Obras de Arte Britânica da Coleção Berardo
A Coleção Berardo reúne um conjunto de obras notáveis, significativas de vários momentos que marcaram a história de arte do século XX e que através de diferentes movimentos e protagonistas nos permitem uma leitura alargada e criteriosa do desenvolvimento das artes visuais até ao início do século XXI.
O aparecimento das primeiras vanguardas no início do século passado trouxe inúmeras possibilidades estéticas, até então inimagináveis, e com enorme repercussão em todo a arte ocidental posterior a esse momento. Foi um período marcado por descontinuidades e ruturas que, contudo, se inscreveram numa cultura artística, e essa leitura é-nos possibilitada pela Coleção Berardo, cuja diversidade nos mostra a grandeza da criatividade, complexidade e contradição das artes visuais no século XX. A Coleção Berardo exemplifica de forma brilhante essa dialética, o conflito, e por fim a relação, entre a abstração e a figuração que percorre todo o século XX. Podemos afirmar que, no seu conjunto, esta coleção é um registo psicológico magnífico da mentalidade moderna e de toda a sua ambivalência.
Em Arte Britânica – Ponto de Fuga, cruzam-se duas grandes coleções: a Coleção Gulbenkian e a Coleção Berardo. Pela enorme riqueza, diversidade e complementaridade das diferentes obras que reúnem, estes acervos permitem uma leitura muito interessante da arte inglesa no século XX, abrindo múltiplas pistas para compreender os confrontos entre as suas diferentes componentes e sensibilidades.
Para este projeto, foram selecionadas algumas obras de artistas das chamadas vanguardas históricas – Construtivismo, Abstração-Criação e Surrealismo – que moldaram a história de arte. Artistas como Ella Bergmann-Michel, Kurt Schwitters, Peter Laszlo Peri , Lászlo Moholy-Nagy, Ben Nicholson, Peter Josef, Keneth Martin, Paule Vézelay , Eileen Agar, Grace Pailthorpe, Reuben Mednikoff e Roland Penrose, vieram desafiar os cânones tradicionais – a representação ilusionista do mundo através da perspetiva – a favor de novas experiências, como a geometrização das formas na pintura não figurativa, as colagens e as assemblages, que alteraram por completo o conceito da obra de arte, a sua natureza e a sua função. Já não se pretendia reproduzir fielmente a realidade do mundo, mas sim dar a possibilidade aos artistas de se expressarem e de se interrogarem sobre os processos e o fim da arte.
Nesta apresentação incluíram-se igualmente obras de movimentos e de artistas emergentes no pós-guerra: Regresso à Figuração, Abstrações, Arte Cinética, Pop Arte e Conceptualismos. Alguns destes artistas trabalharam a tensão entre abstração e figuração, desenvolvendo as suas obras a partir das pesquisas das primeiras vanguardas. Se no imediato pós-guerra, e ao longo da década de 1950, a abstração foi a linguagem dominante da arte ocidental, a recuperação económica e o estabelecimento de uma sociedade de consumo e de cultura de massas, provocaram a emergência de linguagens artísticas que comentaram criticamente a nova realidade urbana. Artistas como Richard Hamilton, Eduardo Paolozzi, David Hockney, Pauline Boty, Francis Bacon, R. B. Kitaj, Jann Haworth ou Peter Blake, refletiram este ar do tempo nas suas obras, desenvolvendo técnicas pessoais de representação.
Da leitura de todos estes cruzamentos surge a enorme pluralidade e riqueza das artes visuais no Reino Unido, de que esta exposição pretende ser testemunho.
Rita Lougares
Curadora