Pintura

Júlio Pomar

Entrada de Touros
1964

Galeria

Datada de 1964, esta obra pertence já à produção que Júlio Pomar realiza em Paris, cidade para onde se mudara no ano anterior. No entanto, as temáticas e as pesquisas plásticas sobre as quais se vinha debruçando em Portugal persistem, como o comprova a selecção de obras expostas na sua primeira exposição individual na capital francesa, ocorrida na Glaria Lacloche nesse ano de 1964. Aí expõe as Tauromaquias, juntamente com D. Quixote e os Carneiros (obra também pertencente à colecção do CAM), Ponte D. Luiz, Macaco e Chimpazé. 

 

Não obstante o contacto alargado com movimentos e artistas seus contemporâneos que a mudança para Paris lhe proporciona, Alexandre Pomar nega a influência do informalismo europeu ou do expressionismo abstracto norte-americano sobre a obra do artista, afirmando que as suas mutações decorrem de um desenvolvimento interno às problemáticas plásticas que então o interessavam, como seja a pesquisa em torno do movimento: “Nesse trânsito do visto, e sentido, ao visível pictural, ao fazer do quadro, é cada vez mais a arquitectura efémera do espectáculo que importa, na contingência mutável da cena de grupo enquanto conjunção instantânea de formas e forças, e a representação torna-se inscrição caligráfica de fulgurações, cintilação breve de cores, traço ou marca que no seu movimento constrói e faz vibrar o espaço da tela. As diferentes “coisas” vistas como motivo (modelo) da pintura, o espectáculo de touradas e corridas, de personagens ou multidões, precipitam-se num mesmo observar do acontecer da imagem, do aparecer da forma e do seu desfazer, como tradução da sua instável mobilidade. A figura irá dissolver-se na energia das suas linhas de força e no movimento do seu aparecer.”*

 

Poderíamos aplicar quase integralmente as palavras de Alexandre Pomar acima transcritas à análise da presente obra, intitulada, como tantas outras deste período, Entrada de Touros. Sobre um fundo claro com reverberações de amarelo, emergem, como “fulgurações” que logo ameaçam desvanecer-se, as figuras dos touros nos seus múltiplos movimentos entrecruzados. A representação dos touros, ainda que central, é deslocada para a parte superior da composição, oferecendo assim uma perspectiva recuada da cena e dotando-a de um amplo espaço em seu redor, o qual “respira” e parece apresentar-se como um motivo em si mesmo no enquadramento escolhido. Deste modo, ao longe, observamos a disposição dos touros numa formação tendencialmente oval, mas onde pressentimos a tensão de movimentos contrários. Da breve emergência das figura dos touros, em pinceladas negras, amarelas e brancas, reconhecemos com maior facilidade o referente na figura central, a mancha negra mais compacta com a sugestão dos cornos, sobretudo se atentarmos a obras que realiza no mesmo ano, como sejam os óleos sobre tela intitulados Entrada de Touros e Touro.**

 

Todavia, forçoso é reconhecermos que ao longo da sua pesquisa em torno das tauromaquias, iniciada em 1960, a expressão de corpos em movimentos contrários conduz Pomar a uma gradual dissolução da forma, aproximando-se da assumpção do quadro como um índice — um signo gravado — do movimento traduzido, seja este o da figura representada, seja o do próprio gesto do pintar.

 

* Alexandre Pomar, “Júlio Pomar” in Júlio Pomar. Catálogo ‘Raisonné’ I. Pinturas, Ferros e ‘Assemblages’. 1942-1968, Paris, La Différence, 2001-2004, p. 22.

** Ver Júlio Pomar. Catálogo ‘Raisonné’ I. Pinturas, Ferros e ‘Assemblages’. 1942-1968, Paris, La Différence, 2001-2004, pp. 200-1.

 

 

 

Luísa Cardoso

Fevereiro 2015


Informação técnica

Autor(es)
Júlio Pomar
Título
Entrada de Touros
Data
1964
Materiais
Tela
Dimensões
TipoValorUnidadesParte
Altura88cm
Largura116cm
N.º de inventário
67P765

Inscrição

Tipo assinatura
TextoPomar
Posiçãoc.i.e.
Tipo data
Texto64
Posiçãoc.i.e.


Incorporação

TipoAquisição
Data14 Julho 1967


Exposições

4º Prémio Amadeo de Souza-Cardoso: Júlio Pomar
Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso
Curadoria: Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso
13 de Setembro de 2003 a 2 de Novembro de 2003
Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso
Exposição realizada no âmbito da atribuição do Prémio Amadeo de Souza-Cardoso ao Mestre Júlio Pomar.

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