Sala René Lalique

Após um período de renovação, a sala do Museu Calouste Gulbenkian exclusivamente dedicada à produção joalheira e vidreira de René Lalique reabriu ao público. Conheça a nova galeria através de uma seleção de textos e imagens que permitem destacar algumas das obras em exposição e descobrir os núcleos especialmente idealizados para valorizarem os grandes temas do artista.

René Lalique e Calouste Gulbenkian

René Lalique (1860-1945) e Calouste Sarkis Gulbenkian (1869-1955) conheceram-se em meados da década de 1890. Em carta dirigida a Suzanne Lalique-Haviland (1892-1989), em 1945, por ocasião da morte do artista, Gulbenkian manifestava à filha de Lalique o seu profundo pesar pelo desaparecimento do amigo: «O seu Pai era um amigo muito querido, e ao desgosto de o termos perdido junta-se o infinito pesar que sempre experimentamos perante o desaparecimento de um grande homem. A minha admiração pela sua obra única nunca cessou de aumentar ao longo dos cinquenta anos que durou a nossa amizade […] Orgulho-me de possuir, creio bem, o maior número de obras suas, que ocupam um lugar privilegiado entre as minhas coleções»1.

Das quase duas centenas de obras adquiridas por Calouste Gulbenkian diretamente a René Lalique entre os anos de 1899 e 1927, é possível reconhecer tanto a prodigiosa imaginação do artista, como o gosto e a personalidade do colecionador. A coleção traduz, nessa medida, no que diz respeito ao período Arte Nova, sobretudo, momento em que Gulbenkian assegurou a aquisição de algumas das mais célebres joias do genial criador, uma síntese da sua obra.

1 Carta de Calouste Gulbenkian a Suzanne Lalique-Haviland, datada de 8 de julho de 1945. Arquivos Gulbenkian, MCG 00972

Ideário e Metamorfoses

Motivo central na obra de Lalique, a imagem obsessiva da mulher, que o espírito da época abordou exaustivamente, foi pretexto para algumas das suas mais ousadas criações. Adquirido por Gulbenkian em 1903, o peitoral Libélula, que Sarah Bernhardt (1844-1923) terá usado em cena, e a que as asas articuladas em esmalte vitral conferem uma dimensão espetacular, resulta da simbiose de dois temas recorrentes do imaginário de Lalique: a figura feminina e o inseto em que esta se transforma e que dá origem a uma criatura híbrida, a mulher/inseto.

Temas inspirados numa fauna exuberante, real ou imaginária, evocação de um fabuloso bestiário alimentado pelo ecletismo da época, contribuíram para enriquecer o imenso repertório de Lalique. Constituído por répteis e insetos, que ora nos atraem ora nos apavoram, essa fonte de inspiração deu origem a algumas das suas mais célebres criações. O peitoral Serpentes, adquirido em 1908, em ouro e esmalte opalino, material omnipresente na produção joalheira de Lalique, constitui uma variante da versão apresentada pelo mestre na Exposição Universal de 1900.

A Inspiração Clássica

Em 1902 Lalique instalou-se no 40, Cours-la-Reine, em Paris. O centro de mesa Figura Feminina inclui-se entre os objetos que o artista manteve em exposição no local durante algum tempo e que Calouste Gulbenkian adquiriu em 1905 pelo valor mais elevado que alguma vez pagou por uma obra de Lalique. Tal como o tabuleiro de tinteiro Rapto de Dejanira, a obra inclui elementos decorativos em vidro, material que Lalique integrou desde muito cedo na sua criação joalheira e em objetos de ourivesaria.

Na viragem do século, Lalique recorreu frequentemente à moldagem a cera perdida, técnica derivada de um processo milenar de fundição de objetos em bronze, que adaptou às suas criações mais elaboradas em vidro. O vaso Górgonas, em vidro moldado-soprado, adquirido por volta de 1913, decorado com a representação de cabeças de górgonas, faz parte deste conjunto de obras únicas. Mais tardio, o vaso Cluny, um modelo de 1925, do período Art Déco, decorado com máscaras inspiradas no teatro clássico, incorpora já a técnica do vidro moldado-prensado.

A Exposição Universal de 1900

O broche em marfim Figuras e serpentes, citação do grupo escultórico clássico Laocoonte e seus Filhos (Museus do Vaticano), é uma das quatro joias da Coleção Gulbenkian que fizeram parte da apresentação triunfal de Lalique na Exposição Universal de Paris, em 1900. A introdução de materiais inesperados na criação joalheira, como o marfim, o esmalte, o chifre ou o vidro, em detrimento da utilização de pedras preciosas, ilustra a importância do mestre na transformação da joalharia, que conheceu, através da originalidade das suas criações, uma verdadeira revolução. Temas de inspiração medieval ou renascentista ilustram, em diversos pendentes da Coleção, a capacidade inovadora do artista.

Também na ourivesaria Lalique associou materiais como o vidro e a prata na conceção de um mesmo objeto. A jarra Cardos, igualmente presente na exposição de 1900, e o açucareiro Serpentes, em vidro soprado e patinado, numa montagem vazada em prata, envolta por serpentes entrelaçadas, tema recorrente na obra de Lalique, são exemplos representativos dessa integração de materiais.

A Invenção da Joia Moderna

Em 1897 Émile Gallé (1846-1904) reconheceu no envio de Lalique ao Salon de Paris a criação definitiva da «joia moderna». Confirmava-se, assim, a intenção do artista em realizar, como confidenciara ao joalheiro Henri Vever (1854-1942) dois anos antes, «algo nunca visto». A placa de gargantilha Arvoredo constituiu a primeira de oitenta e duas joias da coleção adquiridas diretamente ao artista, com apenas uma exceção, o broche A oferenda. O pendente O rapto de Dejanira, onde convergem a escultura em vulto perfeito e o trabalho em esmalte, confirma o conceito de «obra de arte total».

René Lalique fez-se representar na Exposição Universal de 1900 com cerca de uma centena de obras, que expôs em espetaculares vitrinas especialmente concebidas para o efeito. O diadema Galo e a placa de gargantilha Arvoredo foram, à semelhança do peitoral Libélula, algumas das joias que despertaram o espanto e a admiração dos visitantes da exposição.

Uma Fauna Exuberante

O peitoral Pavão, ave emblemática do movimento Arte Nova, esmaltado em tons de azul e verde, material tão do agrado de Lalique, pontuado por opalas em cabuchão, foi adquirido por Calouste Gulbenkian no ano de 1900. A opala irisada, presente num número significativo de joias da Coleção, foi a pedra favorita do artista. O poeta Robert de Montesquiou (1855-1921) dedicou-lhe um verso na compilação Les Paons (1901), cuja capa foi ilustrada pelo próprio Lalique. 

O tema da mulher-flor, tão caro à poesia da época, marcou de forma determinante a originalidade criativa de Lalique. O pendente Rosto Feminino, de onde se suspende uma pérola barroca, de influência renascentista, encontra-se envolto por quatro papoilas abertas, flor emblemática no período Arte Nova, cuja simbologia se encontra associada ao mundo onírico. O pendente em esmalte vitral Orquídea, símbolo da pureza e da fecundação, dá forma ao motivo do eterno encontro entre a mulher e a flor, ou à metamorfose que resulta dessa assimilação.

A Natureza Omnipresente

A coleção integra diversos exemplares de diademas e pentes realizados em chifre, material inovador utilizado por Lalique na execução de joias, apresentadas pela primeira vez no Salon de Paris, em 1896. No diadema Orquídeas, uma sublime síntese da natureza, no qual se combinam chifre e marfim, Lalique recria literalmente uma natureza plasmada do real. Flor símbolo do movimento Arte Nova, a orquídea assume, no centro do diadema, total protagonismo.

Fortemente influenciado pelo espírito naturalista da arte japonesa, que fascinou a Europa a partir da segunda metade do século XIX, e caracterizado por uma grande simplicidade decorativa, o diadema Haste de macieira, um dos vinte e sete objetos em chifre conservados na Coleção realizado nesse material, demonstra igualmente a constante inspiração de Lalique num inesgotável e maravilhoso repertório botânico, que o acompanhou ao longo de toda a carreira.

Vidro, «a matéria maravilhosa»

A procura da transparência foi, desde muito cedo, uma preocupação primordial para Lalique. A gargantilha Gatos, em cristal de rocha, é disso exemplo. Após a 1.ª Guerra Mundial, em 1922, ficou operacional a sua fábrica vidreira, na localidade de Wingen-sur-Moder. A atividade do «industrial criador» – Lalique abandonara a criação joalheira em 1912 -, voltou-se definitivamente para a produção de objetos em série, em vidro moldado-prensado. Encomendas destinadas a projetos de arquitetura ou de decoração, identificados com uma clara ideia de modernidade, foram realizadas na fábrica da Alsácia.

Em 1925, por ocasião da Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, em Paris, Lalique conheceu uma vez mais o aplauso do público e da crítica com a apresentação das suas criações em vidro, a que chamou a «matéria maravilhosa». Também no estilo Art Déco o artista encontrou resposta para as aspirações de uma nova era de otimismo e de consumo, e contribuiu, de forma decisiva, para a transformação da arte do vidro.

Vistas da sala René Lalique

 

Vídeos sobre René Lalique

Veja os vídeos da conservadora Luísa Sampaio produzidos no âmbito da exposição temporária René Lalique e a Idade do Vidro.

 

 

 

Mecenas da renovação da sala