Os traços que delimitam o corpo são muito ténues, criando um jogo de linhas fluidas na sua hesitação do aparecer. O rosto, de perfil, adquire maior solidez. À direita, observa-se uma mancha um pouco mais densa de grafite. A relativa solidez dessa forma, pelo escuro da mancha, acaba por conduzir o olhar para manchas de semelhante densidade, as quais animam e como que ancoram a imagem ao suporte, numa triangulação que estrutura a própria composição. Nas palavras de Fernando Gil, “Sempre em vias de se anular, o traço imitativo cerca o branco da interrogação. Massas pesadas e sombrias, vindas não se sabe de onde, penetram ou rodeiam o retratado, associando-o a vectores obscuros e dando-lhes os equilíbrios que, por si só, ele não possui. (…) O risco do risco está na sua própria improbabilidade. Não é aventura miúda iniciar e continuar o traço, consignar, através de mil sucessivas e delicadas escolhas, o delineamento que instaura, declara, a manifestação no papel. A operação é, no fim de contas, imotivada e referida a si mesma, condenando-se a inventar procedimentos da sua validação. As assim se instituem as formas e a emoção nasce.”**

  

* Helena Vaz da Silva com Júlio Pomar, Lisboa, Edições António Ramos, 1980, p. 64.

 

** Fernando Gil, Pomar: Os Retratos dos Anos 70/ Moradas do Pobre Pintor: Colagem e Glosa em Homenagem a Júlio Pomar, Caixa Geral de Depósitos/ Imprensa Nacional – Casa da Moeda,  1987, p. 12 e 14.

 

 

 

Luísa Cardoso

Fevereiro 2015


Informação técnica

Autor(es)
Júlio Pomar
Título
Retrato da mulher de António Dacosta
Data
1971
Materiais
Papel Arches
Dimensões
TipoValorUnidadesParte
Altura76,6cm
Comprimento56,8cm
N.º de inventário
DP1097

Inscrição

Tipo assinatura e data
TextoPomar 71
PosiçãoCanto inferior esquerdo


Incorporação

TipoA definir
DataA definir

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