Rui Chafes e Alberto Giacometti

Gris, vide, cris

3 outubro – 16 dezembro 2018

Curadora : Helena de Freitas

 

Gris, vide, cris, três palavras escolhidas de um verso de Alberto Giacometti, reúnem nesta exposição dois artistas, afastados no espaço, no tempo e nas formas que deram às suas esculturas. Pode portanto, justamente, interrogar-se o sentido e a natureza desta reunião. Na verdade os artistas não se cruzaram. Rui Chafes nasceu exactamente no ano da morte de Giacometti, em 1966, e não há matéria biográfica ou histórica para alimentar o modelo de um diálogo. Daí que a exposição se assuma, desde a sua génese, como um encontro

A ideia surgiu com a força de uma clareza, à qual não assiste qualquer analogia formal, mimetismo, ou espírito de filiação. Pela consciência dessa diferença mas também e sobretudo pelo potencial de ressonância das obras dos dois artistas, o projecto desenvolveu-se com a energia de uma pesquisa e de um território de imagens e de significados a explorar.

Como atingir a partir da matéria, o ponto de imaterialidade e de transcendência? Como representar o invisível? Alberto Giacometti e Rui Chafes tomam caminhos autónomos nesta pesquisa: Giacometti numa exasperada desmaterialização, Rui Chafes, desafiando o ferro até aos limites da imponderabilidade. A tensão criada pelas obras dos dois escultores encontra-se numa lâmina, entre a ascensão e a queda.

Sem se desviar da natureza da sua própria pesquisa, Rui Chafes permite uma aproximação única à obra de Giacometti, uma experiência sensível onde se impõem o silêncio e a solidão. Contrariando o léxico contemporâneo da aceleração e da homogeneidade, Rui Chafes acompanha Alberto Giacometti na criação de “pontos baços, obscuros, ásperos, foscos”. Ver, é na declinação deste verbo que a exposição se pode conjugar. Ver o invisível.

Na exposição são apresentadas quinze obras de Alberto Giacometti, (onze esculturas e quatro desenhos) e sete esculturas de Rui Chafes que, à excepção de uma (Larme V, 2015), foram concebidas especificamente para este projecto.

Gris, Vide, Cris foram as palavras que reuniram estes dois escultores, que assim se encontram, neste espaço fora da História e dos limites do Tempo, ousando os caminhos da noite e do desconhecido.

 

Alberto Giacometti, Toute petite figurine, vers 1937-39, col. Fondation Giacometti, Paris © Succession Alberto Giacometti (Fondation Giacometti, Paris + ADAGP) 2018
Alberto Giacometti, Femme debout, 1956, col. Fondation Giacometti, Paris © Succession Alberto Giacometti (Fondation Giacometti, Paris + ADAGP) 2018
Rui Chafes, Un autre corps I, 2018. Cortesia do artista; Foto : Alcino Gonçalves
Rui Chafes, Avec rien, 2018. Cortesia do artista; Foto : Alcino Gonçalves

 

Rui Chafes

Rui Chafes nasceu em 1966 em Lisboa, cidade onde actualmente vive e trabalha. Em 1989 licenciou-se em Escultura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Entre 1990 e 1992 estudou com Gerhard Merz na Kunstakademie Dusseldorf, na Alemanha. Durante esta estadia traduziu do alemão para português Novalis Fragments.

Rui Chafes reenvindica para o seu trabalho um território intemporal e situa-se num campo de referências muito próximo e íntimo com os seus mestres antigos, de cumplicidades mais electivas que geracionais, como Tilman Riemenschneider, Jacopo della Quercia, Bernini, Novalis, Otto Runge. As suas esculturas quase sempre em ferro, pintado a negro ou a antracite, procuram o lugar vazio de um não objecto.

Expõe regularmente desde os anos 80, e desde cedo consolidou uma carreira internacional, tendo sido representante português na Bienal de Veneza (1995 com José Pedro Croft e Pedro Cabrita Reis) e na Bienal de São Paulo (2004, num projecto com Vera Mantero). Tem diversas esculturas no espaço público, em Portugal e no estrangeiro. Em 2004 recebeu o Prémio de Escultura Robert-Jacobsen da Würth Foundation, Alemanha e em 2015 o Prémio Pessoa em Portugal.

Parte da sua actividade é dedicada à escrita, tradução e edição de monografias que acompanham o seu trabalho de escultura.

 

 Alberto Giacometti

Nascido em 1901 em Stampa, na Suiça, Alberto Giacometi é o filho de Giovanni Giacometti, pintor pós impressionista de renome. É no atelier paterno que Alberto dá os primeiros passos como artista e realiza, aos 14 anos, as suas primeiras obras: uma Nature morte aux pommes e um busto esculpido do seu irmão Diego. Em 1922, Giacometti parte para estudar em Paris e ingressa na Academia da Grande-Chaumière, onde começa a seguir as aulas do escultor Antoine Bourdelle. Neste período, aprende a técnica de desenho com modelo e interessa-se pelas propostas das vanguardas, em particular as pós-cubistas. Em 1929, começa uma série de femmes plates, cuja novidade despertará o interesse do meio artístico surrealista. Em 1931, Giacometti adere ao movimento surrealista de André Breton; os temas surrealistas são importantes nas suas obras: o amor e a morte, a visão onírica, objectos de funcionamento simbólico. Na mesma altura, cria inúmeros objectos utilitários para o decorador vanguardista Jean-Michel Frank: candeeiros, jarros, appliques. A partir de 1935, distancia-se do grupo surrealista e dedica-se intensamente à questão da cabeça humana, que será durante toda a sua vida um tema central de investigação.

Regressa a Paris após ter passado os anos da guerra na Suiça, onde retoma as suas investigações em torno da figura humana. Os seus modelos preferidos são aqueles que o rodeiam: Annette, a sua mulher desde 1949, e Diego, seu irmão e assistente. Trabalhando d’après nature, ele procura conceber o modelo tal qual o vê, na sua aparência sempre em mutação. Em outras ocasiões, as suas figuras tornam-se anónimas, colocadas em plintos que as isolam do chão, ou envolvidas por “gaiolas” que desenham um espaço virtual. Em 1958, Giacometti é convidado a propor um projecto de grande dimensão para a praça do Chase Manhattan Bank de Nova Iorque. Para esta obra, decide retomar os três motivos que perseguem a sua obra desde 1948: uma figura feminina de pé, um homem que caminha e uma cabeça monumental. Finalmente, o monumento não será instalado em Nova Iorque, mas Giacometti apresentará uma primeira versão em bronze deste conjunto na Bienal de Veneza em 1962, onde vence o Grande Prémio de Escultura. Após o grande sucesso das suas retrospectivas de Zurique, Basileia, Londres e Nova Iorque, Alberto Giacometti, enfraquecido por um cancro, falece em Janeiro de 1966 na Suiça. (Fondation Giacometti, Paris)

 

Exposição aberta segunda, quarta, quinta e sexta feira das 9h às 18H
Sabado e domingo das 11h às 18h
Entrada livre.
A exposição estará excepcionalmente aberta nas terças-feiras 4 e 11 de dezembro das 9h às 18h.
Para conforto da visita, o acesso à sala é limitado.
Para visitas de grupo, contactar a Delegação: 01 53 85 93 81

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Parcerias media :

 

 

 

Programação complementar

Cada quarta-feira às 14:30

Cada quarta-feira às 14:30

Visite a exposição Rui Chafes e Alberto Giacometti - Gris, vide, cris, em companhia da curadora, Helena de Freitas. Clique no link para a inscrição

Conferência de Federico Nicolao, La main dans le vide,18 de outubro às 19:00

Conferência de Federico Nicolao, La main dans le vide,18 de outubro às 19:00

Através da escultura, Alberto Giacometti e Rui Chafes viajam pelo desconhecido, pedindo-nos que nos deixemos envolver numa trajectória singular e arriscada até aceitarmos que o tempo e o espaço, inquebráveis, são meros critérios de representação da realidade dos quais devemos aprender a duvidar.

Conferência de Maria Filomena Molder, Un trou dans la neige, 6 de novembro às 19:00

Conferência de Maria Filomena Molder, Un trou dans la neige, 6 de novembro às 19:00

Giacometti, ia ele pelos 4 ou 5 anos, dá-nos conta da sua paixão pela neve e do desejo irrefreável que um dia sentiu de dirigir-se para um prado e munido de um pau pontiagudo abrir um buraco minúsculo na neve, por onde ele se esgueirasse com o seu pequeno saco e onde se esconderia todo o Inverno.

Catálogo

Catálogo

Publicado em outubro de 2018, o catálogo inclui textos de Christian Alandete, Rui Chafes, Doris von Drathen e Helena de Freitas, ilustrado com fotografias das salas e das obras apresentadas na exposição.