A Coleção de Arte Britânica Moderna do CAM

Uma parte significativa da coleção de arte britânica do Centro de Arte Moderna Gulbenkian foi constituída num momento chave para o Reino Unido, em que foi conscientemente trabalhada a operacionalidade nacional e internacional de uma específica ‘identidade’ britânica.

Na qual, voluntária e, talvez também, involuntariamente, a Fundação Calouste Gulbenkian participou, através da sua determinante ação no Reino Unido após a sua constituição.

O que faz com que esta coleção, para além da relevância que tem do ponto de vista artístico, ao documentar por vezes exaustivamente, tendências fortes que se afirmaram à época na criação das artes visuais no Reino Unido, com evidentes efeitos nas décadas posteriores, tenha também grande relevância enquanto manifestação de um processo histórico e de um sistema específico de funcionamento das instituições artísticas britânicas. Este sistema funcionou, estrategicamente oleado, nas décadas de 1950 e 1960, mais especificamente entre 1955 e 1965, isto é, em plena Guerra Fria, e no período geralmente identificado como de recuperação da depressão do imediato pós-guerra (1945-1955), avançando até meados dos «swinging Sisties», uma década de efervescência cultural e artística no Reino Unido.

O início da coleção de arte britânica moderna do CAM data de 1959 – com as primeiras aquisições concretizadas em Março de 1960 –, sob a tutela do British Council, instituição dedicada à promoção internacional da língua, da cultura e da arte britânicas, por ação do seu departamento de Belas-Artes (renomeado de Artes Visuais) e da comissão de aquisições de obras de arte destinadas à coleção deste departamento. Cem (100) obras de arte são, deste modo, adquiridas com verbas da Fundação privilegiando jovens e menos conhecidos artistas. Este conjunto fica durante dez anos à disposição do BC, e viaja extensamente, integrado no seu vasto programa internacional de exposições ou exposto nas suas delegações espalhadas pelo mundo.

Em simultâneo com as aquisições do British Council, a delegação em Londres da Fundação, o London Branch, desenvolve um vasto programa de atividades no domínio artístico, que incluía subsídios a instituições britânicas e aquisições e prémios a artistas. Estas obras de arte foram muitas delas adquiridas através de galerias de arte municipais ou ligadas a universidades fora de Londres, ou cedidas imediatamente após a aquisição a essas mesmas entidades.

O resultado desta ação bipartida ao longo da década de 1960 será o conjunto de obras de arte britânicas que fica sediado em Lisboa após a inauguração do CAM em 1983. Por ser considerado um património valioso, a evolução desta coleção merecerá atenção específica a partir de 1985, através de novas aquisições feitas por diferentes compradores contratados pelo London Branch e pagas a meias com o CAM. A partir de 2000, como já referido, há uma diminuição das aquisições para a coleção. Dá-se, no entanto, um esforço de integração das obras britânicas com obras de artistas portugueses entre outras nacionalidades, em várias exposições que apresentam aspetos da coleção do CAM, linha que se mantém até ao presente.

Ana Vasconcelos
Curadora

 

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