Eduardo Batarda

O Vitória de Marracuene
dez 1973

Galeria


Informação técnica

Autor(es)
Eduardo Batarda (Coimbra, Portugal, 1943 – Lisboa, Portugal, 2025)
Título
O Vitória de Marracuene
Data
dez 1973
Materials and media
Papel; Aguarela; Tinta da China
Técnica
Aguarela sobre papel
Dimensões
Altura 69,00 cm; Largura 100,00 cm
N.º de inventário
98DP1726

Inscrições

Tipo
Assinatura
Descrição
Batarda
Posição
Frente, canto inferior esquerdo
Tipo
Data
Descrição
73/12
Posição
Frente, canto inferior esquerdo

Incorporação

Tipo
Aquisição
Proveniência
Eduardo Batarda (1943-2025)
Intermediário
CAMJAP/FCG
Data
Fevereiro de 1998

Texto

Esta pintura é uma das maiores executadas em aguarela sobre papel, técnica que Eduardo Batarda aperfeiçoou nos anos em que estudou em Londres com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian (1971-1974). As aguarelas de Batarda são uma pesquisa dentro da própria pintura, com vista a permitir a coexistência de uma elevada qualidade técnica (que é, ao mesmo tempo, ironizada), uma iconografia vernacular e um conjunto de comentários críticos sobre atualidade e arte de grande complexidade intelectual. Esta persistência na especificidade da pintura é enfatizada pela escala desta obra, que permite leituras diferentes conforme a distância a que é observada. Há um convite a uma dança de afastamento e aproximação análoga à atitude cliché com que se observam grandes obras de arte (com admiração e veneração), o que contrasta com o tipo de figuração praticada, bebida nos comics clássicos e underground, caricatural, cínica, de humor às vezes duvidoso e, em alguns momentos, pornográfica.

O título refere-se ao combate de 1895 em Marracuene (Moçambique), no qual os soldados portugueses adotaram a formatura em quadrado, que foi no entanto rompida mais de uma vez pelos oponentes, armados apenas com lanças. O combate trava-se no contexto de uma contenção sangrenta de revoltas dos autóctones, e há um paralelismo evidente com a guerra colonial ainda em curso à data da obra.

Em 1977 a pintura foi boicotada por estudantes universitários africanos quando exposta em Bulgária, que nela viram conotações racistas. O erro de interpretação deve-se à representação estereotipada dos africanos (recorrendo à imagem dos pickaninnies, corruptela do português «pequenino» para designar as crianças negras e depois os bonecos-tipo africanos frequentes em cartoons e publicidade, de grandes olhos e lábios grossos) com função irónica, ou seja, na verdade anti-racista e anti-colonialista. Estas personagens atacam um cubo transparente ao centro, no interior do qual estão os colonos, boçais não menos estereotipados — a «formatura em quadrado», aliás a puxar para triângulo (remetendo para a conotação religiosa), será também um epíteto pictórico de reacionarismo. A ação passa-se num palco cujo cenário conjuga elementos abstratos reconhecíveis dos modernismos e comentados na sua utilização decorativa. Observando mais cuidadosamente verificamos que, em vez de lanças e flechas, as armas da maior parte dos nativos são pincéis e os seus escudos são paletas, o que, juntamente com outras referências da história de arte, permite entender este combate numa outra perspetiva: como um ataque das neo-vanguardas (fumadoras de maconha, caóticas, aguerridas) a um modernismo por elas visto como enquistado, oficial, obsoleto, mas sendo elas próprias dele devedoras, perpetuando, por exemplo, os primitivismos modernistas numa arte dita antropológica.

Uma legenda sobre fundo azul surge em rodapé, à maneira das que apareciam integradas nas antigas gravuras didáticas ou nas que reproduziam grandes obras da pintura, indicando o título, artista, localização, escola, etc.

 

MPS

Maio de 2010

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