Desenho

Júlio Pomar

Fernando Pessoa
1983

Galeria

“Não há na nossa poesia — e talvez em nenhuma outra — uma tão decidida recusa do olhar do outro como na poesia de Pessoa. Não é para não ver o outro — o mundo ou outrém — que ele fecha os olhos e se assume como Narciso cego, mas para não ser visto.”* Talvez seja esta recusa do olhar do outro, do ser visto, que torna a imagem de Pessoa tão cativante e simultaneamente tão esquiva às diversas tentativas de aproximação que a ela vão fazendo vários pintores. E o que dessas tentativas resulta conserva sempre uma distância, como se cada pintor compreendesse que, embora reconhecível, Pessoa jamais é completamente assimilável na sua imagem.

 

Este desenho de Júlio Pomar integra um processo de trabalho para a intervenção na estação de metro do Alto dos Moinhos que lhe foi encomendada. Juntamente com Camões, Bocage e Almada, Pessoa é eleito como uma das figuras míticas de Lisboa. Entre as múltiplas aproximações à imagem do poeta — que primeiro realizava num desenho a carvão, depois passava este para marcador sobre papel vegetal e daqui decorria a sua passagem ao azulejo que reveste a estação de metropolitano —, observamos na presente obra a representação de um Fernando Pessoa sentado a ler o jornal. A figura dispõe-se diagonalmente na composição, com a estruturação do seu corpo triangulado descrevendo uma trajectória do canto superior esquerdo para o canto inferior direito. O desenho é simultaneamente estático e dinâmico: estático porque estática é a sua posição, sentado e absorto na leitura do jornal; dinâmico porque as linhas eminentemente rectas que o compõem se entrecruzam e justapõem, originando vectores de força que partem em múltiplas direcções e que traduzem a contracção do corpo, o movimento dos tecidos do vestuário e a volatilidade das várias folhas de jornal. A expressividade do desenho decorre da sua dimensão — e a dimensão é aqui assumida como “um elemento expressivo em si mesmo”, como afirma Pomar, que realiza estes desenhos na escala exacta que assumirão no azulejo** —, das sucessivas simplificações do traço e da exploração do meio e suporte a que recorre. Com efeito, o marcador é empregue em diferentes grossuras de traço, enfatizando e animando determinadas áreas do desenho e construindo uma tridimensionalidade que parece, provavelmente por apenas recorrer ao risco sem qualquer sombreado, também ela de papel.

 

Pessoa, se integra a mitologia de Lisboa e até a do país, permanece assim distante, habitando um universo literário que criou e que medeia a sua relação com o mundo. E nós, do lado de cá do espelho — das folhas de jornal, do papel, do filtro literário, do filtro plástico —, se o podemos ver e contemplar, não lhe tocamos propriamente, como se habitássemos mundos distintos, que apenas se olham através de um vidro: ele para nós, nós para ele.

 

* Eduardo Lourenço, “A imagem à procura de Pessoa” in Fernando Pessoa: o impossível-possível retrato. Exposição Comemorativa do Centenário do Nascimento de Fernando Pessoa, Porto, Casa de Serralves, 1988, p. 10.

 

** “Contrariamente ao uso mais frequente em trabalhos desta natureza — elaboração de um projecto em escala reduzida, seguido de ampliação por quadricula ou episcópio — as imagens que aqui se vêem foram directamente realizadas no tamanho que deveriam ter. Se a superfície total, pela sua extensão, era impossível de recriar em atelier, o espaço em que cada imagem aparece (…) estava dentro das minhas condições habituais de trabalho. Tendo pensado numa sucessão de imagens, a partir do estabelecimento de um guião que as encadeasse, — e admitisse as permutas decorrentes da liberdade com que cada uma se devia afirmar — era-me permitido seguir uma das constantes do meu trabalho. E que aprendi com Matisse: mestre atento ao que é próprio de cada elemento plástico, ao real da matéria manejada, ele pensava a dimensão como um elemento expressivo em si mesmo, e cujas qualidades explorava pela experiência directa.” Júlio Pomar, Pomar: Um ano de desenho: 4 Poetas no Metropolitano de Lisboa, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ Centro de Arte Moderna, 1984, s/ p.

 

 

 

Luísa Cardoso

Fevereiro 2015


Informação técnica

Autor(es)
Júlio Pomar
Título
Fernando Pessoa
Data
1983
Materiais
Papel vegetal
Dimensões
TipoValorUnidadesParte
Altura193,5cm
Largura110cm
N.º de inventário
DP1418

Inscrição

Tipo assinatura
TextoPomar
Posiçãofrente, canto inferior esquerdo
Tipo data
Texto83
Posiçãofrente, canto inferior esquerdo


Incorporação

TipoA definir
DataA definir


Exposições

Heimo Zobernig e a Colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian
CAM/FCG
Curadoria: Jürgen Bock
11 de Fevereiro de 2009 a 31 de Agosto
Centro de Arte Moderna
Exposição realizada em parceria com a Tate St. Ives. Inclui obras da colecção da Tate de St. Ives, do Centro de Arte Moderna e do artista Heimo Zobernig. De 24 de Maio a 31 de Agosto de 2009 estiveram expostas apenas as obras do CAM escolhidas pelo artista.
Exposição Permanente do CAM
CAM/FCG
Curadoria: Jorge Molder
18 de Julho de 2008 a 4 de Janeiro de 2009
Centro de Arte Moderna
Exposição Permanente entre 18 de Julho de 2008 a 4 de Janeiro de 2009.


Bibliografia

Heimo Zobernig e a Colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian/ Heimo Zobernig and the Collection of the Calouste Gulbenkian Foundation Modern Art Centre; Heimo Zobernig and the Tate Colllection/ Heimo Zobernig e a Colecção da Tate
Lisboa/ St. Ives, 2009
ISBN:978-1-85437-826-2
Catálogo de exposição

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.