3×3 / photos Rita Barros ; text António Calpi, 2010. Biblioteca de Arte. LA 1282 © Rita Barros
Livros de artista: mostra bibliográfica
Pode dizer-se que a relação dos artistas com o livro é quase tão antiga como o próprio livro. Esta relação estreita-se no início do século XX, com o desenvolvimento das técnicas de reprodução a favorecer a colaboração de artistas plásticos, escritores e poetas na realização de livros, encarados como suportes privilegiados de experimentações coletivas, transformados em “obra total”.
Nas décadas de 1960 e 1970, existe um novo interesse dos artistas das designadas segundas vanguardas para utilizarem o livro como campo de ensaio e expressão de ruturas estéticas.
Atualmente, para grande parte dos artistas o livro é apenas mais um dos campos da sua criação, sendo, por isso, indissociável do estudo da produção artística contemporânea.
Este relacionamento frutuoso entre a arte e o livro teve como consequência uma pluralidade de definições possíveis do que é um livro de artista. Livro ilustrado, livro de arte, livro-objeto, livro-obra, livro de artista, são expressões que coincidem em definições onde os autores que se têm debruçado sobre o assunto têm “arrumado” criticamente o tema, amplificadas pelas diferenças que o seu uso envolve quando utilizadas, por exemplo, na língua inglesa, em francês ou em português. Ou, por outras palavras, se não existe concordância na definição, são também diversas as formas que a linguagem pode traduzir a ligação dos artistas com o livro.
“If it walks like a duck and it talks like a duck it’s a duck” é o título de um livro de artista onde a artista, professora e investigadora Ana João Romana recolheu algumas das definições atribuídas a “livro de artista” numa extensa bibliografia já publicada sobre o tema.
Uma análise rápida de algumas das obras dessa bibliografia revela que não existe uma unanimidade entre os autores sobre o assunto, havendo os que incluem na sua definição os livros iluminados da Idade Média e, é claro, os maravilhosos livros escritos e desenhados pelo poeta e pintor inglês William Blake no final do século XVIII.
No entanto, os autores de referência sobre a sua história e definição – a historiadora da arte e artista norte-americana Johanna Drucker, a professora francesa de filosofia da arte Anne Moeglin-Delcroix e o curador norte-americano Clive Phillpot – situam o livro de artista como uma criação das vanguardas das décadas de 1960 e 1970, nomeadamente, dos artistas ligados à arte conceptual.
Outra autora que investigou sobre o tema, Riva Castleman, historiadora da arte norte-americana e curadora da exposição A century of Artists Books – que o Museum of Modern Art (MoMA) de Nova Iorque apresentou em 1994 –, tinha uma conceção mais abrangente, incluindo na sua definição os livros ilustrados pré-século XX.
Por seu lado, o colecionador e estudioso italiano Giorgio Maffei considera o final do século XIX como a época em que uma nova forma de encarar o livro colocou em diálogo as suas características formais com as visuais, estas através da utilização da composição tipográfica, mercê dos desenvolvimentos técnicos alcançados.
A obra que se destaca como pioneira nesta junção entre conteúdo e forma, foi o poema Un coup de dés jamais n’abolira le harsard que o autor francês Stéphane Mallarmé publicou em 1897, na revista Cosmopólis, editado em livro em 1914.
Para Maffei, o texto de Mallarmé marca, “ainda que de forma convencional, o nascimento do livro de artista, um arquétipo aceite pela crítica, quase sempre dividida pela própria noção e definição de livro de artista” (¿Qué es un libro de artista?, texto editado no catálogo ¿Qué es un libro de artista?. Cantabria : La Bahía, 2014, página 11).
A partir da década de 1980 registou-se uma maior aderência dos artistas à criação de livros de artista, geralmente acompanhada por exposições. Em Portugal, a que terá sido a primeira exposição dedicada ao Livro de Artista realizou-se em 1983 na Galeria Diferença. Alguns dos primeiros livros da coleção da Biblioteca de Arte vieram desta exposição.
Esta espécie de explosão do Livro de Artista começou a levantar outras questões: onde devem estar este tipo de obras? Devem pertencer ao acervo de museus de arte moderna e contemporânea? Ou, porque os livros são a sua filiação conceptual, devem pertencer às coleções documentais das bibliotecas?
Estas interrogações são ainda mais pertinentes se pensarmos em livros-objeto, quase sempre obras únicas e com grande afinidade material com a escultura, e a resposta não é fácil, nem imediata ou consensual. E pode contemplar as duas possibilidades, sem prejuízo uma da outra. Mas nas bibliotecas, com mais ou menos precauções de manuseamento, estes livros têm um acesso mais alargado, podem ser “lidos” por públicos diversos e constituir fontes de inspiração para outras criações.
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