Miguel Palma

1964

Em 1989, Miguel Palma apresentava a sua primeira exposição individual na Galeria Quadrum intitulada Ludo, propondo ao visitante um longo circuito de objectos lúdicos e didácticos feitos a partir de betão e ferro, cuja vivência remetia a um universo infanto-juvenil e a uma tradição de jogos nacionais. Esta exposição marca o início de carreira do artista que começa a ganhar forma na década de 90. Em 1991, Miguel Palma propõe à Fundação Calouste Gulbenkian o enterro da obra Cemiterra-Geraterra nos jardins da Fundação. Encerrando o globo terrestre num paralelepípedo, o artista enterra a colossal peça, subvertendo assim o conceito de monumento ao ocultá-lo da vista do espectador. O simbólico enterro é perpetuado com a inscrição de uma lápide registando a presença da obra subterraneamente. Em 2000, Miguel Palma desenterra-a, ficando por fim visível nos jardins da Fundação. Actualmente encontra-se em depósito no Parque Ventura Terra da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

 

Em 1993, juntamente com outros artistas da sua geração, Miguel Palma participa na exposição Imagens para os Anos 90, apresentada na Fundação de Serralves, comissariada por Fernando Pernes e com colaboração de António Cerveira Pinto. A exposição que contou com a participação de vinte e três artistas, entre eles Daniel Blaufuks, André Gomes, João Louro, João Paulo Feliciano, Sebastião Resende, Joana Rosa, Rui Serra e João Tabarra, propunha uma ruptura com os anos 80 e uma tentativa de impulsionar artistas emergentes que se afirmaram ao longo da década. Propondo uma visão crítica e até mesmo irónica, Miguel Palma realiza desenhos, esculturas, instalações ou trabalhos de carácter performativo como motores de busca das suas paixões e de problemáticas sociais com estas relacionadas. Reinventando imagens ou situações, Palma apresenta-se como fazedor de mundos e inventor de “ecossistemas”. Ecossistema (1995) e Carbono 14 (1998) são narrativas exploradas pelo artista, cujo denominador comum centra-se na criação de caixas de vidro onde são visíveis cortes geológicos, deixando transparecer cidades subterrâneas repletas de situações vistas com ironia e crítica social.

 

Pautado por um universo que remete a engenhos e máquinas, Miguel Palma trabalha, geralmente, dois mundos aparentemente distantes e que simbolizam as suas paixões quase até à obsessão. O automobilismo, a aviação, a ciência e a engenharia são áreas que fazem parte de um universo-jogo que o artista executa engenhosamente, trabalhando sobre a linha ténue que por vezes separa a produção artística destes outros domínios.

 

A obra de Miguel Palma reflecte ainda experiências de vida ou actividades de teor performativo. Esta duplicidade permanente na sua obra resulta em trabalhos como Engenho, de 1993 – um carro perfeitamente funcional executado pelo artista, e que o próprio conduziu entre Lisboa e Porto a fim de chegar à inauguração da exposição Imagens para os Anos 90, na Fundação de Serralves; Prova de Artista, de 2001, que documenta na Galeria Cristina Guerra a participação de Miguel Palma no Campeonato Nacional de Clássicos – alcançando o 3.º lugar dos Históricos 71 e o 1.º lugar da Classe G4; ou Projecto Gravidade, de 2008, em que o artista executa um carrinho de rolamentos desenhado por si e documenta em vídeo a sua descida no carro ao longo da Rampa do Caramulo. Estes trabalhos performativos são situações constantes de um jogo de prazer e risco que Miguel Palma assume como desafio a si próprio.

 

Apostando na internacionalização já no novo milénio, Miguel Palma auto-ironiza esta situação em 2005 com Projecto Aríete, cujo título nos reporta a um cenário belicista (aríete consiste numa antiga máquina de guerra usada para derrubar portas e muralhas de cidades cercadas). Entre Maio e Junho de 2005, Miguel Palma percorre, num Porsche 911 Carrera com um cokpit de avião de guerra ajustado ao tejadilho do carro, o continente europeu, ao longo de 16 000 km. Visita 43 museus e centros de arte contemporânea com o intuito de mostrar e divulgar a sua obra. Sem qualquer aviso prévio, o artista vestido com um fato laranja de um aviador polaco, entrava nas diversas instituições de arte europeias e levava na mão uma espécie de míssil transparente onde tinha um vídeo, um portfólio em cd, uma t-shirt, uma maquete de um livro e dois capacetes (um capacete MIG de origem russa e outro capacete de aviador norte-americano F15), remetendo assim ao título do projecto-performance mas também à atmosfera da Guerra Fria. Subvertendo a relação entre o artista e os museus ou centros de arte, e negando qualquer intermediário nesta relação, Miguel Palma assume um protagonismo na estratégia de comunicação deste projecto que é recorrente na sua obra. Desta odisseia, ficaram inúmeros documentos escritos, fotografias e vídeos apresentados numa exposição na Galeria Cristina Guerra, no início de 2006.

 

Rescue Games, criado e apresentado em 2008 na Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Nova Orleães – Prospect.1 – com curadoria de Dan Cameron, representa uma espécie de consagração do projecto de internacionalização de Miguel Palma. Apresentando um barco vermelho Higgins, utilizado na II Guerra Mundial, o artista leva ao limite a escala de grandeza que pauta o seu trabalho, numa alusiva referência de dimensão temporal, cuja memória e ligação entre passado e presente é assim recriada. Numa clara referência à situação dramática da cidade de Nova Orleães devastada pelo furacão Katrina em 2005, Miguel Palma utiliza um importante barco de resgate, embora com um novo componente, ao acrescentar no seu topo uma pequena piscina motorizada de ondas e uma escada que circunda ao longo da peça. Rescue Games é indiscutivelmente um marco incontornável no trabalho de Miguel Palma e uma das suas poucas obras nunca vistas em Portugal.

 

A produção artística de Miguel Palma gravita entre uma temporalidade das imagens, ou seja, analogias históricas, apropriação de imagens (mapas e objectos datáveis), uma estética funcional e a capacidade de reinventar realidades metafóricas, colocando por vezes o espectador numa posição incómoda, levando-o a interrogar-se sobre situações e problemáticas que lhe são próximas.

 

IG

 

Março de 2011

 

 

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