Victor Palla

Lisboa, 1922 – Lisboa, 2006

Arquitecto, artista gráfico, fotógrafo, pintor, ceramista, editor, escritor, tradutor, galerista...

Victor Palla conciliou experiências diversificadas – «Sou totalmente contra a especialização» – sem esquecer a intervenção pública e política. Participou nas Exposições Independentes, em 1944, no Porto e nas Exposições Gerais em Lisboa; teve um contacto estreito com os círculos literários e artísticos do neo-realismo (juntamente com Júlio Pomar, coordenou a folha de artes do jornal A Tarde). Como arquitecto, em parceria com Bento de Almeida, assinou projectos de clara afirmação modernista: os primeiros snack-bar portugueses – Terminus, Tic-Tac, Galeto –, a escola do Vale Escuro, as vivendas ou o projecto das Açoteias no Algarve (a defesa do modernismo estende-se nos artigos publicados na revista Arquitectura).

 

Iniciou-se cedo na fotografia, acompanhando o interesse amador do pai – «química comprada na drogaria e misturada em casa; nem cartões nem ampliações; só pessoas, só luz natural». Na década de 50, explorou vias próximas da “fotografia subjectiva”, sobrepondo negativos, cruzando modelos vivos e formas modulares ou modelos tridimensionais construídos para o efeito. Em 1956 iniciou, em conjunto com o colega arquitecto e fotógrafo amador Costa Martins, o projecto do livro Lisboa, “Cidade Triste e Alegre”, publicado em fascículos a partir de Fevereiro de 1959, depois de uma exposição na Galeria Diário de Notícias, realizada no ano anterior. Durante três anos, a dupla percorreu a capital para fotografar, sobretudo, os seus habitantes. Entre seis mil, seleccionaram cerca de 170 fotografias para compor um retrato afectivo, assumidamente parcial e incompleto. Deixaram de fora (um tanto paradoxalmente) a cidade moderna: são raros os automóveis e praticamente ausentes as marcas da expansão urbana do pós-guerra. Da luz matinal das primeiras páginas às luzes nocturnas do final, parece passar um dia, feito de muitos dias e de muitos encontros (Ulysses é uma referência da última nota do livro). Crianças dos bairros populares, namorados, velhos dos jardins, varinas, “tarecos”, a Feira da Ladra, carrinhos de choque, merendas domingueiras, casas nocturnas… A descrição parece pitoresca mas o carácter experimental das técnicas de registo, revelação e montagem capta os movimentos de pessoas singulares, sem essencialismos (no final do mesmo ano, William Klein publicará o seu álbum Roma, talvez a obra mais próxima de Lisboa). Há uma aproximação ao cinema, com um forte veio neo-realista: também nesta cidade, revisitada e sonhada, ocorre uma contracção de memória e actualidade. No entanto, as imagens não correm em sucessão; recombinam-se, contraem-se, desdobram-se, sobrepõem-se em composições simultâneas que quebram a corrente do tempo, tomando a forma reflexiva de um “ensaio fotográfico”. Praticamente ignorado na altura da sua publicação Lisboa, “Cidade Triste e Alegre”, foi posteriormente reconhecido como um momento maior da fotografia do pós-guerra. Este reconhecimento não deve, no entanto, obscurecer outras facetas no domínio da fotografia, cuja prática Victor Palla prolongou por várias décadas (como ficou publicamente patente nas exposições de fotografia da Festa do Avante, nos anos 80, e na exposição individual de 1992, na Fundação Calouste Gulbenkian).

 

A sua obra gráfica é igualmente assinalável: a extensão e a qualidade das capas de livros que produziu – talvez o meio mais eficaz de circulação de imagem, no contexto do neo-realismo português – valem por si só um lugar no panorama da cultura portuguesa no pós-guerra. Em 1983 a Galeria Ether realizou a exposição Lisboa, Tejo e Tudo, relançando o interesse pelo livro Lisboa, “Cidade Triste e Alegre”. Em 1999, Victor Palla recebeu o Prémio Nacional de Fotografia.

 

LH

 

Maio de 2010

 

 

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